Nia DaCosta Adama Jalloh/NYT

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Candice Frederick
The New York Times

O artigo contém spoilers sobre o novo filme “A Lenda de Candyman”.

Quando Nia DaCosta era criança, na Nova York de 1992, ninguém era capaz de convencê-la de que o vilão de “O Mistério de Candyman” não existia de verdade. De fato, ela recorda vividamente a história de uma mulher que foi assassinada, naquela época, por alguém que entrou em sua casa pelo espelho do banheiro.

“Era algo que conversávamos porque aconteceu no conjunto habitacional perto de minha escola primária”, disse a cineasta. “Por isso, para mim, quando criança, o Candyman existia. Ele não era um personagem de cinema”.

Isso pode parecer só a convicção ingênua de uma menina pequena, mas, se você reconsiderar a história de origem brutal por trás de Candyman –um artista negro do século 19, linchado por uma multidão de homens brancos por ter se apaixonado por uma mulher branca—, a lenda começa a parecer assustadoramente real.

É um dos motivos para que DaCosta tenha decidido revisitar a história em “A Lenda de Candyman”, estrelado por Yahya Abdul-Mateen 2º no papel de Anthony, um pintor que luta para se enquadrar ao mundo da arte branca e ao mesmo tempo se obceca horrivelmente pela história do Candyman. Sua namorada e diretora da galeria em que ele expõe seus trabalhos, Brianna (Teyonah Parris), quer enterrar a lenda e evitar que ela ressurja.

A diretora, que escreveu o roteiro em parceria com Jordan Peele e Win Rosenfeld, viajou a Chicago e visitou o bairro onde ficava o conjunto habitacional Cabrini-Green, locação do primeiro filme, para absorver o máximo possível sobre uma área que se aburguesou quase completamente. “Você precisa segurar muitas histórias nas mãos antes de descobrir como contar a sua história singular da melhor maneira possível”, disse DaCosta.

O novo filme, em cartaz nos cinemas brasileiros, reexamina o mito e a ira de um homem que assombrou seu bairro por centenas de anos, mesmo agora, no novo filme, quando sua história quase desapareceu da memória. Mas basta dizer o nome dele cinco vezes diante do espelho e a pessoa encontrará um destino sangrento, e inesquecível.

“O tema da história é que o nome dele precisa ser lembrado, a história dele precisa ser lembrada, por aquela comunidade em particular”, acrescentou DaCosta. “Porque a comunidade não existe mais, e o aburguesamento mudou a composição demográfica do bairro”.

Falando do Reino Unido, onde ela está dirigindo o filme de super-heróis “The Marvels”, a cineasta falou sobre a natureza cíclica das narrativas e sobre as lendas das comunidades negras, de seu respeito pelo conjunto habitacional Cabrini-Green, e discutiu as dificuldades na realização de “A Lenda de Candyman”. Abaixo, trechos editados de nossa conversa.


Houve uma efusão de elogios quando seu nome foi anunciado para a direção de “A Lenda de Candyman”, mas você terminou não sendo mencionada em muitas das primeiras manchetes, o que incomodou alguns fãs. Como você reagiu a isso?
Eu tento não ler o que a imprensa diz, porque a pressão aumenta mais a cada projeto grande que aceito. E a pressão pode desviar minha atenção, se tornar esmagadora, e me impedir de trabalhar bem e de concluir o processo. E eu costumo ser autodepreciativa, talvez até demais.

Eu estava preparada para que ninguém desse importância demais à minha seleção para dirigir o filme. Não pensei muito no assunto até que pessoas no Twitter começaram a reclamar e a ressaltar que era o Candyman de Nia DaCosta.

Achei muito doce da parte delas. Tenho certeza de que, se o mesmo acontecesse com outra mulher cineasta, eu teria agido da mesma maneira que os fãs, e comentado que as pessoas deveriam provavelmente falar da mulher que está fazendo o filme, e não sobre um homem mais famoso.

Falando sobre as pressões que você enfrenta, imagino que aceitar dirigir “A Lenda de Candyman” pode ter sido complicado, porque muitos fãs são possessivos com relação ao filme original.
Fiquei realmente empolgada porque Jordan Peele trabalharia comigo no roteiro e produziria o filme –melhor impossível. E me senti segura quanto ao processo, porque sou muito fã dele. Mas aí a realidade começa a interferir. Não é nem o caso de o que os fãs desejam. É um filme de estúdio.

Eles têm seus objetivos, que basicamente são o de ganhar US$ 1 trilhão, cerca de R$ 5 trilhões, e receber só elogios da crítica. Acho que foi só aí que comecei a reagir. E também há a comunidade para a qual fiz o filme, que é minha comunidade, em um sentido mais amplo –comunidade negra.

Mas, no sentido micro, eu não sou parte da comunidade onde a história se passa, Cabrini-Green. E assim, existem muitas pessoas para quem você deseja fazer um bom trabalho, e isso pode ser preocupante. Mas acho que eu só queria terminar o trabalho com o coração aberto e com humildade, como uma fã do Candyman original, e também mostrar respeito por aquilo que estou retratando. Tive de manter a fé, para me orientar da melhor maneira possível.

Que tipo de pesquisa você fez em Cabrini-Green?
Minha base inicial foi um livro, “High-Risers: Cabrini-Green and the Fate of American Public Housing”, de Ben Austen. Realmente maravilhoso, porque gosto de ter algum ponto de vista histórico, especialmente sobre aquilo de que o filme trata –a história, e as coisas que fazem com que a história se repita, e a história das relações raciais.

Tínhamos um historiador e pesquisador maravilhoso, na equipe do filme. E também visitei o local, passei tempo lá, caminhei por lá, conversei com antigos moradores, com pessoas que tiveram de sair de lá, e ouvi suas histórias.

Você usa o teatro de sombras para contar a história do Candyman. Isso cria uma impressão visual forte. Mesmo quando a câmera faz uma panorâmica completa durante o assassinato de Finley (Rebecca Spence), a crítica de arte, ela parece ser uma sombra na parede.
Sim, ela se torna outra peça, outro peão, na lenda.

O que a atraiu para esse tipo de imagem?
O uso de teatro de sombras foi para evitar recorrer a flashbacks do filme original, ou a reproduções de suas cenas com outros atores. Nós pensamos nisso, mas achamos péssimo. Percebemos que usar o teatro de sombras era bom não só para substituir os flashbacks mas para codificar a narrativa, a lenda. As sombras são muito mais cruas, muito mais tensas.

São uma ilustração de que aquilo não é a vida real e nem acontece da maneira sobre a qual pensamos na vida real. Estamos em uma história, embora baseada na vida real. E assim podemos contar a história do Candyman sem mostrar a violência. Dessa forma, as imagens continuam a ser evocativas mas evitamos criar mais imagens perturbadoras de pessoas negras sendo brutalizadas pela violência racial.

Isso também ajuda a integrar um tema que se tornou central na narrativa: como navegar o mundo da arte branca. O que a levou a decidir basear sua história nesse âmbito?
Acho que é uma maneira realmente ótima de mostrar um homem negro tentando navegar por um mundo muito branco, a história de alguém convidado a explorar sua comunidade em nome da arte. Ele está tentando escrever uma tese, encontrar inspiração para seu trabalho, sair do impasse em que vive. Quase todos os artistas negros, não importa em que ramo, precisam lidar com isso.

“A Lenda de Candyman” também trata da preservação de mitos e lendas. Qual você acha que é a vantagem de manter vivas essas histórias, por mais brutais que possam ser?
Jordan disse que contar histórias tem algo de monstruoso, de certa maneira. Creio que, dentro de uma comunidade, as histórias são muito úteis porque transmitem lições, fazem com que as pessoas recordem. E, em termos de violência racial, servem como alerta.

Ou seja, tal coisa aconteceu a tal pessoa, portanto, não faça o que ela fez. Também acho que as histórias nos ajudam a lidar com o pesar e processá-lo de forma coletiva –mesmo que elas sejam erradas, imperfeitas ou inventadas.

Acho que “A Lenda de Candyman” gira em torno disso, de muitas maneiras. Repassar a história também significa mudá-la e adaptá-la para servir à sua comunidade, geração, família, vizinhança. É isso que é realmente divertido e interessante em como Candyman funciona e em como as lendas em geral funcionam. Elas mudam porque precisam. Mas, em seu cerne, tentam transmitir a mesma mensagem.

Mas nem todo mundo, por exemplo Brianna, quer confrontá-las, ou entender o que aconteceu ao pai dela, um artista que se matou.
Concordo 100%. Brianna tenta reprimir seu trauma, e ele começa a aflorar quando ela passa a ter aqueles pesadelos. Creio que já foi provado cientificamente que, se você não lidar com seus traumas, eles se agravam e as consequências virão a ser piores do que seriam caso tivessem sido enfrentados. “A Lenda de Candyman” certamente defende a tese de que é preciso falar a respeito das coisas. Porque temos de encontrar maneiras de nos curar.

"A Lenda de Candyman"

  • Onde Nos cinemas
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Yahya Abdul-Mateen 2º, Teyonah Parris, Nathan Stewart-Jarrett e Colman Domingo Colman
  • Direção Nia DaCosta

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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