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Cena da série

Cena da série "Peaky Blinders", que estreou última temporada na Netflix Divulgação

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Desiree Ibekwe
The New York Times

Steven Knight, 62, soube que algo de especial estava acontecendo em torno de "Peaky Blinders", sua série de TV sobre uma quadrilha de criminosos, alguns anos atrás, quando o rapper Snoop Dogg pediu para se encontrar com ele.

Os dois conversaram em um quarto de hotel de Londres, disse Knight em uma entrevista recente, e falaram durante três horas sobre a série, que se baseia na família Shelby, um grupo real de criminosos que operavam em Birmingham, no centro da Inglaterra, à sombra da Primeira Guerra Mundial. "Peaky Blinders" lembrava o rapper de como ele se envolveu na cultura de gangues de Los Angeles, disse Knight.

"De que maneira acontece a conexão entre a Birmingham da década de 1920 e South Central, eu não sei", disse Knight. "Acho que em alguns projetos, você simplesmente tem, sorte, e eles ressoam com as pessoas".

Desde sua estreia na TV britânica em 2013, as fortunas tumultuosas da família Shelby, liderada por Tommy Shelby (Cillian Murphy), e retratadas diante do pano de fundo do tumulto político e social dos anos entre as duas grandes guerras, ressoaram junto a muitas pessoas.

Fãs dedicados realizaram casamentos cujo tema era a estética do começo do século 20 que domina a série, ou cortam seus cabelos como os dos personagens. As extensões oficiais da marca "Peaky Blinders" foram múltiplas, estranhas e maravilhosas, entre as quais um livro de receitas oficial, apesar de os fãs apontarem que Tommy jamais aparece comendo; um jogo de tabuleiro da série "Monopoly"; um jogo de realidade virtual; e um espetáculo de dança que estreia no Reino Unido este ano.

Agora, depois de seis temporadas, a série cult e de amplo sucesso está chegando ao fim; sua temporada final estreou na Netflix na semana passada. (A temporada já tinha ido ao ar no Reino Unido algumas semanas atrás.) Embora a temporada seis seja a conclusão oficial da série, Knight já mencionou a possibilidade de um filme e de outros projetos derivados, e enquadrou a temporada final como "o fim do começo".

Em uma recente entrevista por vídeo, ele discutiu os desdobramentos de "Peaky Blinders" e o que tem planejado para o futuro. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.

Quando lhe ocorreu a ideia de dramatizar a história dos Peaky Blinders?
Eram histórias que meus pais me contavam quando eu era criança, porque eles cresceram na região de Small Heath, em Birmingham, e por isso puderam experimentar aquele mundo, de certa maneira. Quando eles me contavam as histórias, eu sempre imaginava que elas poderiam servir de base a um ótimo drama.

Eu comecei a pensar na ideia de contar a história em forma de série de TV talvez há cerca de 20 anos, e fico realmente agradecido por isso não ter acontecido então, porque acho que ainda não existia a tecnologia necessária para fazer jus à história. Depois passei a escrever filmes e, quando a televisão começou a se tornar aquilo que é agora, alguém me perguntou se eu tinha alguma ideia para televisão. E essa era uma ideia que eu meio que tinha guardada na última gaveta.

Por que essas histórias ressoavam com você, quando você era criança? Você via os caras da quadrilha como heróis?
Sim. Os tios do meu pai eram bookmakers [corretores ilegais de apostas] e eram conhecidos como membros dos Peaky Blinders, e por isso ele os encarava com reverência quando era menino. Ele sempre os via vestindo roupas imaculadas, com lâminas de navalha costuradas à aba dos bonés, e bebendo uísque em vidros de geleia.

E eu conheço aquelas ruas, conheço os pubs, conheço o pub Garrison –o verdadeiro– e, quando quis fazer "Peaky Blinders", decidi manter a mitologia em lugar de tentar desvendar como as coisas realmente eram.

Eu queria manter as coisas como se eles estivessem sendo vistos pelos olhos de uma criança. Os cavalos são todos lindos. As roupas são todas magníficas. Eu era muito fã de westerns, e era essa a maneira pela qual eu queria manter a história.

Steven Knight, criador da série da Netflix "Peaky Blinders"
Steven Knight, criador da série da Netflix "Peaky Blinders" - Jeremie Souteyrat/The New York Times

Você acha que a série mudou a maneira pela qual Birmingham é vista? Pelo menos no Reino Unido, o sotaque da cidade sempre foi alvo de zombaria.
Parte do desafio, no começo, era tentar fazer de Birmingham, —que no máximo poderia ser encarada como uma tela em branco, até ali— uma cidade cool. Dar uma história a ela. Liverpool tem os Beatles, e Manchester tem as casas noturnas e a música. Birmingham nunca teve um traço distintivo.

Houve uma sugestão, bem no começo, de transferir a história para Londres ou outra cidade, e eu respondi que não. Acho que o fato de que Birmingham era uma tela em branco ajudou, porque não havia preconcepções.

De acordo com pessoas que conheço em Birmingham, quando elas viajam ao exterior e falam com alguém, quem as ouve imediatamente menciona "Peaky Blinders". E isso não é uma coisa ruim, é sempre bom. Acho que isso deu a Birmingham uma identidade que antes a cidade não tinha, puramente na mídia.

A série poderia facilmente não ter seguido os fatos históricos, mas você entretece movimentos sociais e políticos da época à história, ao longo das temporadas. Por que isso era importante para você?
Se você está narrando uma história que se passa na década de 1920, e observa o que estava realmente acontecendo, em termos históricos, isso oferece uma quantidade enorme de material que pode ser aproveitado.

Eu não recorri a livros de história porque acho que eles, acima de tudo, não contam a história da classe trabalhadora, para começar, e também tendem a observar tendências e padrões que terminam por fazer tudo que aconteceu parecer inevitável, quando isso não é verdade.

Se você estuda os jornais e, quando possível, os depoimentos orais sobre a maneira pela qual a vida era vivida naquela época, é uma experiência muito fascinante. E se você consegue colocar isso para funcionar em seu trabalho, é algo que lhe oferece uma base real –por mais que as situações sejam amplificadas e mitológicas.

A série se passa em um período semelhante ao de "Downton Abbey". E naquela série, como em outros dramas de época britânicos, as pessoas de classe trabalhadoras são em geral mostradas como criados.
Criados ou figuras a ser ridicularizadas, ou algo assim. O que eu queria era ter personagens de classe trabalhadora para os quais olhássemos sem sentir necessidade de dizer que a situação era uma vergonha, as coisas eram terríveis, as vidas deles eram horrendas. As vidas deles eram maravilhosas, e românticas, e trágicas.

Uma crítica frequente à série é a de que ele retrata uma masculinidade violenta. O que você acha sobre as afirmações de que "Peaky Blinders" glorifica a violência?
Acho que muitas coisas acontecem na história. Para começar, estamos retratando a vida nas décadas de 1920 e 1930, e ela era muito diferente –sugerir que as pessoas se comportavam da mesma maneira que se comportam agora seria equivalente a dizer que elas não fumavam. Mas, além disso, em minha forma de ver, qualquer ato de violência em "Peaky Blinders" tem consequências fortes. Quem sai marcado de alguma situação carrega aquela cicatriz.

Existe uma cena em uma das primeiras temporadas na qual Arthur [um dos membros da família Shelby] está em um ringue de boxe e mata alguém porque perde o controle de seu temperamento. Na temporada seguinte, a mãe daquele garoto aparece no Garrison, armada, e quer se vingar pelo que aconteceu. Em outras palavras, não há violência que passe impune. Toda violência tem consequências.

A série está chegando ao fim, mas você já mencionou a possibilidade de alguns trabalhos derivados, entre os quais um filme. Por que você deseja continuar voltando ao mundo da série?
Em parte isso tem a ver com com o fato de que a série parece estar ganhando, e não perdendo, audiência. E estou interessado em concluir a história durante a Segunda Guerra Mundial. Assim, o filme se passaria durante a guerra, e ele é que ditará o que acontece a seguir.

Mas tenho muito interesse em continuar retratando aquele mundo nas décadas de 1940 e 1950, e descobrir para onde ele vai, já que, enquanto houver apetite por essas histórias, por que não contá-las?

Tommy Shelby é um personagem profundamente complicado. Como você queria que a história dele terminasse?
Sempre imagino que, antes do primeiro episódio da temporada um, ele um dia apontou uma arma contra a própria cabeça e decidiu que "bem, não vou me matar, vou simplesmente fazer tudo que quero". Há uma ótima citação de Francis Bacon, que diz que, já que a vida carece completamente de sentido, o melhor é sermos extraordinários. Tommy não acha que exista um sentido para a vida, que exista um objetivo, que exista um destino; ele simplesmente faz o que faz.

Mas então, ao longo de seis temporadas, ele aos poucos volta à vida. É como se algo que estava congelado se degele, mas obviamente o processo é muito doloroso. Meu ponto de vista na temporada seis é fazer a pergunta: Tommy Shelby pode se redimir? E acho que essa pergunta é respondida nos 10 minutos finais.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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