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'O Gambito da Rainha': Pioneira do xadrez processa Netflix por causa da série

Nona Gaprindashvili afirma que atração depreciou as conquistas dela

Cena de "O Gambito da Rainha"
Cena de "O Gambito da Rainha" - Netflix
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Matt Stevens
The New York Times

No episódio final de “O Gambito da Rainha”, série de imenso sucesso na Netflix, um locutor narra e comenta lance a lance uma partida de xadrez, durante um torneio culminante que a protagonista, Anya Taylor-Joy, disputa em Moscou.

“A única coisa incomum nela, na verdade, é o seu sexo, e nem mesmo isso é único, na Rússia”, entoa o locutor, enquanto a câmera focaliza uma mulher acomodada entre os espectadores do torneio. “Temos Nona Gaprindashvili, mas ela é a campeã mundial feminina de xadrez e nunca jogou contra homens”.

A série é ficção, mas existiu de verdade uma campeã pioneira de xadrez chamada Nona Gaprindashvili, a primeira mulher a conquistar o título de grande mestre.

Ela tem 80 anos, e vive em Tbilisi, a capital da Geórgia, um país à beira do Mar Negro, e ficou incomodada por o programa de televisão ter desconsiderado suas numerosas vitórias contra oponentes homens. (Uma manchete de 1968 do The New York Times, por exemplo, aponta: “Xadrez: Gaprindashvili derrota sete homens em torneio forte”.)

Por isso, na quinta-feira, Gaprindashvili abriu um processo contra a Netflix na Justiça federal americana em Los Angeles, buscando milhões de dólares em indenização pelo que a petição define como “uma falsidade devastadora, que solapou e depreciou as realizações dela diante de uma audiência de milhões de pessoas”, e solicitando que o texto que fala sobre ela não ter enfrentado homens seja retirado.

“Eles estão tentando afirmar que uma personagem fictícia abriu caminhos para outras mulheres, quando na realidade eu já tinha aberto esses caminhos, e inspirado gerações de enxadristas”, disse Gaprindashvili em uma recente entrevista por vídeo organizada por seus advogados, falando em georgiano, traduzido para o inglês por seu neto. “Essa é a ironia”.

A Netflix afirmou que tem grande respeito por Gaprindashvili, mas que acredita que sua reivindicação não tem mérito. “A Netflix sente o maior respeito por Gaprindashvili e sua ilustre carreira, mas acreditamos que aquilo que ela reivindica não tem mérito, e nos defenderemos vigorosamente no processo”, a companhia afirmou em comunicado.

Como detalha a queixa de 25 páginas, Gaprindashvili na verdade jogou contra muitos campeões masculinos habilidosos ao longo de sua carreira, inclusive antes do momento em que o torneio fictício de Moscou acontece.

O processo afirma que o texto segundo o qual ela “nunca enfrentou homens” causou dano profissional a Gaprindashvili, que continua a competir em torneios seniores de xadrez, e aponta que "O Gambito da Rainha" foi assistido em mais de 62 milhões de domicílios em seu primeiro mês em cartaz.

“Foi uma experiência insultuosa”, afirmou Gaprindashvili durante sua entrevista de uma hora de duração, durante a qual ela não conseguiu resistir a relatar entusiasticamente algumas de suas partidas e vitórias mais memoráveis no xadrez.

“Foi como se minha vida inteira tivesse sido rasurada, como se não tivesse sido importante”, ela disse.
O processo argumenta que a Netflix “mentiu de forma escancarada e deliberada sobre as realizações de Gaprindashvili, para o propósito barato e cínico de ‘intensificar o drama’ ao fazer parecer que sua heroína fictícia havia conseguido fazer alguma coisa que mulher alguma, o que inclui Gaprindashvili, havia realizado”.

A queixa acrescenta que “em uma história que supostamente deveria servir de inspiração para as mulheres ao mostrar uma jovem competindo contra homens nos níveis mais elevados do xadrez mundial, a Netflix humilhou a verdadeira pioneira que de fato havia enfrentado e derrotado homens em competições de importância mundial na mesma época”.

"O Gambito da Rainha" se baseia em um romance homônimo de Walter Tevis, de 1983, e se tornou o que a Netflix descreve como a sua minissérie dramática de maior sucesso. A série conquistou dois Globos de Ouro este ano e teve 18 indicações ao Emmy.

Existem planos de adaptá-la para o teatro como musical. E, da mesma maneira que Gaprindashvili fez por anos como enxadrista, a série inspirou mais mulheres a jogar xadrez, e ao mesmo tempo renovou as preocupações sobre o sexismo no esporte.

O processo aponta que o texto da série que afirma que Gaprindashvili nunca tinha enfrentando homens foi alterado ante o do livro original, e cita uma passagem do romance: “Houve Nona Gaprindashvili, que não atingiu o nível deste torneio mas mesmo assim foi uma jogadora que enfrentou todos esses grandes mestres russos muitas vezes no passado”.

A verdadeira Gaprindashvili começou a jogar profissionalmente aos 13 anos, e mais tarde se tornou a primeira campeã mundial feminina e, como o processo aponta, “a primeira mulher na História” a receber o título de grande mestre, depois de um torneio em Lone Pine, Califórnia, em 1977. O Palácio do Xadrez de Tbilisi, aponta o processo, foi dedicado a ela.

“Foi uma batalha de um ano, para eu ser aceita”, disse Gaprindashvili na entrevista. “Sempre que me viam —​uma menina pequena, baixinha, jovem— , me diziam para entrar na fila, para esperar e jogar da próxima vez, não agora. Mas sempre defendi o meu lugar”.

Gaprindashvili disse que pessoas lhe fazem perguntas sobre a série frequentemente. E essas conversas despertaram lembranças de sua ascensão como campeã feminina de xadrez. Mas ela diz que não consegue entender por que um programa de TV “mentiria” sobre a vida de uma pessoa real.

“Não há muita coisa que possa me danificar emocionalmente”, ela disse. “Mas isso me pegou de surpresa –e foi humilhante”. O processo, ela afirmou, seria mais uma parte de seu legado.

“Já é parte de meu legado que mulheres sejam aceitas como jogadoras de xadrez e que estejam se tornando grandes mestres”, disse Gaprindashvili. “E isso agora será mais uma parte importante da história. É uma batalha que iniciei e uma batalha que vou continuar”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci.

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