Bate-Papo na Web
Descrição de chapéu Dia da Consciência Negra

Branquitude precisa aprender a não ser protagonista

Diretora do doc 'Visionários da Quebrada' explica o racismo estrutural

Montagem da Exposição Internacional para celebrar o Dia da Consciência Negra no Anhembi, em São Paulo
Montagem da Exposição Internacional para celebrar o Dia da Consciência Negra no Anhembi, em São Paulo - Zanone Fraissat -17.nov.2021/Folhapress
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Alessandra Kormann

Fechando o mês da Consciência Negra, trago uma reflexão sobre mais um texto que circula no WhatsApp tentando relativizar a existência de diversos preconceitos por meio de um raciocínio primário. O primeiro da lista, claro, é o racismo —e é dele que vamos tratar aqui.

O texto, de autor desconhecido, abre com a seguinte falácia: "São gravíssimas as minhas deficiências: eu nasci branco, e quem nasce branco já é considerado racista, mesmo não sendo".

Quem escreveu isso parece desconhecer totalmente o que significa racismo estrutural. E, enquanto a branquitude não entender o seu (o nosso) lugar social e o seu (o nosso) papel nessa história, não vamos conseguir construir um país minimamente decente e justo.

Afinal, como lembrou Djamila Ribeiro em sua última coluna na Folha, citando Grada Kilomba: "O racismo é uma problemática branca. É dever de todas as pessoas desse grupo social se engajarem nessa luta, para benefício de toda a sociedade".

Para explicar o conceito, convidei para ocupar este espaço alguém que tem lugar de fala: Ana Carolina Martins, diretora do documentário "Visionários da Quebrada", fundadora da agência A Visionária Lab e especialista em temas como cultura, inovação social e inclusão.

Com a palavra, Ana Carolina.

"Racismo estrutural é tudo aquilo que faz com que o sistema funcione de um determinado modo. A sociedade toda é construída a partir disso: Quais vidas importam? Quem pode ter acesso a direitos? Qual estrutura o seu bairro deve ter? Quais territórios são destinados a quem? Quanto vale a minha hora? Quem vai ser escolhido como dono dessa terra? Quem será desapropriado? Quem prospera e quem será empobrecido? Quais vidas têm valor?

Estamos falando de estratégias, escolhas e decisões que são tomadas diariamente. E a partir disso podemos observar que existe uma lógica com normas vigentes e onde predominantemente é beneficiado o branco homem heterossexual bem-sucedido. É como se ele fosse a entidade máxima e tudo que seja fora desse padrão se dê como algo que está à margem desse ideal.

Toda a sociedade vai sendo estruturada para que exista uma exclusão, para que diversos grupos sejam subalternizados para que o homem branco macho hétero se perpetue no poder e sobre o nosso sofrimento. Para que se promova bem-estar social e liberdade para alguns e total abandono e exclusão para outros.

Há pessoas que ainda não se reconhecem como beneficiárias dessa estrutura racista, que ainda não chegaram a um nível de entendimento do que é o racismo no Brasil e principalmente no mundo, de como essa história aconteceu, do que é um processo colonizatório, a diferença entre colônia de exploração e povoamento.

Vivemos em um país que não conhece a sua história. Quando olhamos para o território que chamamos hoje de Brasil, a gente está olhando para um território de exploração, um território para onde negros foram trazidos à força do além-mar, de uma maneira absolutamente perversa, destruindo impérios e culturas milenares, impondo seu sistema de valores e de linguagem, misturando povos e etnias e colocando todos nesse caldeirão de desigualdades.

Se as pessoas brancas não conseguem entender a dureza desta história, se elas não tiverem nenhum letramento racial, se ainda acreditarem na história da princesa que libertou os escravos, fica muito difícil avançarmos no combate a essas desigualdades.

Isso é uma defasagem que já vem do processo de educação escolar e familiar. Seja dentro de casa, seja dentro das organizações, ninguém está preparado para debater sobre racismo. E não é à toa, existe toda uma construção social (estrutural) para que essa pessoa não reconheça os seus benefícios, inclusive para que ela possa continuar usufruindo plenamente do seu privilégio sem se sentir culpada ou ameaçada, sem se incomodar e sem ter que olhar para essas diferenças.

Elas enxergam aquilo que veem na TV e acreditam que aquela é a verdade, que a maioria das pessoas no Brasil são brancas, que a Bahia é para os brancos. Que Yemanjá é branca. É como se quem está trazendo essas pautas e trazendo essa discussão sobre esses temas estivesse inventando um problema, e essa é maior barreira que precisamos enfrentar, a negação de que existe um abismo entre nós.

A gente está num país em que ainda estamos discutindo diariamente para mostrar para as pessoas que o racismo existe, que a estrutura social que vivemos é violenta e excludente. E isso sempre foi uma das maiores batalhas enfrentada pelo movimento negro, nos anos 1960, 1970.

Toda a estruturação do movimento negro brasileiro vem primeiro para entender como combater algo que as pessoas não reconhecem como um problema e reproduzem diariamente. Porque simplesmente elas criam um manto, uma cortina de fumaça, e fingem que nada está acontecendo.

Assim como a gente precisa lidar com os efeitos do racismo coletivamente enquanto comunidade, a branquitude precisa assumir isso coletivamente. Entrar em um processo de conscientização e ampliação da visão de mundo, de abrir os olhos e enxergar com mais honestidade o que os negros e negras vivem neste país.

Mais do que construir verdades, a gente precisa desconstruir mentiras. As pessoas estão acostumadas a consumir mentiras cotidianamente a respeito das nossas lutas, das nossas realidades, das nossas filosofias, das nossas tecnologias.

A gente está falando de um continente africano que traz como berço toda a história da humanidade e que, ao chegar nesta terra indígena e se encontrar entre povos originários, construiu nossos valores e filosofias, contribuições que até hoje a maior parte da sociedade ainda quer explorar: nosso jeito de plantar, a metalurgia, nosso olhar para comunidade, sustentabilidade e natureza. Quem traz essas tecnologias sociais e ancestrais são esses povos pretos e indígenas. Sem esse conhecimento, o que nós seríamos enquanto país hoje?

Para que a branquitude possa colaborar na luta antirracista, é preciso passar por um processo de imersão e principalmente de escuta. É necessário que as pessoas brancas entendam que podem promover ações e participar, mas que isso é diferente de protagonizar.

Há muitas pessoas engajadas, interessadas, que querem contribuir. Mas muitas vezes, seja dentro de coletivos ou grupos de diversidade e inclusão nas empresas, o que a gente percebe é que a branquitude não consegue deixar de protagonizar, de querer ser a dona da ideia, de querer continuar colonizando e subalternizando os nossos corpos, pensamentos e nossa autoridade.

A aliança só começa, de fato, quando a pessoa consegue se colocar na relação no lugar da escuta, do aprendiz, e não já chegar querendo dizer para nós o que ela pensa que nós somos. Afinal, o que você pessoa branca conhece sobre a história dos povos africanos e afrodescendentes no Brasil?

Para que possam transformar ações cotidianas, as pessoas brancas também devem ter coragem de olhar para si e seu entorno. Com quem eu me relaciono diariamente? Quem eu sigo no Instagram? Por quem eu coloco a mão no bolso por acreditar? Quem eu estou disposto a indicar, indicar de verdade, pegar no telefone e falar ‘por favor, receba fulano de tal’ em meu nome? Porque é isso que a branquitude faz com os seus: se importa e perpetua a existência.

É muito além de levantar uma bandeira no mês de novembro, a gente precisa de uma transformação cognitiva, de uma transformação das nossas escolhas e principalmente da transformação das nossas relações.

É a disposição de se relacionar olhando olho no olho e considerando o outro, de maneira autônoma, interessado em ouvir e reconhecer o conhecimento que o outro traz, o que está sendo dito, o Ofó, como palavra sagrada. Quando você começar a perceber o quanto é nocivo a maior parte daquilo que você fala (e cala). Tenho certeza de que com essa consciência a gente consegue começar a conversar."

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Alessandra Kormann é jornalista, tradutora e roteirista. Trabalhou sete anos na Folha.
Desde 2005, é colunista do Show!, do jornal Agora.

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