Tony Goes

O caso de Asia Argento pode prejudicar o movimento #MeToo?

Atriz denunciou assédio sexual, mas é acusada do mesmo crime

A atriz, cantora, modelo, roteirista e cineasta italiana, Asia Argento.
A atriz, cantora, modelo, roteirista e cineasta italiana, Asia Argento. - Reuters/Stephane Mahe

São Paulo

Em outubro de 2017, o jornalista Ronan Farrow – filho de Mia Farrow e Woody Allen – publicou na revista New Yorker uma matéria em que 13 atrizes diferentes acusavam o produtor Harvey Weinstein, um dos mais poderosos de Hollywood, de tê-las estuprado ou molestado sexualmente. Entre elas estava a italiana Asia Argento, que filma com frequência nos Estados Unidos.

A reportagem tornou-se um dos pontapés iniciais do movimento #MeToo: uma onda de denúncias de assédio sexual, que começou na indústria cinematográfica americana e depois se espalhou para outras áreas e países. Nomes como James Franco e Morgan Freeman tiveram suas reputações arranhadas; outros, como Kevin Spacey, praticamente encerraram suas carreiras.

Desde o começo, Asia Argento se tornou uma das porta-vozes do movimento. Ao lado de Rose McGowan, outra líder do #MeToo, ela participou de uma passeata em Roma contra o abuso sexual, em março passado. Em maio, fez um discurso no encerramento do Festival de Cannes que repercutiu mundo afora.

E agora, em agosto, a própria Asia se vê acuada pelo movimento que ajudou a criar. O jornal The New York Times revelou que, um mês depois da matéria na New Yorker, o ator Jimmy Bennett ameaçou a atriz com um processo. Os dois chegaram a um acordo financeiro: Argento concordou em pagar US$ 380 mil a Bennett (cerca de R$ 1,5 milhão), em troca do silêncio dele.

Este silêncio se quebrou: o NYT recebeu, através de e-mails criptografados, um relato comprometedor sobre Argento, acompanhado por fotos. Ela teria transado com o ator em 2013, na Califórnia, quando ele tinha pouco mais de 17 anos. Pelas leis daquele estado, sexo com menores de 18 anos é crime.

É curioso que Bennett tenha esperado Argento denunciar Weinstein para, finalmente, chantageá-la. Mais bizarro ainda é ele alegar um trauma profundo, que teria prejudicado sua carreira e seus rendimentos. Mas a lei é clara: se comprovada a transa, Argento pode até ser presa.

A notícia caiu feito fogos de artifício sobre a cabeça dos detratores do #MeToo. Os advogados de Weinstein estão se regalando. Na Itália, onde Asia Argento nunca foi especialmente popular, a imprensa conservadora está fazendo um carnaval, tentando invalidar não só as denúncias que ela fez, como as de todas as mulheres que vieram a público nos últimos meses.

Algumas pessoas estão saindo em defesa da atriz. Ela não saberia que Bennett era menor de idade. Não teria o poder de coagi-lo a fazer sexo com ela, nem de oferecer muita coisa em troca. Mas essa linha de pensamento é furada: o #MeToo, para causar uma mudança real, tem que valer em todos os sentidos, para todos os gêneros, para todo mundo.

Mais razoável é aceitar que uma das demandas mais radicais do movimento – a de que a denunciante tem sempre razão, que seu suposto algoz merece o fogo do inferno e que quem ousar defendê-lo é cúmplice em um crime hediondo – é bastante despropositada.

O assédio sexual é um problema gravíssimo, que permeia todos os estratos da sociedade. Mas não basta só denunciá-lo e exigir a punição imediata dos acusados: é preciso investigar, ouvir todas as partes, ponderar as motivações.

Que o caso de Asia Argento traga alguma contenção ao que já se configurava como uma caça às bruxas. E que ela própria se beneficie dessa moderação. Afinal, não existe ninguém que seja 100% mocinho ou bandido. O mundo não é em preto-e-branco: é em bem mais do que 500 tons de cinza.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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