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Os brasileiros que criam aves de rapina como águias, falcões e corujas

O treinador de animais e fotógrafo Wagner Ávila tem oito espécimes de rapina, entre elas um corujão-orelhudo
O treinador de animais e fotógrafo Wagner Ávila tem oito espécimes de rapina, entre elas um corujão-orelhudo - ZORAIDE BRAZ
Descrição de chapéu BBC News Brasil
São Paulo

Até os 18 anos, Rodrigo Morais Assunção morava no 16° andar de um prédio no bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo. Lá do alto de sua janela, ele observava grandes aves de rapina pousando nas antenas do condomínio onde morava. "Eu ficava fascinado com a beleza delas, sua aerodinâmica e esplendor", diz. "Aos 7 anos, já sonhava um dia poder criar uma ave dessas e poder treiná-la, ainda sem saber que isso era possível."

Hoje biólogo, Assunção é uma das pessoas que se dedicam a criar grandes espécies de aves, principalmente as de rapina, como águias, falcões, gaviões e corujas — as quais não vivem em gaiolas e precisam ser alimentadas com pequenas presas e realizar voos para se exercitar.

"Quando cheguei à adolescência, descobri a arte da falcoaria e treinamentos de aves de rapina aqui no Brasil, milenar em outros países. Foi aí que então resolvi cair nesse mundo de cabeça a começar conhecendo alguns treinadores aqui no Brasil e buscando mais e mais informações e conhecimento, me preparando para no futuro adquirir uma ave e realizar meu sonho", conta.

Assunção tem seis aves, das quais três de rapina: uma coruja suindara (Tyto furcata), também conhecida como coruja-das-torres, coruja-da-igreja ou rasga-mortalha, um gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus) e uma águia-serrana ou águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus).

O farmacêutico, técnico em controle ambiental e estudante de Medicina Veterinária Diego Bitener é outro adepto dos rapinantes alados. Em 2003, ele fez uma cirurgia na coluna e, enquanto se recuperava, começou a estudar, pela internet e por vídeos e livros, sobre elas e como tê-las em casa e treiná-las.

"Sempre fui apaixonado por espécies silvestres e exóticas", conta. "Desde essa época, tive umas 30 dessas aves, algumas das quais estão comigo até hoje. Também treinei algumas para outras pessoas. Atualmente, tenho duas, uma águia-serrana e um corujão-orelhudo (Bubo virginianus). No final do ano, vou receber um casal de gaviões-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), que vou ensinar a voar em conjunto."

O treinador de animais e fotógrafo Wagner Ávila tem oito espécimes de rapina. Ele lida com esse tipo de ave desde 2003, mas só em 2013 adquiriu sua primeira, uma suindara. "Lá no Nordeste, essa espécie se chama rasga-mortalha e é considerada de mau agouro", conta. "Então, as pessoas jogam pedras para espantá-las ou até as matam, porque acreditam que se essa coruja pousar e gritar em cima de uma casa, noutro dia alguém da família morre."

Ele também possui um corujão-orelhudo, a maior espécie de coruja das Américas, que se alimenta de presas um pouco maiores que camundongos, como preás ou outros pequenos roedores e outras aves, dependendo da fauna do local onde ela vive. Ávila tem ainda uma coruja-das-neves ou coruja-do-ártico (Bubo scandiacus). "Ela nasceu na Áustria e passou por cinco donos antes que a adquiríssemos para ficar com ela e não passá-la para frente." Assim como Bitener e Assunção, ele diz que suas aves são de origem legal, de criadouros credenciados pelo Ibama.

Por sinal, não é preciso uma licença especial do Ibama ou outro órgão de proteção ambiental para ter uma ave de rapina. Isso só é exigido do criadores, ou seja, aquele que as reproduzem para vender ou por outros objetivos, como fornecê-las para gravações de documentário ou filmes e novelas, por exemplo.

A única exigência para quem quer ter uma espécie dessas em casa é que ela seja oriunda de criadouro legalizado e credenciado no Ibama, que pode, no entanto, ir até a residência, em casos de denúncias de maus-tratos, por exemplo.

Elas saem dos criadouros com uma espécie de carteira de identidade, com um número próprio, que recebem logo depois de nascer. Isso garante a legalidade do animal. No caso das aves, ele vem inscrito na anilha presa à perna.

"Depois de adquirir a ave de um criadouro legalizado, tem que entrar no site do Ibama para registrar o certificado de origem, que é o número na anilha, que mostra de onde ela veio", explica Ávila. "Não é preciso, portanto, ter uma licença especial para possuir um rapinante. Mas recomenda-se que faça um curso, que se aprenda a lidar com ela."

Os custos não são baixos: o preço de uma ave de rapina pode variar de R$ 3 mil a R$ 25 mil, dependendo da espécie e das condições de cada uma. "Mas esse valor pode chegar até R$ 250 mil, se o espécime for fruto de seleção genética, para modificar ou aprimorar algumas de suas características, como cor, tamanho e habilidades de voo, por exemplo", explica Bitener.

É um preço bem maior do que o de canários belgas, que custam de R$ 30 a R$ 120, periquitos australianos (de R$ 20 a R$ 100) e calopsitas (de R$ 60 a R$ 600).

A alimentação também é bastante diferente. Aves de rapina são carnívoras, por isso precisam comer presas vivas, se forem treinadas para a caça, ou mortas pelo dono, se forem destinadas à recreação. "Costumo alimentá-las com codornas e pequenos roedores abatidos", conta Ávila. "É para evitar estimular seus instintos de caçadoras."

A falta de grandes espaços abertos é outra dificuldade que os donos dessas aves enfrentam em São Paulo. "Diferentemente dos pássaros que conseguem viver em gaiolas ou viveiros, as espécies de rapina precisam voar regularmente, esticar as asas e se exercitar", explica Assunção.

"O voo livre serve para mantê-las saudáveis e com forma física sempre ótima. Sem essa atividade, os nervos e músculos se enfraquecem, o que desencadeia uma série de doenças. Para contornar a falta de lugares para o exercício das aves, eu vou com elas para o interior ou para os grandes parques aqui da cidade."

Além de lazer, a maior parte dos donos dessas espécies as utilizam para outros fins, como zooterapia (terapia com animais) e educação ambiental. "Utilizamos principalmente para terapias de quem tem necessidades especiais, como crianças com paralisia cerebral ou autismo, por exemplo", diz Ávila.

"Elas podem tocar nas aves, sem grades, como as que tem em zoológicos, e isso faz bem." Bitener acrescenta que esse convívio com animais é salutar para as pessoas. "Ele ajuda a desenvolver, principalmente nas crianças, sentimentos como afeto, responsabilidade e respeito", explica. "Além disso, contribui para a formação de adultos conscientes de seu papel na conservação do planeta."

Pensando nesta última questão, Bitener criou o projeto de educação ambiental "Turma do Gavião". "Ele traduz nosso carinho e amor pelas aves de rapina, lutando pela conscientização e conhecimento sobre elas e para sua preservação", diz. "Para isso, utilizamos técnicas de treinamento e manejo delas, com a finalidade de promover a educação ambiental em nossos cursos, palestras e apresentações, contando com temas sempre atuais de ecologia e preservação, com muita dedicação e respeito pelos animais."

BBC News Brasil
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