Colo de Mãe
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Esgotamento materno não vai acabar se reabrirmos escolas na pandemia

Colocar nossos filhos em risco não pode ser a única saída contra o estresse infantil

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Primeiro, era só uma gripezinha e “o Brasil não poderia parar por causa de 5.000 ou 7.000 mortes”. Depois, os protestos em carros de luxo pela reabertura econômica. A pressão foi tamanha que, mesmo com os números de contaminação e mortes em alta, governadores e prefeitos começaram a reabrir bares, academias, cabeleireiros...

Em Manaus (AM), é possível que se tenha atingido a “imunidade de rebanho”, mas o preço foi de corpos em valas comuns e caminhões frigoríficos para guardar os cadáveres. As recomendações técnicas deixam claro que, quando começamos a reabrir, era a hora de fechar totalmente, de fazer o lockdown.

Poucos tiveram essa coragem e, nas unidades da federação onde isso foi feito, a pandemia arrefeceu antes. Vide o caso do estado de Pernambuco. Era preciso reabrir. A economia ia mal e estava todo mundo de saco cheio de ficar trancado. Era hora de exercer o “direito de ir e vir”, muitas vezes esquecendo-se que o direito à vida está acima do direito de locomoção.

Mas o “saco cheio” chegou às crianças. Esses pequenos seres trancafiados, sem escola, e tidos como grandes vetores do coronavírus já estavam de saco cheio faz tempo, mas ninguém lhes deu voz. Apenas agora, passados seis meses, quando mães (e, em alguns casos, pais) não aguentam mais, surgem com mais força vozes querendo reabrir as escolas.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que haverá prejuízos com as escolas fechadas, mas os locais que reabriram amargam aumento nos casos. Eu já disse aqui que, se reabrir é arriscado, pois pode levar a mortes, e ficar sem abrir leva às crianças à depressão (sem contar seus familiares) e a estados de ansiedade, é preciso achar o caminho do meio.

Hoje, os apelos por reabertura refletem e, muito, o esgotamento materno. E, mesmo as mães que não querem mandar a criança para a escola, estão esgotadas. É preciso pontuar, em primeiro lugar que, se houvesse uma grande preocupação com a educação, a sociedade teria se comportado para lotar, primeiro, as escolas e, só depois, as praias.

O fato, querida mãe, é que não é apenas a reabertura das escolas que vai resolver o nosso problema social que se chama tripla jornada. Entendo que a escola é uma grande rede de apoio, ao mesmo tempo em que os filhos são educados formalmente, mas acredito que é preciso aprofundar o debate. As crianças precisam ser preocupação de toda uma sociedade.

Ao falar de cuidados precisamos lembrar mais da parentalidade e menos de maternidade. Enquanto empurrarmos a sujeira para debaixo do tapete, fulanizando nosso esgotamento (não tenho tempo, vivo tripla jornada, deixo nas telas porque não há escola), a questão sempre será sobre eu e meus filhos e nunca sobre o todo.

É preciso aprofundar, cobrar presença efetiva dos pais e posturas menos machistas da sociedade. Reabrir escolas não pode ser a nossa única solução.

Agora

Colo de Mãe

Cristiane Gercina, 41, é mãe de Luiza, 13, e Laura, 8. É apaixonada pelas filhas e por literatura. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é coordenadora-assistente de Grana do jornal Agora, empresa do Grupo Folha. Quer ver o desenho do seu filho publicado na coluna? Envie-o para o e-mail colodemae@grupofolha.com.br com nome completo e idade da criança, nome e celular do responsável.

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