Cena da animação "Shrek", que completou 20 anos no dia 18 de maio Dreamworks Pictures/Handout/Reuters

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Gina Cherelus
The New York Times

A ideia de que um ogro feioso poderia ser herói de cinema em uma mistura de comédia romântica e conto de fadas não despertava grandes esperanças. A falta de um príncipe convencional não era o único obstáculo a “Shrek”, o novo projeto de animação que a DreamWorks, que havia acabado de surgir, começava a desenvolver.

Houve trocas de produtores e diretores. O ator responsável por um dos papéis principais teve de ser substituído. E a tecnologia na qual eles estavam apostando era complicada. Na verdade, o projeto inicialmente era bem impopular entre os empregados do estúdio. “Ser escalado para ‘Shrek’ era mais ou menos como ser mandado para a Sibéria”, recorda Vicky Jenson, codiretora do filme.

Mas quando ele enfim saiu, em 18 de maio de 2001, chegou imediatamente ao primeiro lugar das bilheterias, foi muito elogiado pela crítica e venceu o primeiro Oscar para filme de animação. Vinte anos mais tarde, “Shrek” continua a ser um conto de fadas excêntrico mas muito querido, cujos personagens e piadas ainda permeiam a cultura pop, depois de conquistarem uma nova geração de fãs.

“Na verdade não tínhamos noção do tamanho do sucesso que o filme faria”, disse Jenson. “Havia vislumbres de, uau, não acho que alguém já tinha visto algo parecido, isso é realmente engraçado ou realmente tocante”.

Dirigido por Jenson e Andrew Adamson, o filme se baseava em um livro infantil de William Steig, e delinear sua história não basta para explicar o que tornava o projeto tão audacioso. Shrek, um ogro zangado e que prefere viver sozinho, parte em uma jornada épica com o Burro, seu companheiro, depois que o pântano em que eles vivem é conquistado.

A aventura deles envolve um acordo com um lorde tirânico: resgatar uma princesa, Fiona, com quem o nobre deseja se casar, e em troca disso Shrek receberá de volta a sua casa.

Fundamental para o sucesso do filme foi o trabalho de voz cômico inesquecível feito por um elenco que incluía Mike Myers como Shrek, Eddie Murphy como Burro e Cameron Diaz como a princesa.

O look do filme também era inesperado. Ainda que a DreamWorks tivesse experiência em animação via computador, graças a “FormiguinhaZ” (1998), os principais personagens daquele filme não apresentavam desafios tão grandes em termos de escala e alcance quanto os heróis de “Shrek”.

O novo filme, com seu ambiente mágico, requeria trabalho de computação complexo, especialmente para garantir que Fiona, o principal personagem humano, se movesse de maneira graciosa. Esse e outros elementos, como o pelo de Burro, exigiram avanços tecnológicos. Na época, o supervisor de efeitos visuais de “Shrek” falou de “um nível de complexidade que ainda não havíamos visto, neste filme”.

Quanto ao roteiro, Terry Rossio e Ted Elliott, os coautores, haviam trabalhado juntos em “Aladdin” e “O Caminho para El Dorado”, com Jeffrey Katzenberg, executivo da DreamWorks. Os três participaram do projeto desde o início. (O crédito pelo roteiro fica para eles e para Joe Stillman e Roger Schulman.) Como recorda Rossio, Elliot imediatamente percebeu uma oportunidade em “Shrek”, porque o gênero de comédia de fantasia, satírica por natureza, havia resultado em diversas séries de livros de sucesso, naquele período.

Mas “o gênero raramente foi tentado no cinema (‘A Princesa Prometida’, de William Goldman, é o único exemplo que me ocorre), e nunca no ramo de animação”, disse Rossio em um email. “Na comédia de fantasia, você trabalha com todos os elementos como se fossem sérios, mas com uma mudança: os personagens da história estão sempre cientes das convenções que dominam seu tipo de história. Na época, isso era bem experimental”.

Nos seus primeiros anos, “Shrek” passou por diversos produtores e diretores, entre os quais Kelly Asbury, que abandonou o filme para dirigir outro projeto da DreamWorks. Jenson foi escalada para “Shrek” em 1997, e logo se tornou coordenadora de roteiro e mais tarde diretora, a primeira vez que ela exerceu esse papel em um filme de animação.

Escalar o elenco continuava a ser um problema, quando ela chegou para o projeto. Diaz e Murphy estavam definidos, mas ainda não se sabia quem interpretaria o papel-título. Chris Farley, astro de “Saturday Night Live” havia sido escalado, originalmente, e já tinha gravado alguns dos diálogos, mas morreu aos 33 anos, em dezembro de 1997.

Jenson disse que ela e seus colegas eram muito fãs de “Saturday Night Live” e de Mike Myers. “Tivemos de batalhar um pouco para vender a ideia ao estúdio, porque ele já estava fazendo sucesso mas não tinha se transformado no grande nome que veio a ser”, ela disse. (Myers não respondeu a um pedido de entrevista. Diaz e Murphy se recusaram a falar para este artigo.)

Enquanto isso, os diretores e a equipe de roteiristas continuavam trabalhando, inspirados pelos mais variados filmes, de “A Princesa Prometida” a “Antes Só do que Mal Acompanhado”. Jenson relembra que Adamson costumava dizer que, se eles mostrassem alguma das ideias do filme para suas mães e elas não reclamassem, aquilo devia ficaria no roteiro. A equipe de roteiristas foi creditada por boa parte do humor ousado do filme, mas os atores também tiveram espaço para improvisar e brincar.

Myers, que deu a Shrek um sotaque escocês que o lembrava do sotaque de seu pai, criou muitos dos diálogos mais memoráveis do filme, como “melhor pra fora do que pra dentro”, depois que o ogro arrota.

“Depois que Mike Myers terminou o trabalho dele no filme, ele teve a ideia de tentar um desempenho vocal diferente, e ficou tão bom que Katzenberg optou por regravar todas as suas falas”, disse Rossio. “Muitas cenas tiveram de ser ajustadas”.

No final da produção, Rossio diz que seu computador continha mais de 5.000 páginas de rascunhos de roteiro, para um roteiro final que tinha 85 páginas.

O filme competiu no festival de Cinema de Cannes antes de ser lançado nos cinemas dos Estados Unidos. Depois de estrear em primeiro lugar nas bilheterias americanas, o filme faturou quase US$ 500 milhões (R$ 2,6 bi) em todo o mundo, sobre um orçamento de produção de US$ 60 milhões (R$ 315 mi).

“Shrek” foi muito elogiado pelos críticos e terminou ganhando o primeiro Oscar para filmes de animação, derrotando, entre outros, “Monstros S.A.”, da Pixar.

Jenson mesma não fazia ideia do sucesso de “Shrek” até um dia em que estava jantando em um restaurante de sushi em North Hollywood e ouviu uma conversa de pessoas da mesa ao lado. “Um deles perguntou se os outros tinham visto ‘Shrek’. E alguém respondeu que não assistia filmes infantis. E a primeira pessoa rebateu, não, não é um filme infantil. Você precisa assistir”.

O sucesso do filme gerou outros sucessos, entre os quais o das canções de sua trilha sonora. “All Star”, do Smash Mouth, já tinha sido sucesso dois anos antes, mas “Shrek” deu vida nova à faixa, enquanto a cover da banda para “I’m a Believer”, dos Monkees, chegou ao 15º posto da parada de sucessos Billboard. Jenson se lembra de que os integrantes da banda lhe disseram, anos depois, que “todo mundo pede para a gente tocar aquela canção. Não sei se te dou um abraço ou se te odeio”.

Houve diversas continuações e trabalhos derivados, e o filme também inspirou um brinquedo em parque temático, uma adaptação para a Broadway, e conquistou uma estrela na calçada da fama em Hollywood.

Shrek se tornou um dos personagens mais importantes da DreamWorks, disse Jerry Beck, historiador do cinema de animação, e o ogro inspirou o tipo de filmes que o estúdio viria a fazer: histórias esquisitinhas, que ao contrário dos filmes da Disney tinham uma ponta de acidez.

“E os filmes subsequentes da DreamWorks foram assim –estou pensando nos filmes ‘Madagascar’ e outros. ‘Shrek’ é o modelo para tudo isso”, disse Beck.

Versões engraçadinhas de contos de fadas seculares eram comuns em desenhos animados como “Pernalonga e os Três Ursinhos” (1944) ou nas histórias da revista Mad, ele aponta. Cada geração pode escolher a versão dessas histórias que a agrada, e “Shrek” o fez no contexto de uma narrativa maior, com personagens interessantes.

“Eu me identifico com Shrek, porque acordo com aquela cara de manhã”, disse Beck, acrescentando que “acho que muita gente se identifica”. O filme serve “a uma espécie de propósito duplo, zombando ao mesmo tempo da vida e daquelas histórias famosas que todos conhecemos”.

Além disso, seu exame das questões de amor verdadeiro, autoaceitação, identidade e amizade, tudo isso sem ceder ao tema típico da donzela em perigo, influenciou toda uma geração.

Hoje, é difícil percorrer a mídia social sem encontrar memes de “Shrek”, que se tornaram quase um idioma próprio. O ogro é frequentemente invocado quando alguém quer falar de se apaixonar em função da personalidade da pessoa. Há todo um “subreddit” no Reddit dedicado a ele.

No ano passado, “Shrek” foi incluído no National Filme Registry. Um quinto filme está supostamente em desenvolvimento e, para celebrar o 20º aniversário do lançamento do original, a Universal Pictures está lançando uma edição especial do filme em Blu-ray e outros formatos, este mês.

Um cineasta, Grant Duffrin, até criou um Shrekfest anual. Tudo começou como uma brincadeira na internet em 2014, mas desde então os devotos de Shrek de todo o mundo vêm se reunindo anualmente em Madison, Wisconsin, embora o evento do ano passado tenha sido virtual. Duffrin também produziu “Shrek Retold”, uma refilmagem do filme cena a cena, por mais de 200 artistas trabalhando em formatos diferentes.

Uma das grandes metáforas do filme, “ogros são como cebolas”, pode refletir também as camadas de significado que os fãs descobriram na história. Continua a haver debate online sobre se o filme é uma discussão do racismo ou do aburguesamento de áreas pobres. Mas mesmo sem discussões mais profundas, “Shrek” captura a essência de amizades improváveis e de romances não superficiais, o que faz com que final feliz pareça triunfante.

Tradução de Paulo Migliacci

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