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Descrição de chapéu The New York Times

Astronauta que viralizou cantando David Bowie em órbita escreve thriller

Livro de Chris Hadfield se passa no espaço sideral durante a Guerra Fria

Astronauta canadense Chris Hadfield em sua casa em Toronto, no Canadá Angela Lewis/The New York Times

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Sarah Lyall
The New York Times

Em sua longa e variada carreira, o astronauta canadense Chris Hadfield, 62, pilotou jatos de caça, fez caminhadas espaciais e orbitou a Terra durante meses como comandante da Estação Espacial Internacional.

Mas até o começo deste ano, jamais tinha tido de enfrentar o desafio profissional devastador de entregar um romance à editora e descobrir que na opinião dela o texto é 35 mil palavras mais longo do que deveria.

“Eles mandaram de volta as 30 primeiras páginas e minha impressão foi de que tinham removido muitas palavras e ideias que eu acreditava serem importantes para a história”, disse Hadfield em uma entrevista por vídeo no final de agosto.

Ele parecia até alegre a respeito, se considerarmos a situação. Mas aprendeu a confiar no processo, disse, e a aceitar a noção de que “escritores e editores têm competências diferentes, e os dois tipos de competência são necessários”, e até a compreender que, às vezes, menos pode ser mais.

O que emergiu do processo foi “The Apollo Murders”, um texto um terço mais curto e que agora tem 480 páginas. O romance, lançado pela Mulholland Books, se passa na época do programa espacial americano do final da década de 1960 e começo da década de 1970, um período de ambições desmedidas e ansiedade causada pela Guerra Fria.

Envolvendo espiões infiltrados, russos manipuladores e assassinos psicopatas, às vezes todos juntos em um só momento, a história está repleta de detalhes convincentes sobre, por exemplo, a sensação de vomitar no espaço, ou como lutar contra um astronauta soviético homicida que decida atacar um colega durante uma caminhada espacial.

As impressões iniciais são positivas. A revista Publishers Weekly descreveu o livro como “um thriller espetacular de história alternativa”, e “uma história de suspense surpreendente e inteligente”.

Definir Hadfield como o astronauta mais famoso do Canadá poderia parecer absurdo, ou mesmo uma brincadeira, mas ele é provavelmente o astronauta vivo mais famoso da era moderna, de qualquer nacionalidade. (Se deixarmos de lado os bilionários aspirantes a viajar no espaço.)

Isso se deve em parte à sua interpretação impressionante de “Space Oddity”, de David Bowie, quando estava embarcado na estação espacial —literalmente flutuando acima do planeta—, um vídeo assistido mais de 50 milhões de vezes. Isso com certeza torna o perfil de qualquer pessoa mais conhecido.

Outro motivo para a fama é a natureza gregária de sua presença constante na mídia social (ele tem 2,3 milhões de seguidores no Twitter e 373 mil no Instagram), suas palestras no TED, discursos e trabalhos como professor e consultor, e seu sucesso com o livro “An Astronaut’s Guide to Life on Earth”, que se tornou best seller em 2013.

Nos dias mais sóbrios do lockdown, Hadfield se transformou em uma das fontes de consolo mais procuradas pelos aflitos, oferecendo conselhos sobre como lidar com a incerteza, solidão e isolamento.

“Uma espaçonave é como a pandemia levada ao seu extremo mais insano”, ele disse. “Tudo é literalmente questão de vida ou morte, você nunca pode sair, não sabe quanto aquilo vai durar, problemas graves podem acontecer a qualquer momento, e você só tem a própria companhia”.

Usando uma camiseta rosa, e ostentando bigodes um pouco mais grisalhos do que na época do vídeo de “Space Oddity”, Hadfield estava falando da casa em que vive com a mulher, Helene —eles são casados há quase 40 anos—, em uma pequena ilha perto da divisa entre o Michigan e o Canadá. O casal passa a maior parte de seu tempo em Toronto, mas no período da pandemia preferiu ficar na casinha que eles têm na ilha, construída no final do século 19.

Hadfield nasceu na parte sul da província canadense de Ontário e se tornou piloto de caça e mais tarde piloto de provas das Forças Armadas canadenses, e foi aceito para o programa de treinamento de astronautas da Agência Espacial do Canadá. (Sim, o Canadá tem uma agência espacial.)

Ele se formou em engenharia e sistemas aeronáuticos, e foi enviado pela agência para trabalhar com a Nasa (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço) dos Estados Unidos. Os muitos trabalhos dele lá incluíram o de comunicador com a cápsula, ou seja, a voz em terra do controle de missão, durante duas dúzias de missões do ônibus espacial americano.

Hadfield também viveu por dois anos na Cidade das Estrelas, Rússia, como diretor de operações da Nasa no Centro Yuri Gagarin de Treinamento de Cosmonautas, encarregado de coordenar e dirigir as atividades de tripulação da Estação Espacial Internacional, um programa multinacional.

Ele fez três missões no espaço, e passou cinco meses na estação espacial, como seu primeiro comandante canadense. Hadfield se aposentou em 2013 e não queria sucumbir ao tédio que assola muitos ex-astronautas, que parecem sentir que seus melhores dias ficaram para trás.

“Conhecíamos muitas pessoas que se aposentaram e perderam o ímpeto”, disse Helene Hadfield em uma entrevista posterior. “Nós discutimos o assunto por anos —o que torna alguém feliz— e um de nossos planos para a vida pós-astronauta era que ele escrevesse um livro”.

O marido dela decidiu escrever um thriller cuja história se passa na era dourada da corrida espacial, mas não queria mexer com o passado e colocar astronautas reais em situações falsas. Por isso, ele criou uma história alternativa, na qual a Apollo 18 —uma missão real cancelada durante o governo Nixon— foi realizada, como missão de espionagem.

“Pouco depois da Apollo 17, o momento era incrivelmente propício”, ele disse. “A política daquela época —o fim da guerra [do Vietnã], a luta pelos direitos da mulher– era uma encruzilhada cultural adorável para enquadrar a história."

Muita coisa também estava acontecendo na corrida espacial com os soviéticos, e Hadfield conseguiu entrelaçar a essa história a destruição misteriosa de duas espaçonaves russas que apresentaram defeitos e se tornaram inoperáveis em circunstâncias dúbias.

Seu herói na história é um piloto de caça condecorado que perdeu um olho na colisão entre seu avião e um pássaro, orquestra a missão do solo e começa a acreditar que algo, ou alguém, não está certo na espaçonave.

Hadfield baseou os antecedentes do personagem em suas experiências pessoais –o caça F-18 que ele pilotava passou por uma colisão com uma gaivota sobre a baía de Chesapeake. No caso, o avião ficou seriamente danificado, mas ele não se feriu.

Porque nunca tinha escrito um romance, Hadfield pesquisou intensamente, em parte relendo livros de alguns de seus escritores favoritos, como Dick Francis, John D. MacDonald e James Michener.

Fez aulas de como escrever ficção; leu “On Writing”, de Stephen King, uma combinação de livro de memórias e manual literário; e se preocupou com a história. “Ele estava meio assustado, mas eu sabia que seria bom”, disse sua mulher.

Hadfield recorda uma conversa que teve com Neil Young, quando estava na estação espacial. “Parece uma coisa estúpida, mas, quando você vive em uma espaçonave, o controle da missão pergunta com que pessoa do planeta você gostaria de conversar, para ter apoio psicológico, e aí tentam organizar uma conversa”, ele disse.

A lista de candidatos dele incluía Ryan Reynolds, Sarah McLachlan e Neil Young. “Eu achava que ele nunca ligaria”, disse Hadfield.

Mas Young ligou. O astronauta falou do espaço; o músico falou do assento traseiro de seu Lincoln Continental 1959, agora convertido em híbrido, onde aparentemente a conexão de internet era melhor do que a de sua casa.

Os dois conversaram por quase uma hora, e Young deu algumas dicas criativas a Hadfield. “Ele disse que o certo não é sentar para compor uma canção, mas sim só anotar alguma coisa”, disse Hadfield.

“Às vezes alguma coisa lhe ocorre e você pensa que aquilo é 'cool'. Ele disse que é assim que você compõe uma canção –anotando as coisas quando elas lhe ocorrem”.

Hadfield disse que já escreveu 10 mil palavras de seu novo romance, e está refletindo sobre se deve começar a história logo antes do início da guerra do Yom Kippur, em 1973.

“A guerra oferece um pano de fundo deliciosamente tumultuado para algo que quero que aconteça para me dar as linhas de trama que procuro”, ele disse. “Mas não resolvi os problemas todos ainda, de jeito nenhum”.

Hadfield parecia estranhamente feliz também quanto a isso. “Estou sempre me colocando em enrascadas”, ele disse.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci. 

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