Cinema e Séries
Descrição de chapéu The New York Times Cinema

'Emily em Paris' mostra Lily Collins no emprego, na cidade e com guarda-roupa dos sonhos

Criador Darren Star fez sucesso com 'Barrados no Baile' e 'Sex and the City'

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Alexis Soloski

O primeiro orgasmo acontece mais ou menos na metade do episódio piloto de “Emily em Paris”, a nova série de Darren Star que foi lançada sexta-feira (2) pela Netflix. Emily (Lily Collins), uma jovem prodígio do marketing que acaba de chegar à França, entra em uma “boulangerie”. Depois de errar o gênero de um croissant de chocolate –é “un”, não “une”—, ela o compra, e dá a primeira mordida.

“Oh, meu Deus”, ela exclama, enquanto seu rosto, enquadrado em close por sobre um vestido amarelo, explode em êxtase.

É claro que sim. Nas últimas três décadas, Star, roteirista e produtor que ganhou experiência inicialmente com dramas de elenco como “Barrados no Baile” e “Melrose Place” antes de criar “Sex and the City” e “Younger”, se especializou em permitir que os espectadores, e especialmente as espectadoras, vivam vicariamente.

Seus personagens realizam fantasia após fantasia –culinária, de moda, erótica. Ainda que viva cercada de libertinos, Emily parece ser mais sexualmente conservadora do que algumas heroínas recentes de Star, mas ainda assim consegue dividir os lençóis com três homens, em 10 episódios. Croissants são só o começo.

No começo de setembro, Star participou de uma conversa via Zoom, de sua casa em Los Angeles para a qual tinha retornado havia pouco tempo depois de passar a maior parte do período da pandemia nos Hamptons. (O que pode ser classificado como mais uma fantasia.) A sala de estar, decorada sobriamente em cinza e branco, parecia espaçosa. “Espaçosa e fumacenta”, ele comentou. (Nem todo mundo aspira à segunda parte da descrição.)

Eu queria conversar com Star sobre suas visões escapistas da experiência urbana feminina. Sobre ter tempo para manter uma vida amorosa variada e ao mesmo tempo encontrar as amigas para brunches (“Sex and the City”); sobre a capacidade de reconstruir a vida adulta (“Younger)”; sobre encontrar o emprego dos sonhos na cidade dos sonhos, e dispor do guarda-roupa dos sonhos para aproveitar a oportunidade (“Emily em Paris”).

No terceiro episódio, Emily explica aos seus colegas o olhar masculino, mas Star parece ter subsumido seu olhar masculino, fazendo das mulheres as heroínas de suas próprias histórias, atraentes embora improváveis.

“Elas vivem suas vidas de acordo com aquilo que as estimula, e não de acordo com aquilo que outras pessoas consideram deveria estimulá-las como mulheres”, disse Collins sobre as personagens de Star, em uma entrevista por telefone.

Mas ao longo de uma hora de conversa com ele, Star se manteve controlado e charmoso, ainda que nada introspectivo, e comecei a pensar que minhas considerações sobre ele não procediam. (Ou talvez que as séries de Star tivessem alguma coisa de errado.)

Ele não considera que tenha qualquer talento peculiar para escrever papéis femininos, ou que as mulheres que cria sejam diferentes dos homens. E o prazer visual dos figurinos, apartamentos e restaurantes suntuosos que suas séries destacam? São só a cobertura no “gâteau”, disse Star. Em minha opinião, as séries dele sempre foram mais cobertura que substância. Ele discorda.

Quando perguntado sobre como escreve papéis femininos, Star foi modesto ao descrever seu talento. “Gosto de dizer que penso nas mulheres como pessoas, e não como mulheres”, ele disse. Escreve sobre mulheres, acrescentou, porque o gênero em que trabalha –comédia romântica– assim exige. (Sua única série em que homens eram os personagens principais, “The Street”, foi um fracasso.)

Além disso, as mulheres são úteis para um narrador. “Elas expressam suas emoções. Elas falam. São verbais. São engraçadas”, ele disse. “Consigo me identificar com seus sentimentos”. (E sejamos honestos: que guarda-roupa é mais divertido de escolher?) “Mas não tento imaginar como uma mulher pensaria versus como um homem pensaria sobre alguma coisa”, ele disse.

Isso endossaria algumas críticas persistentes a “Sex and the City”, no sentido de que suas personagens, sempre dispostas a aventuras eróticas, não eram de fato mulheres, mas homens gays (muito bem) disfarçados. Star, que é gay, considera essa crítica injusta.

“Acho que os críticos querem dizer que elas não são mulheres”, ele disse. “Não são as mulheres que conhecemos. Não queremos que as mulheres sejam assim”. E a crítica também é pejorativa com relação aos homens gays, estereotipando-os como obcecados por sexo.

Mas as vidas de suas heroínas em muitos momentos são um reflexo daquilo que ele sonha acordado. “Acho que cada série que faço tem de ter um motivo para mim, tenho de sentir uma conexão com aquilo de que ela trata, aquilo sobre o que estou escrevendo”, ele disse.

“Emily em Paris” é um exemplo. Star estudou francês na universidade e costumava se imaginar vivendo em Paris. Poucos anos atrás, decidiu tentar, alugando um apartamento no Marais e tentando colocar em uso seu medíocre conhecimento do idioma. “Sei como as pessoas francesas me veem; quando elas olham para os americanos, consigo ver alguns de seus preconceitos, e consigo ver alguns de meus preconceitos”, ele disse. Por isso, não foi muito difícil se colocar nos sapatos de Emily, por mais altos que fossem os saltos.

Star rodou toda a série na França, usando uma maioria de atores franceses e uma equipe totalmente francesa. “Foi a equipe mais atraente com que já trabalhei”, ele disse. Por sorte, Star não precisou recorrer ao seu francês ginasiano –todo mundo falava inglês.

Juntos eles criaram uma visão de Paris, a cidade como uma caixa sortida de “macarons” Ladurée. Nada é entediante, nada é feio, e não existem nem pessoas e nem roupas que não sejam bonitas.

“Eu jamais fiquei tão excitada por usar roupas”, diz Ashley Park, que estrela como a melhor amiga de Emily, Mindy. O orçamento para as sobrancelhas meticulosamente alinhadas de Collins com certeza é um espanto.

Tensões de raça, nacionalidade ou classe? Não existem. Os manifestantes dos coletes amarelos que protestam contra a desigualdade econômica? Por favor. Haveria problemas de coordenação de cor. Depois que o primeiro trailer da série saiu, um jornalista da rede de TV francesa RTL escreveu um artigo curto e desdenhoso argumentando que só os episódios parisienses de “Gossip Girl” haviam apresentado uma visão tão rósea e tão repleta de clichês sobre a cidade.

Star rebateu –com razão!– que ninguém deveria avaliar toda uma série com base em um trailer de um minuto, mas ao mesmo tempo admitiu que os dez episódios, diversos dos quais mencionam “Gossip Girl”, talvez não servissem para rebater a acusação.

“Eu queria mostrar Paris de uma maneira realmente maravilhosa que encorajasse as pessoas a se apaixonar pela cidade da mesma maneira que eu”, disse Star. Além disso, ele acrescentou, “para onde quer que você aponte a câmera em Paris, a vista é bonita”. (A exceção? La Défense, um distrito comercial de edifícios altos que Star usou na série para representar Chicago.)

Isso é típico das séries que ele produz. Star aponta que sua primeira série se passava em Beverly Hills. A Manhattan de “Sex and the City” se parece apenas superficialmente com a cidade real. O que é parte da atração.

Star sabe que as pessoas assistem por aquele sonho superficial, mas nunca gostou disso. Ele ainda se lembra de sua decepção ao mostrar um episódio inicial de “Barrados no Baile” a alguns amigos. “Eu estava empolgado e orgulhoso por ter uma série em cartaz”, ele disse. “Mas as pessoas só comentavam sobre as roupas que os personagens estavam usando”.

Ele considera os vestidos, os lindos apartamentos e os restaurantes elegantes como recipientes para as cenas, como caixas de Limoges televisivas. “É a embalagem superficial”, ele disse. O presente do lado de dentro? Personagens com coração e alma, ele disse. “Ou são pessoas interessantes ou são pessoas loucas, no caso de ‘Melrose Place’”.

“Em última análise, tudo gira em torno dos personagens. O resto é entretenimento”, ele disse. “A fantasia sempre precisa ter alguma conexão com uma coisa qualquer de real”.

Mas qual é o problema com entretenimento? Star tem um dom –e ninguém que tivesse o mesmo dom reclamaria disso– de criar séries irresistíveis cujas conexões com a realidade são, na melhor das hipóteses, tênues. Daphne Zuniga, uma atriz de “Melrose Place” e ex-colega de dormitório de Star na universidade, se lembra de como ele reconstruiu a série, arrastando-a do conceito inicial em direção a uma premissa mais provocante, e satisfazendo os desejos das audiências. “Ele levou a série exatamente para o que a audiência parecia estar desejando. E mais além. E ainda mais”, disse Zuniga.

“Emily em Paris” é como uma versão com filtros de Instagram da experiência dos expatriados, uma procissão meticulosamente ordenada de taças de cristal, interesses amorosos com barba por fazer e passeios na madrugada por ruas calçadas de pedras. Remover esses filtros traria menos peripécias e menos bustiês. Menos fantasia. Também requereria diálogos mais finos do que a primeira impressão de Emily sobre Paris: “Sinto-me como Nicole Kidman em ‘Moulin Rouge’”.

Eu sempre assisti às séries de Star principalmente pela fantasia, pelos drinques, pelas ruas, pelo que ele mesmo descarta como “decoração”. O que significa que as assisti errado, ou que Star subestima o apelo da decoração. Há papéis piores no mundo do que ser o principal agente de viagem televisivo do escapismo glamoroso.

“Graças a Deus que Darren Star não faz documentários”, disse Zuniga. “Seria um desperdício”. Ela tem razão. E, se minha opinião vale alguma coisa, a “chambre de bonne” de Emily tem cortinas muito fofas.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci