Ralph Macchio, como Daniel Larusso, e William Zabka como Johnny Lawrence em cena da terceira temporada de 'Cobra Kai' Curtis Bonds Baker/Netflix

Alexis Soloski

No primeiro dos filmes da série “Karatê Kid”, as cotoveladas e voadoras jamais acertavam os atores ou dublês que eram seus supostos alvos, nem mesmo o controvertido “golpe da cegonha”, que valeu a Daniel LaRusso (Ralph Macchio) o título de karatê do vale de San Fernando em 1984.

O único golpe dado para valer? O gancho de direita que Elisabeth Shue, no papel de Ali Mills, uma aluna de segundo grau, acerta em uma cena de briga no country club. "Direto na mandíbula”, conta William Zabka, o alvo da pancada, enquanto Shue ri em uma janela de Zoom vizinha. “Ela pega forte”.

E o filme também pegou. Sucesso de bilheteria e reprisado em vídeo constantemente pelos adolescentes e pré-adolescentes da década de 1980, e de décadas posteriores, o original gerou duas continuações imediatas, uma série de animação, uma repaginação parcial estrelada por Hilary Swank, e uma refilmagem não muito justificável, em 2010, que conduziu a ação à China. O golpe da cegonha? Voou por muito tempo.

Em 2018, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg (que produzem os filmes da série "Madrugada Muito Louca"), e Josh Heald (“A Ressaca”) levaram a história de volta ao tatame, com “Cobra Kai”.

A série fez sucesso, mas não muito alarde, no serviço por assinatura do YouTube, e acompanha Daniel e Johnny (Zabka), o valentão que o atormentava, na meia-idade. Johnny vive de bicos na região de Reseda, e Daniel é um bem-sucedido vendedor de carros. A série traz personagens e temas surpreendentemente ricos –masculinidade tóxica, intimidação, as repercussões das escolhas do passado– bem como faixas do REO Speedwagon na trilha sonora.

Quando a Netflix passou a exibir as duas primeiras temporadas, em agosto, cerca de 50 milhões de domicílios assistiram à primeira temporada nas primeiras quatro semanas, de acordo com a companhia.

Cada temporada revive mais e mais personagens dos filmes originais, como o malévolo “sensei” John Kreese (Martin Kove) e os colegas de turma de Johnny no “dojo” Cobra Kai. Ali (Elisabeth Shue) é mencionada ocasionalmente em conversas. “Cara, aquela garota era uma coisa”, diz Johnny, em tom melancólico, na primeira temporada. O gancho final da temporada dois é um pedido de amizade de Ali no Facebook.

Por fim, em episódios posteriores da temporada três, que estreou sexta-feira (8) na Netflix, Ali, ainda interpretada por Shue, retorna em pessoa, em cenários que fazem referência a cenas do filme original.

Macchio, Shue e Zabka se reuniram recentemente, desta vez via Zoom, para conversar sobre o legado de que compartilham e sobre quem ganhou mesmo aquele campeonato, tanto tempo atrás. Abaixo, trechos editados da conversa.

*

Vamos decidir de vez: O golpe da cegonha, no campeonato de 1984, era legal?
Zabka: Tecnicamente, não era legal. Tenho razão, Ralph? Você não deve chutar alguém na cabeça em um torneio real, se a pessoa não está protegida.

Macchio: Eu arriscaria não discordar disso. Mas, se você assistir com cuidado à luta, verá que levei uma pancada bem aqui (e ele aponta para o próprio rosto), dois pontos antes. E isso foi autorizado.

Zabka: Mas eu levei uma advertência!

Macchio: Eu não recebi uma advertência. A luta acabou.

Shue: Ouvi dizer que o golpe da cegonha era uma invenção. Que não é uma manobra de karatê real.

Zabka: Agora é. Lyoto Machida derrubou alguém com ele. Um cara que luta karatê no UFC.

Macchio: Se você procurar no YouTube, encontra. E alguns caras caem naquele truque. Mas ninguém levou o golpe com a mesma força de Zabka. Se ele não interpretasse o papel de quem leva o golpe tão bem, o chute não teria funcionado na história. Ou seja, nós dois ganhamos.

Elisabeth, eles deixaram você lutar karatê em algum momento?
Shue: Eu pude jogar um pouco de futebol. Também dei minha cambalhota para trás. Tentava fazer uma cambalhota dessas em cada filme em que trabalhei, na década de 1980. Se você assistir a “Cocktail”, vai encontrar uma delas. Eu dei um mortal para trás, e acertei Tom Cruise no rosto. Trinquei um dente dele. Para ser honesta, na época eu queria estar lá lutando karatê. Era difícil não participar dessa parte da trama. Mas teria sido absurdo.

Ou não.
Shue: Eu dei meus socos. Isso é o que importa. Desde que eu pudesse socar algumas pessoas na cara e dar meu mortal para trás, tudo bem por mim.

O primeiro filme da série, realmente continua a funcionar, quando tantos filmes adolescentes da década de 1980 já não o fazem. Por quê?
Macchio: Há muita cultura pop cercando “Karatê Kid” –“acerte a perna”, ou "apanhar moscas com hashis", ou “vá buscar um saco para cadáveres”. Era tudo divertido, bacana, e ajudou a construir um legado, mas o filme funciona em nível humano. Aqueles elementos de mestre e discípulo, “bullying”, mãe solteira: todos eles sobreviveram ao teste do tempo.

Zabka: As pessoas gostam de assistir ao filme desde o começo, mesmo que já saibam como vai terminar. Veem aquele chute da cegonha um milhão de vezes, e mesmo assim o momento aprisiona. É o trabalho de John Avildsen (o diretor). E Robert Kamen, o roteirista. Tivermos a sorte de interpretar aqueles personagens. O restante é magia.

O filme se tornou um grande sucesso. Até que ponto ele determinou a trajetória de suas carreiras?
Macchio: O filme me afetou de modo muito profundo e muito positivo, e continuo a colher as recompensas, benefícios e privilégios daquele papel. Mas nossa cidade gosta de rotular. Quando “Meu Primo Vinny” apareceu, foi um grande desafio. Eu não conseguia nem fazer o teste. No fim, quando consegui, me telefonaram a caminho de casa para avisar que o papel era meu. Mas isso é só uma parte da coisa, cara. Escolhi ser sempre criativo, e nos anos de pouco trabalho da década de 1990, pude estar presente para meus filhos. Ou seja, tudo funcionou bem.

Zabka: Eu sou o cara que levou aquele chute. Você acaba sendo escalado sempre para o mesmo papel. Já que eu tinha funcionado como o alvo do golpe, “ei, faça a mesma coisa nesse outro filme, mas seja ainda mais escroto”. Muitas propostas assim surgiram no meu caminho. Aí comecei a trabalhar no lado da produção de filmes, dirigi um curta-metragem. Tudo que aconteceu me ajudou, e agora estamos de volta com “Cobra Kai”, e fechamos o círculo. Posso voltar ao personagem que lançou tudo isso, e desmontá-lo, dissecá-lo, expor seu coração ao mundo, o que é muito bom.

Shue: Minha jornada certamente teve altos e baixos, como a desses caras, e tive de chegar a um acordo com a função de “a namorada” que criaram para mim nesse ramo. Um dos motivos para eu não participar de “Karatê Kid 2” foi o fato de que eu estava na escola. Voltar à escola foi minha maneira de dizer que “não vou deixar que esse ramo me defina”. Nós três fizemos um filme de imenso sucesso, e tivemos de criar vidas para nós, batalhar para encontrar papéis mais complicados, que nos desafiassem, para que não fôssemos definidos por um filme e um filme só. Tenho orgulho disso.

E por que o projeto os trouxe de volta?
Zabka: Eu trabalhei com Josh Heald em “A Ressaca”. E conhecia Jon e Hayden. Eles me apresentaram a ideia em um restaurante mexicano. Mal tínhamos consumido uma porção de tortilhas e eu já havia vestido a camisa de Johnny Lawrence e colocado tudo na mesa. Eu disse que “há 30 anos carrego a tocha de ser o malvado. A série não vai expandir isso? Vou terminar como alvo de mais um golpe da cegonha, no fim? As pessoas vão me odiar? Porque não quero fazer isso. Quero algo que me mostre de um jeito humano”.

Eles responderam que não, isso não aconteceria. Confiei neles. Respondi que aceitava e disse que agora eles só precisariam convencer Ralph, e vamos ver o que acontece.

Macchio: Eu tinha respondido negativamente a alguns convites de diretores e roteiristas e executivos de estúdio confiáveis. Sempre me pareceu mais sábio não mexer com aquele legado. Mas eles chegaram com uma proposta bem articulada. Parecia inteligente, nova. A ideia de narrativa deles era brilhante. E William Zabka, sem ele trabalhando no nível em que está trabalhando, não acho que a série funcionaria.

Zabka: Obrigado, Ralph.

Macchio: Você me deve uma.

Shue: O que me fez realmente mudar de ideia e me empolgar com a possibilidade de participar foi a cena no bar em que vocês conversam sobre mim, e os dois continuam meio obcecados a meu respeito. Ri alto.

E o pessoal foi maravilhoso em termos de criar uma maneira de incluir Ali em um mundo que respeitaria seu crescimento como mulher, uma mulher complicada, que não tinha uma vida perfeita e tinha de lidar com seus problemas.

Qual foi a sensação de voltar ao Golf N’ Stuff e a uma réplica do mesmo clube de campo?
Shue: Adorei. Ralph e eu conversamos sobre como era emocionante nos reconectarmos àquele lugar inocente em nossas vidas, e compreender o impacto que aquele mundo e aqueles atores tiveram sobre nossas vidas.

Macchio: Foi algo que aconteceu durante a série toda, no meu caso. Com Billy, na primeira cena que fizemos juntos. Nas cenas com Mary (Mouser), que interpreta minha filha, conversando sobre o Sr. Miyagi (o paternal sensei de Daniel no filme, interpretado por Pat Morita num desempenho que lhe valeu indicação ao Oscar). Isso tudo viveu em nós três. Todos estamos conectados a esse universo.

Elisabeth, você não se sentiu tentada a socar Billy, para lembrar os bons tempos?
Shue: Eu dei uns soquinhos no ombro dele.

Zabka: Quando ela me dá o bicho de pelúcia, no Golf N’ Stuff, não me entrega e só. Ela o soca contra meu peito. Muito competitiva.

Shue: Ganhei de você no air hockey.

Quantas temporadas vai demorar para que Ali tenha uma cena de luta?
Shue: Seria hilário. Ali retorna na temporada nove para abrir um “dojo”.

Macchio: Estaremos preparados.

Zabka: Ela namorou com dois meninos que lutavam karatê, no segundo grau. Deve ter aprendido alguma coisa.

E como se chamaria o dojo?
Shue: Ali Vai Te Derrubar.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem