Amanda Kloots Michelle Groskopf/The New York Times

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Katherine Rosman
Los Angeles

Amanda Kloots, 39, não se surpreende com a fama. Ninguém se muda do Ohio para Nova York aos 18 anos, vai a incontáveis audições mal-sucedidas, sacode a poeira todas as vezes, treina sapateado à noite no piso do banheiro de seu minúsculo apartamento pra o caso de surgir uma vaga no elenco de “42nd Street” ou das Rockettes, porque acredita que uma vida discreta e anônima é o ideal.

Mas ela não antecipou a maneira pela qual se tornaria famosa. “É uma justaposição, e uma situação tão estranha”, realizar os seus sonhos profissionais por conta de uma imensa perda, e de uma perda que se tornou pública, disse Kloots.

Antes da pandemia, ela era conhecida de um público relativamente pequeno, como dançarina e instrutora de fitness. Mas poucas semanas depois do início da quarentena, ficou famosa por ter de continuar tocando a vida apesar do luto, depois que a Covid-19 disparou sua fúria contra os pulmões do marido de Kloots, Nick Cordero, 41, astro de musicais da Broadway como “Waitress” e “A Bronx Tale”.

No Instagram, para centenas de milhares de pessoas que viviam grudadas aos seus celulares e à espera de orientação, Kloots deu voz às agonias, ansiedades e isolamento sofridos por aqueles que tiveram pessoas queridas infectadas pelo vírus.

Quando seu marido foi internado, no final de março de 2020, ela tinha cerca de 50 mil seguidores. Número que disparou para mais de 600 mil quando as mensagens de uma jovem mãe e de uma mulher preocupada com o marido começaram a ganhar circulação na mídia social; Kloots postava um “pensamento positivo do dia”, e organizava uma sessão musical coletiva, realizada todo dia às 15h, em que convidava as pessoas a cantarem com ela “Live Your Life”, um rock composto por Cordero que incentiva as pessoas a seguirem seus sonhos.

Era o começo da pandemia, e Kloots instava os americanos a encararem com seriedade a ameaça da doença, ficarem em casa, manterem-se ativos fisicamente, manterem-se ativos espiritualmente, e manterem a esperança.

“Por favor cantem, por favor torçam e por favor rezem por Nick hoje”, ela disse aos seus seguidores em maio do ano passado. “Sei que esse vírus não vai derrotá-lo. Não é assim que a história vai terminar”

Cordero morreu em julho, depois de três meses e meio de internação. Kloots se tornou uma das viúvas mais conhecidas dos Estados Unidos, no começo da era da pandemia, mas ela não desabou sob o peso do sofrimento, pelo menos não publicamente.

“No show business, vivemos uma vida de altos e baixos”, disse a diretora de teatro e coreógrafa Susan Stroman, que trabalhou com Kloots em espetáculos como “Young Frankenstein” e “Bullets Over Broadway”. “Amanda é uma pessoa muito positiva. Em momentos difíceis, ela tenta exercer sua vontade, e fazer com que coisas aconteçam pela força de sua positividade”.

Kloots agora é uma das apresentadoras do programa “The Talk”, na rede de TV CBS. Seu sistema de fitness, AK! Rope, que se baseia em pular corda, está sendo oferecido nas academias Equinox em Nova York e na Califórnia. Na semana que vem, a editora HarperCollins vai lançar seu livro de memórias, “Live Your Life: My Story of Loving and Losing Nick Cordero”.

Ela fala do romance, da carreira e dos sonhos dos dois, e do pesar que sente quando surge o silêncio. “Nós sempre fazíamos compras juntos, no mesmo supermercado, e comprávamos sempre as mesmas coisas”, ela escreve. “Alguns daqueles pequenos momentos que você nunca imaginaria que importam tanto são os que mais me afetam”.

Ela escreveu o livro com sua irmã, Anna Kloots, em seis meses, começando duas semanas depois da morte de Cordero. “Tenho orgulho do trabalho que fizemos”, disse Kloots na semana passada, com as longas pernas de dançarina estendidas no sofá da casa de um amigo em West Hollywood. “Mas a história é triste demais”.

Kloots espera que sua experiência –ainda que envolva encontros incidentais com celebridades e os privilégios de uma vida adjacente a Hollywood— ecoe junto às pessoas que perderam parceiros na pandemia, àquelas que repentinamente se viram responsáveis por criar filhos sozinhas, ou com as pessoas que se viram apanhadas inesperadamente no labirinto da burocracia hospitalar.

O livro está entre as primeiras memórias da era da Covid, oferecendo um relato da doença de seu marido, de sua busca de esperança para ela mesma e para Elvis, seu filho com Cordero, que completa dois anos este mês, e novos detalhes que surpreenderão até os mais ávidos seguidores de suas histórias no Instagram.

Como Kloots revela em suas memórias, ela pôde visitar o marido diversas vezes por semana no hospital Cedars Sinai, nos dois meses finais de sua vida, ao contrário do que aconteceu com a maioria das pessoas que tiveram parentes internados durante a pandemia. Àquela altura, ele tinha passado por três exames negativos de Covid-19 e não estava internado em um andar que abrigasse pacientes de Covid.

“Não o vi depois que a Covid foi confirmada. O hospital não me autorizaria, e eu tampouco ia querer fazê-lo”, ela disse. “Afinal, tenho um filho e por isso tinha de proteger minha saúde”. O ciclo de audições, rejeições, novas audições e sucessos a preparou para o processo de pedir ajuda a qualquer pessoa em quem ela pudesse pensar para obter acesso ao marido. “Eu provavelmente teria me disfarçado de médica e tentado entrar no hospital, se tivesse sido necessário”, ela disse na semana passada. “Ninguém conseguiria me deter”.

Agora Kloots está tendo de encarar o fim repentino de um casamento que parecia perfeito na mídia social mas que era real, na vida real.

“Eu não fui uma boa cônjuge”, ela disse, uma avaliação pessoal da qual muitas pessoas que acompanharam seus sofridos 95 dias de vigília no Instagram podem discordar. Ela diz que o livro é, de certa maneira, a sua tentativa de ser brutalmente honesta, consigo mesma e com os fãs.

Kloots, uma pessoa muito ativa e ambiciosa, conheceu Cordero em 2013 quando foi escalada para o elenco de “Bullets Over Broadway”, no qual Cordero tinha um dos papéis principais, contracenando com Zach Braff.

O primeiro casamento dela estava terminando, e Cordero se tornou seu confidente, e depois namorado. “Muita gente, incluindo Nick, me disse que não era hora de eu namorar”, ela afirmou. “E eu respondia que, naquela hora, eu só precisava ser feliz, e ele me fazia feliz”.

Ainda que tenha sido elogiado pela crítica, o espetáculo ficou apenas quatro meses em cartaz. Kloots estava fazendo trabalhos paralelos como professora de dança e decidiu arriscar a sorte no ramo de fitness, mais estável. Ela criou um programa de exercícios de 50 minutos de duração cuja base era pular corda. Quando alguns de seus clientes, entre os quais a influenciadora Arielle Charnas, do Instagram, começaram a mostrar suas sessões aos seguidores, a popularidade de Kloots cresceu.

Cordero em seguida foi escalado para o papel de Sonny, o principal personagem masculino de “A Bronx Tale”, de Chazz Palminteri, um espetáculo que ficou em cartaz na Broadway do final de 2016 a agosto de 2018. Depois disso, ele passou um ano realizando audições frequentes mas sem conseguir um bom papel.

Àquela altura, Cordero e Kloots estavam casados, e esperando um filho. Ela estava dando meia dúzia de aulas de fitness por dia enquanto Cordero tentava mudar de carreira e se tornar compositor, e alugou um estúdio no East Village, em Nova York, para gravar e mixar suas composições.

“Eu não fui compreensiva com isso”, ela disse. “Vivia dizendo que era uma perda de tempo e de dinheiro. Eu não o apoiei como deveria. Não fui um amparo”.

Mas Cordero estava esgotado pelas audições mal-sucedidas, e disse à mulher que queria que a família se mudasse para Los Angeles, onde ele poderia conseguir papéis na televisão e talvez vender música para as produtoras de cinema. Especificamente, ele queria construir sua vida nas ruas tortuosas do Laurel Canyon, sobre as quais Joni Mitchell cantou.

Kloots resistiu, inicialmente, apontando que, em Nova York, seus pais tinham alugado um apartamento diante do seu para ajudar a cuidar do bebê, e que ela tinha duas irmãs que viviam por perto. Além disso, Cordero era conhecido dos selecionadores de elenco na cidade (e não em Los Angeles), e a clientela de Kloots estava crescendo.

“Brigamos sobre isso por um ano”, ela disse, “e enfim cheguei à posição de que aquilo era um casamento e precisávamos chegar a um acordo”.

Eles se mudaram para Los Angeles no fim de 2019, e inicialmente se acomodaram na casa de hóspedes do amigo Braff. Continuavam lá, ainda que já tivessem encontrado uma casa e começado a reforma, quando Cordero adoeceu. Originalmente, o diagnóstico foi de pneumonia. Ele foi internado em 30 de março, e no dia seguinte já estava no pulmão artificial.

Em suas memórias, Amanda e Anna Kloots relatam a longa crise médica de Cordero nos meses seguintes, que incluiu a amputação de uma de suas pernas, em um esforço para conter uma infecção incontrolável. Todd Kloots, o irmão mais velho de Amanda, viajou de San Francisco a Los Angeles para ajudar a cuidar de Elvis, enquanto Amanda batalhava para se manter informada sobre a situação e os possíveis tratamentos de seu marido. Anna Kloots, que tinha se divorciado há pouco tempo e morava em Paris, também viajou a Los Angeles, um esquema que os três irmãos encaravam como uma espécie de versão para a era Covid de “Três Solteirões e um Bebê”.

Amanda já era usuária frequente do Instagram, e usava a rede social para manter informados amigos, clientes e um quadro crescente de desconhecidos que viviam grudados aos celulares, procurando notícias, liderança e uma forma de fazer alguma coisa comunitária, e útil, enquanto estavam presos em casa.

Isso tudo aconteceu antes do assassinato de George Floyd, quando a conversação nacional mudou, urgentemente, para a violência policial e o racismo sistêmico, o que inclui as desigualdades reveladas pela pandemia. O governo Trump continuava a minimizar o risco de contágio pelo vírus, ou de morrer dele.

“Não era só para mostrar aos amigos e às pessoas queridas o que estava acontecendo”, disse Stroman. “Amanda estava despertando o mundo para o que estava acontecendo. A doença era capaz de derrubar até mesmo um homem no auge da vida, alguém que fazia oito apresentações semanais no teatro com força e vigor”.

As pessoas entravam em contato com Kloots e perguntavam como podiam ajudar. Quando ela tocava música para Cordero, via melhoras em seus sinais vitais. “Foi assim que descobri minha missão”, ela escreveu no livro. Ela pediu que seus seguidores postassem vídeos que os mostravam cantando e dançando “Live Your Life”, a canção de Cordero, todo dia às 15h, horário da costa do Pacífico dos Estados Unidos.

A serenata coordenada por ela se tornou um encontro comunitário, de certa forma parecido com os aplausos e serenatas para os trabalhadores que combatiam a pandemia em Nova York, Roma e outras cidades do planeta. Em maio, a canção já estava sendo tocada no rádio, e Sara Bareilles e os elencos de ”Waitress” e de “A Bronx Tale” gravaram versões online. “Live Your Life” terminou chegando ao primeiro lugar entre as músicas executadas na iTunes.

Kloots recebeu diversas propostas de anunciantes, produtores de cinema, roteiristas de TV e documentaristas. “E eu respondia sempre que não, não e não”, ela disse. Mas quando Lisa Sharkey, vice-presidente sênior da editora Harper Collins (e ex-aluna de fitness de Kloots) conversou com ela sobre um livro de memórias, Kloots discutiu a possibilidade de escrevê-lo com Anna, 32, que sempre quis ser escritora profissional. (Anna, que foi casada com um mágico e trabalhava com ele, está escrevendo um livro pessoal de memórias para outra divisão da HarperCollins, chamado “My Own Magic”.)

Durante a doença de Cordero, quando Anna estava morando com Amanda e Elvis, ela fazia anotações, mantinha diários e gravava as conversas ente a irmã e os médicos. Quando chegou a hora de escrever o livro, “eu tinha um banco de dados maluco, repleto de informações e anotações”, disse Anna, além das mensagens de Instagram de sua irmã.

O livro está saindo perto do primeiro aniversário da morte de Cordero. Pouco depois que ele morreu, Kloots fez uma busca no Google quanto aos “estágios do pesar”, e imprimiu resultados que ela esperava pudessem servir como guia.

Não funcionou. A dor vem e vai, em ondas inesperadas. Ela está contente por estar criando Elvis na comunidade de Laurel Canyon com a qual seu marido sonhava. Mas ainda precisa lidar com o arrependimento. “Aprendi a apreciar a música dele tarde demais”, disse Kloots. “Mas estou determinada a manter sua voz viva”.

The New York Times

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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