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Como Enola Holmes: 4 mulheres da vida real ofuscadas por seus irmãos mais famosos

Netflix ergueu estátuas de mulheres reais que foram ofuscadas por irmãos

Cena do filme "Enola Holmes", da Netflix
Enola, a irmã mais nova dos Holmes no filme da Netflix, passou a infância aprendendo jiu jitsu, química, literatura e a resolução de anagramas, todos estudos não convencionais para meninas da Era Vitoriana - Divulgação
Fern Riddell

Por que irmãs muitas vezes vivem à sombra de seus irmãos? Essa é a questão central do novo filme da Netflix, "Enola Holmes".

O filme é uma adaptação da série de romances de Nancy Springer, de 2006, sobre as aventuras da irmã mais nova de Sherlock Holmes, Enola.

Com Millie Bobby Brown, que fez o papel de Eleven na série "Stranger Things", no papel principal, o filme captura as alegrias e dificuldades de ser uma jovem mulher na Inglaterra vitoriana.

É claro que Enola Holmes, assim como Sherlock, é uma personagem de ficção. Mas, para coincidir com o lançamento do filme, a Netflix ergueu estátuas de mulheres históricas não ficcionais que foram ofuscadas por seus irmãos mais famosos em todo o país.

A BBC conta a história de Enola Holmes e das mulheres reais, irmãs ofuscadas, que estão sendo celebradas agora.

1. Frances 'Fanny' Elizabeth Dickens

Nascimento: 1810
Morte: 1848
Profissão: Musicista profissional
Irmão: Charles Dickens
Estátua: Portsmouth Guildhall Square, sul da Inglaterra

Na Praça Guildhall, de Portsmouth, em frente à estátua de um dos autores britânicos mais famosos, Charles Dickens, está uma estátua de sua irmã mais velha, Frances Elizabeth Dickens.

"Fanny", como era conhecida por sua família, era uma música talentosa e grande parte da infância de Dickens foi passada à sombra de sua irmã.

Aos 13 anos, em 1823, Fanny ganhou uma vaga na recém-inaugurada Royal Academy of Music (RAM) de Londres, onde foi ensinada por Isaac Ignaz Moscheles, amigo de Mendelssohn e Beethoven.

Ela aprendeu canto e piano, logo indo muito mais à frente de todos ao seu redor, muito antes de seu irmão sequer pensar em pegar uma caneta.

Muitos acreditavam que os talentos de Fanny, não os de seu irmão mais novo, fariam uma fortuna para a família, e ela logo se tornou professora na Royal Academy e também musicista profissional. Mas em 1837 Fanny casou-se com outro ex-aluno da RAM, Henry Burnett, e, como era esperado de uma esposa e mãe na época, deixou sua carreira.

Ela continuou a influenciar sua família, e os problemas de saúde de seu filho, Henry, inspiraram Charles a criar o famoso personagem Tiny Tim no livro "A Christmas Carol."

Saúde debilitada era algo que acometia a família. Fanny morreu de tuberculose aos 38 anos, deixando seu irmão mais novo arrasado.

2. Mary Hardy

Nascimento: 1841
Morte: 1915
Profissão: Professora
Irmão: Thomas Hardy
Estátua: Dorchester, sudoeste da Inglaterra

Em Dorchester, a famosa estátua de Thomas Hardy, autor de "Far From The Madding Crowd" (Longe da Multidão), é acompanhada por uma de suas irmãs, Mary. Embora não fosse uma autora célebre, Mary também tinha um profundo amor pelas palavras e levou uma vida como uma mulher vitoriana independente ao se tornar uma professora.

É o histórico da família Hardy que torna as conquistas deste casal de irmão e irmã tão únicas.

Nascido em um pequeno vilarejo de Dorset, o pai de Mary era um construtor local, e sua mãe, Jemima, uma cozinheira.

Foi Jemima quem exerceu a maior influência na vida de seus dois filhos, porque acreditava que a educação, não o casamento, deveria ser o objetivo de todos os seus filhos.

Para Mary, isso levou a um amor eterno pelo ensino e, em 1862, ela escreveu ao irmão sobre sua mais recente nomeação: "O salário é de 40 libras por ano, com um jardim e uma casa parcialmente mobiliada. Tenho que tocar órgão na Igreja".

3. Princesa Helena Augusta Vitória, ou Helena do Reino Unido

Nascimento: 1846
Morte: 1923
Conhecida por: Campanha pela enfermagem
Irmão: Eduardo VII
Estátua: Birmingham, centro-oeste da Inglaterra

As armadilhas da realeza pouco fazem para impedir que o legado de uma irmã seja ofuscado por seu irmão, como a princesa Helena Augusta Vitória, ou Helena do Reino Unido, iria descobrir.

Como quinta filha da rainha Vitória e do príncipe Albert, Helena estava longe de ser importante na linha de sucessão, mas ela fez um trabalho incansável na campanha pelas enfermeiras britânicas.

Além de ser um dos membros fundadores da Cruz Vermelha, a princesa Helena também foi a presidente fundadora da Workhouse Infirmary Nurses Association e da Royal British Nurses Association (RBNA), associações de enfermagem do Reino Unido.

Durante a Guerra Franco-Prussiana, ela desempenhou um papel fundamental no recrutamento de enfermeiras e na organização de suprimentos de socorro para a linha de frente.

Depois da guerra, foi sua campanha determinada em nome da RBNA que a colocou em um conflito surpreendente com uma de enfermeiras britânicas mais famosas, Florence Nightingale.

Naquela época, não havia registro formal para enfermeiras no Reino Unido e nenhuma organização específica que monitorasse seu treinamento e qualificações. Isso significava que a enfermagem não era vista como uma profissão nobre ou honrada, mas aberta a fraudes e deturpações.

A princesa acreditava que uma das coisas mais importantes que ela poderia fazer era apoiar um registro oficial para melhorar "a educação e o status daquelas mulheres devotadas e abnegadas, cujas vidas inteiras foram dedicadas a cuidar dos doentes, sofredores e moribundos ".

Mas Florence Nightingale argumentou que isso excluiria as mulheres da classe trabalhadora, que não poderiam passar em um exame escrito para serem incluídas no registro.

Em 1919, após décadas de campanha, no entanto, a princesa viu passar a Lei do Registro de Enfermeiros, criando a profissão que conhecemos hoje.

4. Maria Anna 'Nannerl' Mozart

Nascimento: 1751
Morte: 1829
Profissão: Musicista
Irmão: Wolfgang Amadeus Mozart
Estátua: Bath, sudoeste da Inglaterra

Nos Jardins de Bath está um pequeno monumento ao jovem Wolfgang Amadeus Mozart. A ele se junta agora uma estátua de sua irmã, a talentosa tocadora de cravo Maria Anna 'Nannerl' Mozart.

Quatro anos mais velha que Wolfgang, Nannerl foi treinada desde cedo para ser um prodígio musical. Seu pai, Leopold, viajou com ela pela Europa e, mesmo quando seu irmão mais novo se juntava a ela, muitas vezes era Nannerl quem recebia o maior faturamento, não Mozart.

Em 1763, quando Nannerl tinha cerca de 12 anos, escreveu o seu pai, ela tocava "com tanta habilidade que o mundo fala dela e se maravilha com ela".

O relacionamento de Nannerl com Mozart foi de alegria e companheirismo. Quando crianças, eles inventaram um mundo secreto privado chamado "Reino de Back", que governaram juntos.

À medida que os talentos do próprio Mozart cresciam, ele escreveu uma série de composições para sua irmã tocar, incluindo Prelúdio e Fantasia nº 1 com fuga em Dó maior, K. 394 de 1782.

Mas o estrelato de Nannerl logo foi tirado dela.

À medida que ficava mais velha, ela não era mais vista como uma criança prodígio, mas sim como uma mulher, e a ideia de uma mulher ganhando dinheiro com música foi vista como profundamente desonrosa (ela teria que se apresentar de graça para que fosse considerada respeitável - mas não ganharia nenhum dinheiro para seu pai).

Há menções do próprio Mozart de que ela tinha começado a compor sua própria música, mas infelizmente nenhuma sobreviveu e seu legado musical foi esquecido quando seu irmão alcançou as alturas.

5. Enola Holmes

Conhecida por: Detetive ficcional
Irmão: Sherlock Holmes
Estátua: Londres

E isso nos leva a Enola Holmes, que em breve terá uma estátua ao lado de seu estimado irmão detetive em Baker Street, Londres.

Embora seja uma obra de ficção, Enola é uma entre uma longa fila de detetives mulheres que talvez tenham sido esquecidas pela história.

Alguns dos primeiros romances policiais não eram sobre os "Sherlocks" do passado, mas suas contemporâneas. "The Female Detective", e "Revelations of a Lady Detective", ambos publicados em 1864, estavam cheios de histórias de intriga e investigação pelas heroínas de outrora.

E "mulheres detetives" não existiam apenas nas páginas de ficção. Os jornais vitorianos frequentemente traziam relatos de investigadoras particulares contratadas para investigar casos criminais, e até mesmo pela própria Scotland Yard.

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