Celebridades
Descrição de chapéu The New York Times

Viúva de Nick Cordero fala sobre futuro após perda do marido: 'Tentar me manter feliz'

Ator da Broadway morreu em julho após meses de luta contra Covid-19

Amanda Kloots, mulher do ator Nick Cordero, morto após meses de luta contra a Covid-19 Erik Carter - 25.set.20/ The New York Times

Michael Paulson

Nick Cordero tinha só 41 anos. Ele era casado e tinha se tornado pai pouco tempo antes de contrair o coronavírus.

Cordero era um ator que se destacava na Broadway não só por sua estatura de 1,96 metro, mas porque encantava seus colegas de elenco mesmo quando interpretava papéis sinistros –um homem abusivo em “Waitress”, um bandido em “A Bronx Tale”, um gângster em “Bullets Over Broadway”. Nesse último espetáculo, ele conheceu sua futura mulher, Amanda Kloots, 38, e foi indicado a um prêmio Tony.

Nick, Amanda e seu filho pequeno, Elvis, se mudaram para Los Angeles no final de 2019; Cordero era parte do elenco em uma produção de “Rock of Ages” e Kloots começou a desenvolver sua empresa de fitness. Em março, pouco depois de voltar de uma viagem a Nova York, ele adoeceu.

Kloots, que aprendeu a usar a mídia social a fim de conduzir o seu negócio, registrou a jornada do marido no Instagram, e centenas de milhares de pessoas acompanharam a história; muitos se uniam a Kloots para cantar “Live Your Life”, uma canção composta por Cordero, a cada tarde. Mas a odisseia médica dele foi se tornando mais e mais sofrida. Em abril, ele sofreu a amputação de uma perna. O sofrimento dele, assim como a determinação de sua mulher, se tornou uma das imagens que definem a pandemia, para muitos de seus seguidores.

Cordero morreu no dia 5 de julho. Kloots e Elvis, depois de meses morando em uma casa de hóspedes de Zach Braff, 45, que trabalhou com Cordero em “Bullets Over Broadway”, se mudaram para a casa que a família havia planejado ocupar para construir uma vida em sua nova cidade. Mas o que o mês trouxe foram cerimônias para celebrar a memória de Cordero, e o lançamento de um disco póstumo.

Em entrevista por telefone, Kloots foi calorosa e demonstrou franqueza e autocontrole. Ela só cedeu à tristeza quando perguntada sobre como via seu futuro. Abaixo, trechos editados da conversa.

*

O que você quer que Elvis saiba sobre Nick?
Meu Deus, eu quero que nosso filho seja curioso porque Nick era muito curioso. Quero que ele saiba que Nick batalhou muito para realizar seus sonhos, e que nunca desistia. Quero que ele saiba que seu pai trabalhava muito. E amaria que ele descobrisse todas as pessoas que Nick inspirou, as vidas que ele afetou, e que bom sujeito ele era.

Até onde você sabe, como Nick contraiu a Covid?
É quase impossível saber, infelizmente. Perguntei isso ao médico muitas vezes. É impossível identificar.

Por que você acha que a doença o atingiu com tanta força?
Essa é outra coisa sobre a qual me preocupo às vezes, de noite. Não é justo. Ele estava melhorando. Chegou perto de ser retirado do pulmão artificial. Mas desenvolveu uma infecção terrível nos pulmões e sua febre disparou, sua pressão sanguínea caiu, seu coração parou e ele passou quase dois minutos tecnicamente morto; foi o começo da espiral que o matou. Minha sensação é de que ele não teve sorte em momento algum.

Você acredita que o hospital conduziu o caso dele corretamente?
Sim, com certeza. Nós não estávamos preparados. Acho que qualquer pessoa que trabalhe no hospital diria o mesmo; não estou tentando ser diplomática. Mas preciso dizer: estávamos preparados para a pandemia? Não. Tínhamos as informações de que precisávamos para estar preparados? Não sei, e nem vou tentar refletir sobre isso. Mas deveríamos ter um preparo melhor, e acredito que, caso isso tivesse acontecido, teria feito diferença na vida de muitas pessoas, e não só na de Nick.

Foi maravilhoso ver o apoio que vocês receberam dos elencos de que você e Nick fizeram parte.
No teatro, o primeiro dia é aquele primeiro aperto de mão, prazer em conhecê-lo, e no dia seguinte você já está dançando com as pessoas, subindo em cima delas, cantando, trocando beijos. Um elenco se torna uma família. Nick sempre me falava sobre o pessoal de “Rock of Ages”, e no minuto em que ele adoeceu o pessoal do elenco entrou em contato comigo via Zoom. “Como podemos ajudar? Vocês estão precisando de comida?”

O elenco de “Waitress” cantou aquela versão linda de “Live Your Life”. O elenco todo de “A Bronx Tale” se reuniu para rezar. E “Bullets Over Broadway”... Nossa. Nós ficamos morando na casa de hóspedes de Zach. E quando Nick adoeceu, ele logo disse “nem pense em procurar outro lugar. Pode contar comigo”.

Você pôde ver como a doença é perigosa. O que você acha que a Broadway deveria fazer, em termos de reabertura?
Isso é muito difícil, não? Creio que se existe alguém capaz de descobrir como fazê-lo, e como fazê-lo de maneira segura, é a comunidade da Broadway, porque somos criativos, somos incansáveis, e todos amamos nos apresentar.

Como você começou a abordar pessoas para que elas cantassem “Live Your Life” todos os dias?
Eu imaginei que, se alguma coisa seria capaz de despertá-lo, seria ouvir o mundo todo cantando sua canção. Ele sempre quis ser um astro do rock, e decidimos fazer dele um astro do rock. E a coisa pegou e não parava de crescer.

Você e sua irmã criaram uma linha de camisetas, e agora vão escrever um livro juntas.
Sim, estou escrevendo minhas memórias sobre o que aconteceu, com Anna Kloots, minha irmã. É sobre tudo pelo que passei, e sobre positividade, fé e resiliência. Comecei a escrever quando estava em Ohio, com minha mãe e meu pai, logo depois da morte de Nick. Foi incrivelmente terapêutico para mim, fazer isso.

Parece que a religião também foi parte importante de seu processo para lidar com tudo isso.
Fui criada como luterana, e fui bem religiosa minha vida toda. No momento não sigo uma igreja específica, mas sempre rezei, e sempre me senti reconfortada ao ir à igreja, e sei que não teria conseguido passar por isso sem minha fé e minhas orações.

Você falou sobre aceitar a vontade de Deus, mas isso com certeza é difícil, em um momento como agora.
É difícil. Você sabe, as pessoas dizem que tudo acontece por um motivo, e você não se conforma em ouvir. Fica questionando. “Por quê? Por que Nick?”. Mas houve muitos momentos, no hospital, ou em uma conversa por telefone com os médicos, quando eles me diziam que Nick não sobreviveria, que ele só tinha uma ou duas horas de vida pela frente. E eu rezava com toda força, porque era só daquela maneira que podia ajudar. E ele sobrevivia, ele batalhava, ele resistia.

Mas uma das vezes que isso aconteceu, eu estava rezando e disse “Deus, seja feita Sua vontade. Jamais vou compreender caso o Senhor o leve. Mas não é a minha vontade que importa, e sim a Sua”. Isso me ajudou no hospital, e continua a me ajudar agora. Não é que o hospital não tenha feito o bastante. Não é que eu não tenha feito o bastante. Foi o que Deus quis.

Eu sei que você já deve ter ouvido isso muitas vezes, mas é impressionante o quanto você parece positiva.
Não posso me afundar em um buraco, neste momento da minha vida. Tenho um filho lindo que depende de mim. E além disso, Nick preferiria que eu agisse assim. Há momentos de cada dia em que fico triste, momentos de cada dia em que eu choro. Mas também preciso encontrar aquelas pequenas coisas em cada dia que me fazem feliz, ou eu não conseguiria sobreviver.

Conte-me sobre sua decisão de falar sobre a luta de Nick na mídia social.
Nick estava doente e em casa por uma semana, e eu não disse coisa alguma. Mas quando ele foi internado, achei que precisava falar a respeito. Meu marido, que tinha 41 anos e nenhum problema de saúde preexistente, tinha ido parar na UTI, e isso depois de reclamar só de cansaço por alguns dias. Meus negócios também funcionam online, e eu estava tentando ganhar dinheiro para manter a família, e achei que, se não falasse a respeito, estaria vivendo uma mentira.

Compartilhar sua vida na mídia online a deixa muito exposta.
Muita gente me pergunta se aquilo não era exaustivo. Se não era horrível. E eu respondo que não, que era o exato oposto. Só recebi ajuda, positividade, orações e solidariedade. O [hospital] Cedars Sinai me mandava caixas cheias de presentes de gente do mundo todo. Eu ficava ao lado da cama de Nick, lendo os cartões em voz alta. “Estamos orando por você”; “fizemos este cartão para você”; “minha filha fez este desenho”; “esta é a nossa oração favorita, emolduramos para você”.

Uma campanha no GoFundMe arrecadou mais de US$ 1 milhão [R$ 5,6 mi]. O que você fará com o dinheiro?
As contas do tratamento estão chegando. Graças ao dinheiro, consegui manter uma área separada em minha casa para minha família me ajudar durante a transição. Também quero usar parte do dinheiro para começar uma ideia que quero fazer por Nick.

Qual é seu próximo passo?
Estamos chegando ao outono, e acho que será uma época difícil. Mas vou tentar me manter feliz e positiva; tenho escapado por alguns dias com Elvis, para conhecer novas partes da Califórnia, ver o mar. Quero tentar passar pelos próximos meses da melhor maneira que conseguir.

Elvis deve ajudar bastante.
Com certeza. Ele é muito lindinho. Um menininho muito feliz. Mesmo quando quero ficar triste, ele é tão fofo que termino sorrindo e rindo. Ele se parece com Nick, e a personalidade dele também é bem parecida com a do pai. Já dá para perceber.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem