Tony Goes

Lúcido e ponderado, Marcelo Adnet se sai bem no Roda Viva

Humorista confirmou em programa da TV Cultura que é voz brasileira importante

Nesta segunda-feira (17), o Roda Viva entrevistou o ator, compositor e humorista Marcelo Adnet - Divulgação
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

O Brasil vive um momento peculiar. Os políticos de oposição ao governo Bolsonaro agem feito baratas tontas: uma parte só pensa na absolvição de Lula, e todos brigam entre si quando deveriam estar unidos contra o adversário comum.

Este vácuo fez com que as vozes mais contundentes contra o descalabro vigente surgissem em outras áreas. Alguns nomes eram desconhecidos do grande público até o começo deste ano, como o biólogo Atila Iamarino ou a advogada Gabriela Prioli –ambos colunistas da Folha. Outros, como o youtuber Felipe Neto ou o rapper Emicida, já estavam em evidência há tempos, e ganharam importância ao se posicionarem de maneira clara e corajosa.

Marcelo Adnet também faz parte deste grupo. Figurões do mundo político sempre estiveram no cardápio de suas imitações prodigiosas. Mas o confinamento, que obrigou o humor televisivo brasileiro a se reinventar na forma, vem produzindo conteúdos de alta qualidade. Um dos mais vistosos é o programete Sinta-se em Casa, realizado domesticamente por Adnet e disponibilizado de segunda a sexta na plataforma Globoplay, desde meados de abril.

Muitos episódios viralizaram, porque o formato permite que o humorista aborde o noticiário do dia enquanto ele ainda está fresco. Nem tudo é política, é claro: há espaço para o cavalo que atrapalhou uma live, ou para Paula Lavigne infernizando Caetano Veloso. Mas são as esquetes políticas que vêm alcançando maior repercussão.

Adnet acabou se convertendo em uma espécie de porta-voz informal de muita gente que se sente indignada com a maneira que o país vem sendo conduzido. Esta nova função lhe rendeu um convite para o Roda Viva (Cultura) desta segunda (17).

É verdade que a entrevista foi morna, como já salientou meu colega Mauricio Stycer. Não houve nenhuma declaração surpreendente, e muito menos um embate sério com algum integrante da bancada. Quase todos, aliás, fãs declarados do humorista: os também comediantes Bruna Braga e Hélio de la Peña, o escritor e colunista da Folha Antonio Prata, a jornalista Anna Virgina Balloussier, também da Folha, e o apresentador Marcelo Tas.

Foi este último quem formulou as perguntas mais polêmicas –que, se não chegaram a incendiar o programa, causaram bastante balbúrdia nas redes sociais. Existe até uma campanha pelo “cancelamento” de Marcelo Tas.

Não sem uma certa razão. Logo em seu primeiro questionamento, o condutor do #Provoca (Cultura) perguntou a Adnet por que não existe mais humor político na TV brasileira. Só que existe: todos os humorísticos recentes da Globo, do Zorra ao quadro Isto a Globo Não Mostra, do Fantástico, não poupam críticas aos poderosos de plantão. É a concorrência que costuma pegar leve.

Depois, quando Adnet se declarou de esquerda, Tas tentou encostá-lo na parede, alegando que não existem humoristas em Cuba. De novo: só que existem. O humor sobrevive até na TV da Arábia Saudita, uma das ditaduras mais fechadas do mundo. Tas ainda pareceu confundir humorismo com jornalismo, ao cobrar uma suposta isenção de Adnet, que, segundo ele, jamais deveria expor qualquer preferência política.

E acabou provocando uma resposta exemplar, em que Marcelo Adnet deixou claro que o fato de ser progressista não o torna apoiador dos regimes chinês ou norte-coreano, por exemplo. De resto, o humorista nunca deixou os líderes da esquerda brasileira de fora de suas paródias.

Outra saia justa foi lançada por Anna Virginia Balloussier, que indagou se Adnet sabia das acusações de assédio moral e sexual que pesam contra Marcius Melhem, e se ele testemunharia sobre o caso se fosse convocado. Melhem teve o contrato rescindido com a Globo, depois de ter chegado a diretor da área de humorismo da emissora. Criou o programa Tá no Ar em parceria com Adnet, e os dois contracenaram juntos inúmeras vezes nos últimos anos.

Novamente o entrevistado se saiu bem, colocando-se ao lado das vítimas do assédio (entre elas, sua ex-mulher Dani Calabresa), mas também sem empurrar o ex-colega para a fogueira –até porque, segundo suas próprias palavras, ele não sabe direito o que aconteceu. “Mais forte do que a minha opinião é a lei”, afirmou ele.

De modo geral, se não chegou a ser histórico, foi um bom episódio do Roda Viva. Articulado, ciente de sua posição e de sua influência, Adnet confirmou que é mesmo um dos novos expoentes da cultura popular brasileira –e, assim como seus antecessores Jô Soares e Chico Anysio, tem tudo para prosseguir assim por muito tempo.

Em tempo: logo após o programa, Vera Magalhães retuitou um meme que compara a jaqueta de couro tricolor que ela usava a um sanduíche Cheddar McMelt. Bem-humorada, a apresentadora admitiu que a imagem lhe deu fome, e que passaria num drive-thru do McDonald’s a caminho de casa. Rir de si mesma denota grandeza de alma, algo que também anda em falta neste país.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem