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Elizabeth Holmes: como jovem bilionária apelidada de 'novo Steve Jobs' caiu em desgraça

Em 2014, Holmes ocupava as manchetes por ter fundado startup avaliada em US$ 9 bilhões com promessa de revolucionar diagnóstico de doenças
Em 2014, Holmes ocupava as manchetes por ter fundado startup avaliada em US$ 9 bilhões com promessa de revolucionar diagnóstico de doenças - BBC News Brasil/Getty Images
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daniel thomas
BBC News Brasil

"A mais jovem bilionária self-made do mundo", estampou a revista americana Forbes em sua capa. A próxima "Steve Jobs", descreveu outra publicação do ramo de negócios.

Em 2014, Elizabeth Holmes, então com 30 anos, ocupava as manchetes da imprensa americana.

Após abandonar a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, ela fundou uma empresa avaliada em US$ 9 bilhões, supostamente revolucionando o diagnóstico de doenças.

Com apenas algumas gotas de sangue, o teste Edison da empresa Theranos prometia detectar rapidamente doenças como câncer e diabetes, sem a necessidade de agulhas.

Figurões do mercado como Henry Kissinger e Rupert Murdoch foram alguns dos que investiram na startup.

Mas em 2015 os primeiros sinais de que algo estava errado começaram a aparecer e, um ano depois, descobriu-se que a ideia de Holmes era falsa. A tecnologia que ela promovia não funcionava como esperado.

Em 2018, a empresa fundada por Holmes decretou falência. Hoje, Holmes, aos 37 anos, pode pegar até 20 anos de prisão se condenada por todas as 12 acusações de fraude que enfrenta. Ela nunca antes contou seu lado da história.

Seu julgamento, que começa este mês —EUA vs. Elizabeth Holmes, et al— será acompanhado de perto. A expectativa é que ela se declare inocente.

E em uma reviravolta no caso, seus advogados devem argumentar que seu ex-namorado e parceiro de negócios, Ramesh "Sunny" Balwani, abusou sexualmente dela e a controlou emocionalmente na hora dos supostos crimes, minando seu estado mental, segundo informou a imprensa americana.

Balwani, de 56 anos, que enfrenta as mesmas acusações de fraude, classificou as acusações de "ultrajantes".

Caberá ao júri decidir como julgar uma pessoa que enganou de estadistas a grandes investidores.

PRESSÃO DESDE O INÍCIO

Apesar de ser o assunto de um livro, um documentário da HBO e uma série de TV e filme, ainda não está claro por que Holmes se arriscou tanto com uma tecnologia que sabia que não funcionava.

Ela cresceu em uma família rica em Washington D.C., capital dos EUA, e foi uma criança educada, mas introvertida, de acordo com pessoas próximas

O empresário Richard Fuisz, 81, especula que deve ter havido uma pressão imensa sobre ela para ter sucesso.

Sua família morou ao lado da casa de Holmes por anos, mas eles se desentenderam quando Theranos o processou por causa de uma disputa de patente em 2011 (que foi resolvida na Justiça mais tarde).

Os pais de Holmes foram, em grande parte da carreira, funcionários no Capitólio (centro legislativo dos EUA), mas sempre "se interessaram por status" e "viviam para fazer networking", disse Fuisz à BBC.

Seu trisavô paterno fundou a Fleischmann's Yeast, que revolucionou a indústria de pão nos Estados Unidos, e a família era muito consciente de suas origens, acrescentou.

Aos nove anos, a jovem Elizabeth escreveu uma carta ao pai declarando que "o que ela realmente queria da vida era descobrir algo novo, algo que a humanidade não sabia que era possível fazer".

Quando foi estudar engenharia química na Universidade de Stanford, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos, em 2002, Holmes teve a ideia de criar um adesivo que pudesse fazer uma varredura do paciente em busca de infecções e, com isso, liberar antibióticos conforme necessário.

Aos 18, já mostrava uma intransigência que, aparentemente, continuaria impulsionando a empresa que fundou no ano seguinte.

Phyllis Gardner, professora de Farmacologia Clínica na Universidade de Stanford, lembra-se de ter conversado com Holmes sobre sua ideia e de ter-lhe dito que ela "não funcionaria".

"Ela apenas olhou para mim, mas era como se não me visse", disse Gardner à BBC. "Elizabeth parecia absolutamente certa de seu próprio brilho. Ela não estava interessada em minha experiência e foi uma situação desconcertante."

ASCENSÃO METEÓRICA

Meses depois, aos 19 anos, Holmes abandonou Stanford e fundou a Theranos, com a promessa aparentemente revolucionária de testar sangue com uma simples picada no dedo.

Muitas pessoas poderosas foram cativadas pela ideia e investiram na empresa sem se preocupar em observar seu balanço.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, George Schultz, o general condecorado dos fuzileiros navais James Mattis (que mais tarde serviu na administração Trump), e a família mais rica da América, os Waltons (donos da rede de supermercados Walmart) foram alguns dos nomes que lhe deram apoio.

Isso ajudou a consolidar a reputação de Holmes. Mas a maneira como ela se comportava também teve papel importante nesse contexto.

"Sabia que ela tinha essa ideia brilhante e que havia conseguido convencer todos esses investidores e cientistas", disse Jeffrey Flier, ex-reitor da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, que se encontrou com Holmes para um almoço em 2015.

"Ela estava segura de si mesma, mas quando lhe fiz várias perguntas sobre sua tecnologia, parecia não entender", acrescenta Flier, que nunca avaliou formalmente o invento de Holmes. "Pareceu-me um pouco estranho, mas não saí pensando que se tratava de uma fraude."

Flier acabou convidando-a para ingressar no Conselho de Acadêmicos da Faculdade de Medicina, algo que lamenta, embora Holmes tenha sido afastada do cargo quando o escândalo estourou.

RESULTADOS NÃO CONFIÁVEIS

Tudo começou a desmoronar em 2015, quando um informante levantou preocupações sobre o carro-chefe da Theranos, o dispositivo de teste Edison.

Em uma série de reportagens, o jornal americano Wall Street Journal mostrou que os resultados não eram confiáveis ​​e que a empresa vinha usando máquinas disponíveis comercialmente, produzidas por outros fabricantes, para viabilizar a maioria de seus testes.

Os processos se acumularam, os parceiros cortaram relações e, em 2016, os reguladores dos EUA proibiram Holmes de operar um serviço de exames de sangue por dois anos. Em 2018, a Theranos decretou falência.

ABUSIVA OU ABUSADA?

Em março daquele ano, Holmes fez um acordo com a Justiça americana —ela foi acusada de levantar US$ 700 milhões (R$ 3,6 bilhões, em valores atuais) junto a investidores de forma fraudulenta.

Três meses depois, no entanto, acabou presa junto com Balwani, sob acusações criminais de fraude eletrônica e conspiração.

Os promotores dizem que Holmes enganou intencionalmente os pacientes sobre os testes e mentiu exageradamente sobre os ganhos da empresa para investidores.

Holmes foi libertada sob fiança e em 2019 se casou com William "Billy" Evans, de 27 anos, herdeiro da rede de hotéis Evans Hotel Group. Eles tiveram um filho em julho deste ano.

"Não acho que o fato de Holmes ser agora uma mãe influencie o julgamento, mas o juiz provavelmente levará isso em consideração se ela for considerada culpada", disse Emily Baker, ex-promotora distrital de Los Angeles.

O JÚRI

À medida que se aproxima o julgamento do escândalo da Theranos, analistas que acompanham o caso dizem ser notável como Holmes mantém firme sua versão da história —pessoas próximas duvidam que ela vai mudá-la durante a audiência.

Segundo a juntada de documentos, a defesa de Holmes está disposta a argumentar que ela acreditava comandar um "negócio legítimo que gerava valor para os investidores".

Seus advogados também podem alegar que o suposto comportamento controlador de Balwani "apagou sua capacidade de tomar decisões", incluindo "enganar suas vítimas".

Eles dizem que o ex-chefe de operações da Theranos, que será julgado separadamente no próximo ano, monitorou como Holmes se vestia, o que comia e com quem conversava por mais de uma década.

A defesa também deve chamar um psicólogo especializado em abuso sexual como testemunha. Não está claro se Holmes vai falar durante o julgamento.

"O mais difícil em qualquer caso de fraude é mostrar que a pessoa tentou fraudar", explica Baker. "Portanto, os promotores terão de usar suas mensagens de texto e emails e argumentar que ela sabia que a tecnologia não funcionava, mas disse que sim."

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