Viva Bem
Descrição de chapéu BBC News Brasil

Relacionamento de cortejo: casal namora por anos e dá primeiro beijo só no altar

Depois de dois anos de relacionamento, Victor e Kathleen deram no altar o primeiro beijo desde o início do relacionamento
Depois de dois anos de relacionamento, Victor e Kathleen deram no altar o primeiro beijo desde o início do relacionamento - BBC News Brasil/Arquivo Pessoal
Felipe Souza
São Paulo
BBC News Brasil

Ela, de vestido e flores no cabelo. Ele, de terno azul, óculos e alargador na orelha. As mãos entrelaçadas ajudam a disfarçar o nervosismo do momento mais importante da vida do casal. "Eu vos declaro marido e mulher. Agora, os noivos podem se beijar", sentencia o pastor.

Depois de dois anos de relacionamento, Victor Gustavo Moreno Cordeiro, 22, e Kathleen Rodrigues Cordeiro, com a mesma idade, deram no altar o primeiro beijo desde o início do relacionamento. Além do veto ao beijo, o relacionamento de cortejo, como é chamado o tipo de namoro que eles seguiram, prevê que os namorados não tenham relações sexuais até o casamento e que apenas se cortejem até o dia do "sim".

A igreja Filadélfia Internacional G12, da qual eles participam, não obriga os casais a seguir essas restrições. Mas para eles fazia sentido que fosse assim, já que são os próprios namorados quem decidem adotar ou não o cortejo.

O casal entrevistado pela BBC News Brasil tem histórias de superação e experiências traumáticas de relacionamentos anteriores. O cortejo e o casamento, em novembro de 2020, em meio à pandemia de Covid-19, foram maneiras que ambos encontraram de trilhar um recomeço.

O casal que escolheu trilhar o novo relacionamento seguindo o cortejo até o dia do matrimônio se conheceu justamente na igreja. Victor fora adotado aos 2 meses de idade por um casal, a pedido da própria avó biológica.

Na época, ela argumentou que a mãe do menino não teria condições financeiras e psicológicas de criá-lo. Kathleen perdera o pai de maneira violenta: ele foi decapitado numa rebelião no presídio de Pedrinhas, no Maranhão.

UNIDOS PELA IGREJA

Incentivado pela mãe, Victor frequentava a igreja desde a infância. O jovem sempre ouvia dela que deveria namorar alguém que seguisse a mesma religião. "Eu falava que ela (mãe) era doida. Que não tinha ninguém que eu gostasse na igreja", lembra Victor Cordeiro à reportagem.

Já Kathleen recorda das primeiras vezes que eles trocaram olhares na Internacional G12. "A gente já tinha se encontrado, mas nunca se olhado. A gente se conheceu por causa da minha irmã, em novembro de 2017. Ela é muito brincalhona, já conversava com ele e logo perguntou: 'Victor, por que você não namora minha irmã?'. Eu entrei na brincadeira, mas ele ficou com vergonha e saiu. Minha irmã disse na época que ele não queria namorar porque era muito nervoso e estressado. Mas eu também era e combinamos", conta Kathleen, sorrindo.

Pouco tempo depois, eles começaram a conversar pelo Instagram e logo depois a conversa migrou para o WhatsApp, onde se estendia por muitas horas, diariamente.

Depois de um ano, Victor deixou claro que também gostava dela. Eles então resolveram conversar com a liderança na igreja sobre ter um relacionamento amigável, para depois namorar e casar. A Igreja Internacional G12 segue um método de células, com 12 lideranças. Cada uma delas orienta seus membros em diversas questões, inclusive relacionamentos.

Kathleen tinha medo de se apaixonar, pois lembrava da frustração de um relacionamento anterior. Mas deixou o trauma de lado e propor um namoro. "Eu perguntei se era aquilo mesmo que ele queria e falei: 'Quer namorar comigo?'. Ele me pediu um beijo. Eu pedi calma, conversamos com nossos líderes e definimos fazer a corte", conta ela.

Victor, que trabalha como orientador socioeducativo, conta que até mesmo os pastores da igreja questionaram se eles estavam realmente preparados para seguir um relacionamento tão rigoroso.

"Eles perguntavam como a gente estava emocionalmente para lidar com isso, essa pressão social. Explicaram o que era e disse para pensarmos. A pastora sempre teve o desejo de implementar a corte na igreja, mas fomos os primeiros. Sentamos para conversar em abril de 2018 e decidimos fazer porque seria uma bênção na nossa vida", afirma ele.

Victor conta que o cortejo aumenta a expectativa para o dia do casamento e uma vida a dois. Ele relata que não beijar e dormir junto torna o matrimônio mais especial.

"Nós já tínhamos passado por relacionamentos padrão. A corte é uma experiência totalmente diferente. Você tem estabilidade e firmeza nos objetivos. Você não tem dúvida de quem é a pessoa que está do seu lado porque conhece a essência dela", afirma.

Kathleen argumenta que o objetivo de um namoro cristão é o casamento. Ela conta ter criado essa expectativa no primeiro relacionamento que teve, mas se frustrou ao ver que não era um objetivo em comum.

"Depois disso, comecei a falar com Deus sobre um namoro com propósito. E a corte tinha outras coisas com que se preocupar ao invés de sair e se beijar. Procuramos conhecer a família do outro, estar junto. Muitas pessoas que namoram com toque só se preocupam com aquilo e ficam anos namorando sem casar. Não significa que um namoro que tem beijo vai dar errado, mas tem mais probabilidade de focar mais no beijo do que nos outros propósitos", opina Kathleen.

'À MERCÊ DA SORTE'

O professor de psicologia do Mackenzie Leonardo Luiz afirma que a ideia de privar-se do beijo e do sexo atende à ideia cristã do que é certo e errado, segundo o que prega a Bíblia. Mas diz que isso pode ter um alto custo.

"É uma configuração muito arriscada porque o casal não se conhece. E as probabilidades de as diferenças e desavenças se fazerem presentes no futuro é muito grande. Pode dar muito certo, como casais que se conheceram rapidamente no Tinder (aplicativo de relacionamentos), depois casaram e vivem muito bem. Mas esse casal (cortejo) deixa completamente à mercê da sorte a possibilidade de dar certo ou não", afirma.

O professor explica que essa privação geralmente está ligada a algo maior que diz ao casal terá uma recompensa. Essa prática, segundo ele, segue a linha de que, se você agrada a Deus, sua possibilidade de estar num bom lugar posteriormente é maior.

"Isso gera uma fantasia da felicidade e a expectativa de que tudo vai dar certo depois do casamento intensifica esse sentimento. Eu, pessoalmente, tenho sérias restrições a esse tipo de relacionamento, do ponto de vista psíquico. Pois o toque, o carinho, a masturbação e conhecer o outro assim é bom para saber se a nossa paixão, o amor, se constituiu", diz o professor.

Leonardo Luiz ressalta, porém, que é necessário respeitar a decisão do casal. Mas agrega que o beijo e o sexo podem ser decisivos na escolha de um parceiro, já que isso fará parte do cotidiano de ambos durante muito tempo.

"A gente pode comentar essas decisões, mas não cabe fazer juízo de valor. E vale lembrar que essa não é uma crítica religiosa, mas é bom que o sujeito encontre no outro através do toque, da sedução e o prazer que o agrada. Se você beija uma pessoa e não foi legal, você não querer repetir esse encontro, a menos que a pessoa seja muito interessante e você queira dar mais uma chance. Algumas configurações religiosas comprometem as psíquicas nesse sentido", afirma.

O professor de psicologia também levanta a hipótese de que casais que optam pelo relacionamento de cortejo também aguardam um "gozo psíquico" pós-casamento.

"Guardadas as proporções, é algo parecido com o sexo tântrico, quando é promovida uma privação do ejacular e do orgasmo para causar um prazer mais acentuado. Será que esses casais não estão aguardando um prazer mais acentuado?", afirma o professor.

MOMENTOS DIFÍCEIS

O casal que seguiu esse relacionamento contou à BBC News Brasil que, embora fosse um objetivo mútuo, não foi nada fácil seguir o cortejo sem um contato mais próximo. Um dos dos pontos mais difíceis, contou, é resistir ao desejo sexual pelo parceiro. "No começo, foi bem difícil. E no final também", diz Victor sorrindo.

"Só de encostar na pessoa já é preciso ficar esperto porque (o desejo) é bem pesado. O corpo pede aquilo. É o físico que está pedindo e você tem que trabalhar a mente quando isso acontece. Tinha dia que eu não queria me encontrar com ela porque o desejo estava grande. A gente chegou a ficar uma semana sem se ver porque não era bom ficar perto. A carne é fraca. Mas a gente venceu", diz Victor.

Ele conta que a situação se tornou ainda mais difícil porque os dois não eram mais virgens. "Você já teve aquela sensação antes, então você sabe como é. Isso causa vontade. O corpo pede, mas não pode. É coisa de maluco mesmo. A gente evitava se abraçar e ficar sozinho para não criar o desejo. Ficávamos sempre perto dos nossos pais ou em público. A intenção era criar um ambiente para a gente se sentir bem", aconta.

Kathleen conta que o dia a dia atarefado do casal também ajudava a evitar a aproximação e o desejo carnal entre eles.

"Ele trabalhava à noite e eu sempre trabalhei de dia, então nossos horários não batiam. Depois que a gente saía juntos, cada um seguia para a sua casa. É um processo difícil. O que eu adorei nessa experiência foi conhecer ele melhor: as qualidades, os defeitos. E aceitar. Hoje, nossa amizade é bem maior e nossa intimidade flui", diz a assistente de departamento pessoal.

Ela conta que frequentemente respondia a questionamentos de pessoas não cristãs se eles não tinham medo de se decepcionar com um ato sexual após o casamento. Além de perguntar qual o motivo de um sacrifício tão grande, já que eles sentiam tanto desejo.

"Nada disso foi uma preocupação para a gente. Foi apenas o reforço de um relacionamento de confiança e que Deus não nos deixaria frustrados. Quando as pessoas do relacionamento confiam em Deus, sabe que ele vai fazer o melhor", opina Kathleen.

Ela relata que neste relacionamento com o Victor, eles se tornaram amigos. O conheceu com uma profundidade que não teve com o namorado anterior. "Na corte, você não tem essa preocupação de beijar, então você tem mais tempo para conversar, reunir amigos e estar com a família", diz.

Adotado a pedido da avó

Até os 9 anos de idade, o menino teve diversas doenças respiratórias, como bronquite, e conta que quase morreu. "Sempre fui muito bem recebido (pela família adotiva), muito amado. Meus pais Cledson e Andressa me adotaram quando eles tinham 16 anos e só receberam a minha guarda definitiva quando eu completei 9 anos de idade. Um ano depois, eles tiveram uma filha biológica, minha irmã Camile Vitória", lembra.

O jovem conhece e convive com todas as pessoas da família biológica até hoje e que os pais adotivos nunca impediram esse contato. Desde a infância, Victor trabalhou como ajudante no buffet da tia dele, principalmente nas decorações de festas de casamento.

Aos 16 anos, conseguiu um emprego como auxiliar de escritório em uma multinacional. Depois, trabalhou em uma pizzaria até se tornar orientador socioeducativo em uma associação comunitária em São Mateus, no extremo leste de São Paulo, onde está até hoje.

PAI DECAPITADO

Kathleen teve uma infância simples, mas, nas palavras dela, "em que nunca faltou nada". Ela e a irmã, que têm 1 ano e quatro meses de diferença, foram criadas sem a presença do pai durante a maior parte da vida.

Os pais de Kathleen se conheceram muito cedo, como os de Victor. A mãe trabalhava como vendedora e caixa. Mas o pai foi apreendido numa unidade da Fundação Casa, na época a Febem, assim que ela nasceu. Quando atingiu a maioridade, ele foi solto, mas preso logo em seguida. Desta vez, o tempo longe das ruas foi maior.

A filha diz não saber quais os crimes nem as sentenças do pai na época. "Não foi uma coisa que eu precisava saber", conta. Mas lembra que ele ficou preso por mais de uma década.

"A gente chegou a visitar, trocar cartas, mas não era aquela coisa de ter a presença em casa. Depois de 11 ou 12 anos, ele saiu, mas eu era rebelde e não queria contato porque a ausência dele na minha vida gerou marcas", contou Kathleen.

Em liberdade, o homem se casou com outra mulher, com quem teve um filho. Mas também se separou tempos depois e se mudou para Tocantins.

"Na época, a gente não entendeu porque ele tinha ido. Mas hoje sabemos que foi para nos proteger das coisas que ele fazia. No Tocantins, ele roubou banco, caixa eletrônico, e foi preso de novo. Depois de alguns anos, em 2019, no Dia dos Pais, ele foi morto no presídio durante uma rebelião. Foi dolorido e até hoje é. Por mais que eu não tivesse contato, era meu pai e eu queria ele presente", afirma Kathleen.

A morte do pai de Kathleen chocou não só a família dela, mas também todos que receberam o vídeo dele decapitado.

"Reportagens dizem que a rebelião foi uma forma de eles protestarem porque o presídio reforçou a segurança. Outros dizem que foi uma briga. Meu pai foi esquartejado, decapitado e ainda retiraram o coração dele", lembra Kathleen.

A família entrou com uma ação na Justiça para que o Estado indenize a família, já que o preso estava sob a tutela do poder público quando foi morto brutalmente.

Tanto Kathleen quanto Victor agora querem esquecer os momentos difíceis do passado, construir uma família e ajudar o próximo. "Quero cuidar de jovens. Mostrar o caminho de Deus para eles. Tirar as pessoas das drogas, do mundo. Esse é um dos nossos maiores objetivos como casal. Transformar a vida das pessoas", disse Kathleen.

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem