Celebridades

Como rapper 50 Cent ajudou por meio da série 'For Life' a revelar uma história de injustiça

Curtis Jackson e Isaac Wright falam sobre nova atração para a ABC

Cena da série "For Life"
Cena da série "For Life" - Giovanni Rufino/ABC
Austin Considine
Nova York

É raro que a história de um sujeito que levou nove tiros --e depois se tornou um rapper e ator famoso– não seja a mais incrível a surgir em uma conversa. Mas foi o que aconteceu em fevereiro, quando Curtis Jackson, mais conhecido como 50 Cent, apareceu para uma entrevista em companhia do advogado Isaac Wright Jr.

Três décadas antes, Wright havia sido acusado de ser líder de uma gangue de tráfico de drogas, condenado com base em falsos depoimentos, e sentenciado a prisão perpétua e mais 70 anos. Jackson ainda era adolescente, e vendia drogas nas ruas de South Jamaica, no distrito nova-iorquino de Queens.

As perspectivas pareciam bem pouco animadoras, para ambos. No entanto, em 2020 Jackson e Wright apareceram usando ternos impecáveis, os dois vestindo púrpura, em um camarim do estúdio da rede de TV ABC, perto do Lincoln Center. A nova série que eles criaram para a ABC, "For Life", havia estreado uma semana antes e os dois tinham acabado de gravar uma participação no programa The View.

Na série, Jackson interpreta uma espécie de presidiário profissional, um homem que desfruta de tanto poder dentro da prisão que parece preferir não sair. O ator Nicholas Pinnock interpreta um tipo diferente de morador permanente da mesma penitenciária, um detento que se formou em direito depois de preso e se dedica a combater sua própria condenação –uma versão ficcional da história de Wright.
Wright diz ter reconhecido um espírito irmão, em Jackson.

“Estamos falando a um cara que sobreviveu a nove balas de um assassino e se tornou um dos artistas e homens de negócios mais influentes do planeta”, observou Wright, que, como Jackson, é produtor executivo da série. “E você tem um segundo cara condenado a prisão perpétua e mais 70 anos, que defendeu a própria causa, mudou a lei, e fez um policial confessar delitos que por fim resultaram em sua libertação”.

“São resultados miraculosos diante de desafios imensuráveis”, ele prosseguiu. “E essas duas vidas se uniram para criar a série”.

Três décadas atrás, Wright sabia que não devia esperar por milagres. Confinado na Penitenciária Estadual de Nova Jersey, uma instalação de máxima segurança em Trenton, ele estava trabalhando para se tornar assistente jurídico e ajudar a representar outros detentos, mas não perdia de vista a possibilidade de lutar por sua liberdade.

Ajudados por sua experiência no estudo de precedentes jurídicos, ele e seu advogado provaram em 1996 que a condenação dele havia sido baseada em parte em uma “apreensão ilegal de cocaína”, como noticiou o The New York Times, e “em falso testemunho de três dos demais acusados”, a quem um ex-procurador público corrupto “havia oferecido leniência”.

Wright estava livre, mas precisou de mais 21 anos para obter seu diploma em Direito. Na série, o criador, Hank Steinberg, decidiu adotar uma linha do tempo mais curta: o personagem de Pinnock, Aaron, já é advogado na prisão, e é forçado a voltar a vestir seu uniforme de presidiário cor de laranja depois de seu trabalho nos tribunais, quer vença seus casos, quer perca.

No episódio seis, que foi veiculado na terça-feira, um novo detento chamado Cassius chega a Trenton e imediatamente começa a pressionar Aaron. Da forma pela qual Jackson o interpreta, Cassius é um sujeito charmoso e enganosamente amável, como Kanan Stark, o personagem do ator na série “Power”, do canal Starz, cuja temporada final foi concluída dias antes da estreia de “For Life”. E também como Kanan, Cassius é aterrorizante.

Wright e Jackson falaram sobre sua luta, seu sucesso e sua esperança quanto ao que a série pode realizar. Abaixo, trechos editados da conversa.

Você foi uma das forças motoras para a produção dessa série, mas o que o levou a interpretar Cassius?
Curtis Jackson: Eu queria garantir um papel com alguma substância. E desenvolvemos um personagem que passou mais tempo na prisão do que no mundo livre. E assim, enquanto está encarcerado ele começa a se sentir confortável com a vida na instituição. Há uma parcela de caras na prisão que rompem todos os elos com o mundo livre e, por causa disso, o tempo passa muito mais rápido –quando sua cabeça não está o tempo todo fora da prisão, você sabe.

Mais ou menos o oposto de Aaron, o personagem baseado em Isaac, certo?
Curtis Jackson: Exatamente, o completo oposto. E essas são as pessoas mais perigosas. Porque os guardas querem voltar para casa. Os detentos querem voltar para casa. E Cassius não está interessado em voltar para casa, porque jamais sentiu tamanho poder no mundo real. Conheço caras que foram sentenciados a entre dois e quatro anos de prisão e transformaram essa sentença em sete anos atrás das grades. Quando chegaram à prisão, começaram a curtir estar na prisão. E eles constroem reputações na cadeia que chegam às ruas, porque do lado de dentro se tornaram alguém, algo mais do que tinham sido na rua.

Qual é a sensação de ver parte da sua vida na tela, Isaac?
Wright: 50 me disse algumas vezes que minha história era singular. Mas o que isso significa para mim, em termos pessoais, é que deixei milhares de pessoas para trás. Assim, para mim a série é um signo de esperança e inspiração que me permitirá tocar pessoas que de outra forma eu não teria como atingir.
Uma coisa que me dá esperança é que essa série está fazendo dos telespectadores membros da família de uma pessoa que está encarcerada. Os espectadores torcem por ele. Sofrem quando ele sofre. Sentem empatia por sua batalha. E ele assim se torna o filho ou irmão a quem as pessoas não podem imaginar que algo assim aconteça.

Houve um sentimento imediato de irmandade, quando você se conheceram?
Wright: Bem, 50 já era um cara respeitado antes de eu conhecê-lo. Isso bastava para que houvesse respeito imediato, quando ele entrava em uma sala. Mas com base em meus antecedentes, também sinto a necessidade de olhar um homem nos olhos, avaliá-lo cara a cara. E assim, ao me sentar em uma sala com ele e avaliá-lo, eu sabia, assim que nossa conversa terminou, que tinha feito um amigo para o resto da vida. E quando digo isso, não estou nem mesmo contemplando como 50 se sente. Se ele me odiasse completamente, ele ainda seria meu amigo. E eu sabia que, com respeito ao que ele desejava fazer com essa história, eu podia apostar minhas fichas e confiar em que ele faria acontecer.
Jackson: Algumas partes dessa história, francamente, da minha perspectiva, pareciam loucura. Em dado momento lhe ofereceram um acordo sob o qual, caso admitisse sua culpa, poderia sair em dois anos. E ele recusou. Continuou sua luta. É incrível. E quando ele me contou essa história, fui ao Google confirmar, porque não conseguia acreditar. E quando descobri que era verdade, cheguei à conclusão de que “não, isso não é um longa-metragem”.

Por que uma série, então?
Curtis Jackson: Porque um longa teria me dado duas horas para explicar a jornada. Como explicar? O cara aprendeu Direito sob circunstâncias nas quais o sistema mesmo é criminoso –isso já nos dá uma série procedural como nunca vimos antes.
Isaac, a história dele é uma, é única. Ele não é nem um unicórnio. Não é um em um milhão. Sob circunstâncias em que dois ou três advogados examinaram seu caso e disseram que não havia nada a fazer, que o melhor seria admitir culpa e esperar que a sentença fosse de 15 anos, o bom senso diria que é impossível derrotar o governo. Mas ele é mais duro que isso, um dos caras mais duros com quem já convivi. Há muitos caras durões no mundo, e todos eles têm medo do governo.

Isaac, foi preciso convencê-lo a colocar sua história em um formato conveniente para a mídia de massa?
Wright: Houve um período em que isso não era algo que eu quisesse. Desde o dia em que saí, foi um processo evolutivo. Fiquei doente por uns dois anos –essa é a melhor maneira que encontro para descrever o que estava acontecendo comigo. Mas com a passagem do tempo, e quando concluí a escola de Direito, se tornou claro para mim que eu precisava de uma plataforma. Essa série serve como meus tentáculos, para chegar a pessoas a quem quero ajudar mas não conheço.
Para mim, esse é o sacrifício. Fui sentenciado em 1991. Já estamos em 2020 e minha família e eu ainda não discutimos o que me aconteceu.

Nunca?
Wright: Nunca. Jamais falamos sobre o que aconteceu.

Eles estão descobrindo coisas à medida que os episódios vão ao ar?
Wright: Sim, estão descobrindo.

Vocês conversam a respeito depois?
Wright: Bem, existe uma diferença entre falar sobre a série e sobre aquilo que de fato aconteceu. E o que está acontecendo, comigo e com minha família, agora, é que estamos falando da série. E eu ainda não gosto de falar da série. A parte terapêutica foi assistir à produção.
Jackson: Nenhuma grande cicatriz vem acompanhada de alegria. Mas acredito que essas coisas dolorosas, que ficam com você, sejam momentos que levam seu caráter a mudar. Pode ser o acidente de carro de Kanye, ou os tiros que levei, sempre que artistas passam por experiências dolorosas, isso usualmente resulta em alguma coisa de especial em seu lado criativo.

The New York Times

Com tradução de Paulo Migliacci

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