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Bate-Papo na Web
Descrição de chapéu Dia da Consciência Negra

Textos na internet tentam negar a existência de racismo no Brasil

Exemplos individuais de sucesso de negros não desmentem problema estrutural

Manifestantes pintam frase #vidaspretasimportam na avenida Paulista (SP), em protesto pelo assassinato de Beto Freitas, em Porto Alegre - Bruno Santos -21.nov.2020/Folhapress
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Alessandra Kormann

Têm circulado pelo WhatsApp alguns textos reclamando que "este país está muito chato", que há muito "mimimi", que não se pode mais fazer piada com nada, que "tudo tornou-se proibido e preconceituoso".

Ao tentar se defender e justificar um suposto direito de ofender e fazer piadas com grupos mais vulneráveis em nome de liberdade de expressão, essas mensagens trazem na verdade preconceitos de todo tipo: contra negros, mulheres, comunidade LGBTQIA+. Como em 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra, vou tratar aqui especificamente do racismo que exala desse tipo de conteúdo.

Em uma dessas mensagens, o argumento implícito é o de que não existe racismo no Brasil, já que no país destacaram-se negros como Pelé, Gilberto Gil, Glória Maria, Mussum. "Hoje a ‘resistência’ luta contra ‘monstros’ e rótulos que ela mesma criou", diz o texto de autor anônimo.

Esse raciocínio simplório é desmentido por qualquer pesquisa que demonstra como a população negra enfrenta taxas escandalosamente desiguais de escolaridade, emprego, renda, acesso à saúde, mortalidade e qualquer estatística que se olhe. O racismo estrutural é um fato, não é questão de opinião.

"A população negra, que representa mais da metade do país, tem como balizador somente um jogador de futebol, um músico? São figuras importantes, mas e o acesso às demais estruturas? Às condições de serem médicos, intelectuais, professores, juízes? Não se pode medir a situação histórica da população negra brasileira somente por um rosto ou outro que aparece na televisão. A questão estrutural é profunda, principalmente porque a população negra não tem acesso à saúde, educação, cultura, trabalho digno como o restante da população", afirma Neudes Carvalho, integrante da Nova Frente Negra Brasileira e do MTST.

"Usar exceções para desviar o olhar da regra é uma ferramenta de opressão e manutenção de privilégios de um sistema de apartheid à brasileira. Aqui há escolas para brancos, de esmagadora maioria branca. Os discursos de que não existe racismo fazem proliferar espaços racializados, com brancos nos espaços mais ricos do Brasil e negros nos espaços pobres", diz Max Mu, dramaturgo, ator e um dos organizadores da Caminhada Luiz Gama.

Outro argumento infelizmente ainda muito comum para negar o racismo é recorrer à velha fórmula: "Eu não sou racista, pois tenho um amigo/namorada/marido/parente negro". Mas essa afirmação já é, por si só, problemática. Afinal, "classificar círculo social, amizade ou familiar por raça é uma atitude totalmente racista", ensina Neudes. "Geralmente essa justificativa procura fechar uma discussão em que uma pessoa desinformada ou desrespeitosa tenta se livrar de alguma agressão de cunho racial."

De acordo com Anderson Moraes, idealizador do jornal "Empoderado", a questão não é de gosto pessoal para namorar, casar ou ter amizade. "Gosto é uma coisa individualizada. Não debatemos o gosto pessoal. Nós debatemos o respeito, a intolerância, as oportunidades iguais."

"O racismo é baseado numa estrutura de poder, que está para além de insultos, xingamentos, comparações ou árvore genealógica, está no poder de decidir as oportunidades que uma pessoa pode ter ou não, só por conta da cor de sua pele", explica Leticia Gabriella, ativista do Educafro, Cufa e Frente Nacional Antirracista. "Enquanto a branquitude não repensar o lugar em que está, vai ser muito difícil termos reais avanços na luta antirracista."

Diana Gilli Bueno, coordenadora nacional do Cristãos Contra o Fascismo, concorda. "Seria interessante que as pessoas brancas se educassem mais sobre a temática racial e o racismo estrutural no Brasil, lendo mais autores e autoras negras, e parassem de minimizar o que acontece por aqui. Elas deveriam entender o seu lugar social, reconhecendo o seu próprio privilégio, e apoiar pessoas negras, escutando os seus pontos de vista, sem minimizar, sem chamá-las de vítimas. Entendendo que, como pessoas brancas, elas não têm protagonismo nessa luta, mas podem apoiar ativamente. E denunciar o racismo nas suas diversas formas, nas suas manifestações de violência, tanto física quanto verbal, inclusive as não ditas."

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Alessandra Kormann é jornalista, tradutora e roteirista. Trabalhou sete anos na Folha.
Desde 2005, é colunista do Show!, do jornal Agora.

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