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Mayara Russi diz que já sofreu para ser magra e que mulheres querem igualdade e reconhecimento

'Eu sou feminista, eu luto pelas mulheres, eu acordo todos os dias querendo que alguma coisa mude'

Mayara Russi

Mayara Russi Divulgação

São Paulo

Modelo plus size Mayara Russi, 30, conta que quando era adolescente se preocupava em ficar magra para agradar os outros. Com o tempo, ela conta que aprendeu que esse padrão de beleza não faz sentido.

"Eu falo que esse padrão aí já é furado, é papo de antigamente, a gente tem que se amar do jeito que a gente é. Ninguém é obrigado a gostar de nada, mas tem que respeitar", diz ela, que participa do reality Beleza GG, do canal E!

Russi, que fala sobre os assuntos nas suas redes sociais, faz questão de dizer que é feminista e que luta pelas mulheres. "A gente não precisa de flores. A gente precisa de igualdade, a gente precisa de luta, a gente precisa de reconhecimento no mercado de trabalho e em todas as outras áreas. A gente precisa acabar com o feminicídio. Essa é a melhor maneira que a gente tem para comemorar, das pessoas terem um pouco mais de consciência do que significa ser mulher", afirma.

Leia a seguir a entrevista os principais trechos da entrevista com Mayara Russi. E veja no vídeo depoimentos de outras personalidades sobre o mês da mulher.

É importante ter um dia dedicado à mulher?
Hoje, eu não acho, mas já achei muito importante. A questão de você comemorar o Dia da Mulher da maneira como é comemorado hoje, ganhando flores, ganhando bombom, é uma coisa muito passada, porque o que a gente precisa não são flores. A gente precisa de igualdade, a gente precisa de luta, a gente precisa de reconhecimento no mercado de trabalho e em todas as outras áreas. A gente precisa acabar com o feminicídio. Essa é a melhor maneira que a gente tem para comemorar, das pessoas terem um pouco mais de consciência do que significa ser mulher.

Ser é mulher é...
Ser mulher é ser forte, é ser resistente e é nunca desistir de lutar pelo que a gente merece ter.

O foco do Dia Internacional da Mulher é a igualdade de direitos. Tem como tema “Eu sou a Geração Igualdade: Concretizar os direitos das mulheres”. O que já melhorou? O que piorou? Ainda há muito a avançar?
Eu acho que a nossa luta por direitos iguais ainda tem muito o que melhorar. Já avançou, graças à militância, ao ativismo, graças à persistência de todas as mulheres, mas eu acho que ainda falta muito, porque nós mulheres precisamos nos unir mais. A gente precisa pegar uma na mão da outra e lutar mais ainda, porque as pessoas precisam entender a importância que a gente tem. No mercado de trabalho, hoje a gente já vê grandes mulheres ocupando grandes espaços, mas isso ainda precisa melhorar. Há empresas que ainda têm muito preconceito, principalmente, na questão da mulher ter filho. Há aquela desculpinha: 'Ah, tem filho, vai faltar no trabalho'. Mas por que que o pai não pode ter também essa posição? Então, é um conjunto de coisas, que a gente ainda precisa mudar na cabeça da sociedade.

Qual é a sua principal insatisfação em seu ambiente de trabalho por ser mulher?
No meu meio de trabalho por ser totalmente feminino ainda tem uma pressão por ser mulher. Não na questão só de ser mulher, mas essa questão de: 'Ah, a mulher tem que cuidar do corpo, o homem não'. A gente ainda sente muito isso, esse preconceito, porque se a gente ganha dois centímetros de cintura, a gente é julgada, a gente já é cobrada, e tem que ficar sem comer, tem que ficar malhando o tempo todo e não é assim que funciona. A gente também tem que entender que a mulher tem diversas prioridades no corpo, essas coisas que acontecem no corpo que mudam o tempo todo. Tem período menstrual, tem questões hormonais, emocionais, isso altera demais e a gente é muito cobrada por isso, e não deveria.

Você já foi vítima de assédio sexual? Como lidou com isso? Agiria de outra forma hoje?
Eu sofria muito assédio, porque na época que eu era adolescente eu ficava me preocupando em ficar magra, em ficar bonita para poder agradar as pessoas. Eu saia para a balada, eu ficava implorando para alguém chegar em mim para eu conseguir me ressignificar, me achar alguma coisa, e aí eu acabei aceitando muita coisa sem saber mesmo que era assédio. Hoje eu tenho esse entendimento que eu sofri muito assédio, de pegar no braço, de querer forçar um beijo, coisas do tipo que hoje, graças a Deus, eu consigo passar para as minhas amigas, passar para as pessoas próximas, principalmente, para os meus filhos para eles não repetirem esse mesmo erro que as pessoas têm com a gente.

Qual a importância de movimentos como #MeToo e #TimesUp, que chamaram a atenção para o assédio sexual dentro e fora do ambiente de trabalho?
Sem dúvida nenhuma esses movimentos são muito importantes para a gente se conscientizar, principalmente, nós mesmas, para gente entender o que é o assédio e não deixar que isso aconteça na nossa vida, e também passar esse conhecimento a pessoas que estão a nossa volta, porque eu acho que quanto mais pessoas adquirirem esse conhecimento, as coisas podem mudar.

Você que acha que as mulheres têm buscado mais união entre elas e deixado de lado a rivalidade?
Eu vejo muita união das mulheres hoje, mais do que muitos anos atrás, mas ainda tem aquela massa que, talvez, por falta de consciência não entenda que aquilo é uma rivalidade, acha que aquilo é algo natural. Mas acho que estamos no caminho para poder quebrar toda essa corrente de mulher desunida, porque as pessoas sempre têm esse pré-julgamento que a mulher destrói outra mulher, e a gente não pode deixar isso acontecer. Isso tem que ser ao contrário.

Qual é a importância das mulheres em cargos de poder?
Mulheres em cargo de poder é algo que mexe muito com a minha cabeça, porque eu sempre fui criada para achar marido que tivesse um cargo de poder, para que a minha vida fosse confortável, e isso sempre me incomodou. Eu trabalho desde os meus 14 anos, eu sempre quis correr atrás das minhas coisas, nunca gostei de ter um provedor, eu sempre gostei de ser a provedora. Hoje em dia, a gente vê algumas empresas com grandes mulheres no poder, mas são poucas, precisa de mais. O mercado de trabalho precisa entender que a mulher tem capacidade, sim, inclusive a mulher faz milhões de coisas ao mesmo tempo, com maior potencial do mundo, e as pessoas não enxergam. Não é só o homem que pode ser diretor de uma multinacional, a mulher também pode.

Você se sente mais representada por um homem ou por uma mulher na política? Mulheres deveriam se candidatar mais a cargos políticos?
Com certeza as mulheres deveriam se candidatar mais na política. Eu me sinto totalmente representada, porque uma mulher sabe qual é a necessidade de outra mulher e para gente continuar com o ativismo e com a militância, a gente precisa de mais mulheres no poder.

Como podemos melhorar e ter igualdade de gênero no Brasil?
Ixi, essa daí é punk hein. Mas eu acho que a principal forma para a gente ter mais igualdade de gênero é a maneira que a gente cria os nossos filhos. Dentro de casa, a gente explicar como tudo acontece e mostrar que não tem nenhum problema em querer ser algo ou ser algo e não saber o que é, eu acho que a gente pode acabar com metade dos problemas do mundo nessa questão de igualdade de gênero.

Qual é a sua principal referência de mulher?
A minha mãe é a minha principal referência, uma pessoa que nunca teve preconceito em relação a nada, é uma mulher que sempre trabalhou a vida inteira. Junto com o meu pai, eles conseguiram dar uma vida muito legal para gente, mas sem sair dos nossos princípios. Minha mãe nunca criticou gêneros diferentes, corpos diferentes, cor de pele diferente, então, isso eu admiro muito na minha mãe, que é uma mulher forte, que me ensinou a ser forte como ela e que hoje eu penso dessa maneira por diversas coisas que aconteceram na nossa família, na nossa vida, por apoio da minha mãe. Eu admiro demais e, por mais que ela tenha uma cabeça mais antiga, como outras pessoas que às vezes usam isso como desculpa para não pensar diferente, ela foi evoluindo junto com o mundo, e isso me deixa muito feliz.

Você se considera feminista? Acha ruim ter nome associado a esse termo?
De forma nenhuma [acho ruim ser associada ao termo]. Eu sou feminista, eu luto pelas mulheres, eu acordo todos os dias querendo que alguma coisa mude. E eu faço o meu papel, eu ajudo as mulheres todos os dias lá nas minhas redes sociais. Todo dia que sobe 1% do meu público feminino, eu já fico comemorando muito, porque isso é muito bom. Quanto mais mulheres a gente puder inspirar e mostrar qual é a nossa realidade, o que a gente pode se posicionar, o que a gente pode lutar por um mundo melhor para nós.

Você se sente pressionada a se enquadrar em um determinado padrão de beleza? Há um padrão? Essa pressão vem de onde? Como combater esses julgamentos?
Eu acho que quem inventou esse padrão de beleza aí não sabia de nada, porque o mundo é diferente, as pessoas são diferentes, não existem corpos iguais, não existem pessoas iguais nem belezas iguais. A gente tem que parar para pensar de onde surgiu esse padrão? Quem que ditou isso? Tá certo ou não? Lá nos séculos passados, os pintores pintavam mulheres curvilíneas nos quadros, porque era uma referência de beleza ou então falavam que quem era mais gordinho era mais saudável porque comia melhor. São coisas assim, é um conjunto todo que a gente tem que parar para pensar para não acabar com a nossa saúde por um lado, mas também se amar do jeito que é para a partir de então começar a mudar alguma coisa que não está te fazendo bem. Porque o ato de amor próprio ele serve para isso, para você conseguir se amar, amar o seu corpo, e aí o amor também faz você mudar o que não esteja bom. Eu falo que esse padrão aí já é furada, é papo de antigamente, a gente tem que se amar do jeito que a gente é. Ninguém é obrigado a gostar de nada, mas tem que respeitar.

Mulheres são sempre associadas à maternidade. O que você pensa disso?
Ó, eu vou dar uma dica para vocês. Se você encontrar uma amiga tua não pergunta assim: 'Ah e aí, quando vai vir o filho?' Gente, nenhuma mulher é obrigada. Eu estava conversando com uma amiga agora há pouco sobre isso, os meus filhos são os amores da minha vida, mas hoje em dia se eu não tivesse os meus filhos, eu não sei se eu teria mais, porque o nosso mundo está muito doido hoje, a gente vê tanta coisa por aí, tanto sofrimento, e não sei se a gente vai ter uma melhora tão cedo. A gente não pode julgar quem não quer ter filho, porque o corpo é da pessoa, ela dita o que ela quer passar ou não, se ela quer ter filho ou não, a gente não pode ser invasivo. É um momento muito íntimo da mulher. Se ela quiser vai ter filho, se ela não quiser não vai ter filho.

Ser mulher em 2020 é melhor do que no tempo de sua mãe ou avó? Qual a mudança que você almeja para as crianças que estão nascendo agora?
Ser mulher hoje é muito melhor do que na época da minha mãe, porque era uma outra cultura, elas passavam por muita coisas caladas, nesse quesito de traição, tinha que continuar casada, tinha que continuar com o marido, porque era a única pessoa que ia ficar com ela, e hoje isso acabou. A gente está abrindo a nossa mente para a gente se respeitar em primeiro lugar. Eu acho que mudou bastante coisa, principalmente em relação ao mercado de trabalho onde as mulheres eram secretárias ou eram datilógrafas, e hoje em dia a gente vê mulheres subindo de cargo, conseguindo independência financeira, sendo empreendedoras, inteligentíssima, sabendo sustentar uma vida, uma casa, uma família, com o maior louvor assim possível.

De que forma você orienta seus filhos sobre essas questões de gênero, feminismo e machismo? Muda se a criança é homem ou mulher?
Eu não faço muita diferença com os meus filhos. Eu tenho um casal, minha filha tem sete anos, e o meu filho, 12. O Rafa já está numa fase, onde ele consegue ter um entendimento maior das coisas, ele sabe sobre tudo, sobre política, ele sabe sobre feminismo, machismo, e ele, graças a Deus, é uma criança que foi sempre criada com todo tipo de diversidade. Eu tenho amigos de tudo quanto é tipo, ele foi criado junto. Então, para ele é extremamente normal, e o que ele decidir para a vida dele vou apoiar.  
 
 

   
 

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