Viva Bem

Idosos fazem radionovela pelo celular após terem aula de teatro suspensa na pandemia

Cursos gratuitos tentam se reinventar em aulas não-presenciais

Professora de teatro Victoria Di Paula desenvolveu projeto de radionovela com os alunos de teatro da terceira idade

Professora de teatro Victoria Di Paula com seus alunos de teatro na terceira idade Divulgação/ Fundação Britânica

São Paulo

A pandemia do novo coronavírus tem mudado a rotina dos brasileiros há mais de quatro meses. Trabalho e escola já não são mais os mesmos para muita gente, e alguns afazeres do dia a dia tiveram que ser alterados ou até suspensos. Apesar disso, algumas pessoas têm aproveitado esse momento para inovar.

Esse é o caso de um grupo de alunos que fazia curso de teatro voltado à terceira idade na região do Butantã, na zona oeste de São Paulo. Sem possibilidade de se encontrar semanalmente, como já faziam havia meses, eles resolveram, com a professora, criar uma radionovela, feita toda por mensagens de celular.

"Nós éramos da época da radionovela, eu lembro da minha mãe ao lado do rádio, então a gente sugeriu. A cada capítulo que eu gravava, mandava para minha neta, para minha filha. Elas queriam ouvir, porque eu sempre fui muito tímida. Foi uma euforia com os netos", afirma a dona de casa Cleide Terra Ultramari, 73.

Ultramari conta que fazia aulas de teatro na Fundação Britânica desde setembro do ano passado. Ao lado de outras 22 pessoas com mais de 60 anos, ela participou da primeira peça do grupo no final do ano passado, e estava trabalhando em uma nova quando a quarentena começou, em março deste ano.

Com o risco da nova doença, a maior parte dos cursos oferecidos pela fundação passaram a ser feitos pelo WhatsApp, que a coordenadora de projetos sociais, Isabela Vieira Bertho, avaliou como a ferramenta mais fácil para os alunos. Foi assim com a oficina de memórias, a ioga, a dança circular, o canto e o teatro.

"Nós preparávamos um espetáculo sobre brincadeiras da infância deles quando começou a quarentena. Nós mantivemos as aulas, com eles compartilhando foto, falando desses momentos, mas sentimos dificuldades de interação. Não tinha resultado, era sempre conversa", diz a professora de teatro e atriz Victoria Di Paula.

Foi então que surgiu a ideia da radionovela. Segundo a professora, um desafio enorme, já que ela mesma nunca tinha feito um projeto desse tipo. Além disso, ele seria feito todo por mensagens de celular, com cada um em sua casa. "Eu fiquei assustada. Como eu ia dar aulas assim? Falei ‘vamos aprender juntos’."

A primeira tentativa foi uma "bagunça", segundo ela. O teste foi feito com um texto de "A Chapeuzinho Vermelho". "Eles iam gravando e mandando áudio. Mas quando o lobo já estava comendo a Chapeuzinho, a mãe falava para tomar cuidado. Foi uma bagunça, mas a gente se divertiu muito", recorda a professora.

Após o primeiro teste, Di Paula fez o roteiro e distribuiu aos cinco alunos que permaneceram na turma. Foram cinco quintas-feiras de gravação. Cada dia um capítulo. "A gente gravava áudio no celular e ela [a professora], do outro lado, falava se estava bom ou se fazia de novo: ‘Mais tristeza’, ‘euforia’, até ficar bom", conta Ultramari.

Os áudios foram editados pela professora e o resultado surpreendeu a todos. "Ficou maravilhoso", afirma Bertho, que viu a procura pelos cursos da Fundação Britânica crescer após a repercussão do projeto, mesmo com a pandemia. "Nosso objetivo foi alcançado: distrair e divertir eles. Tem gente que está passando por momento difícil em casa, mas na hora da gravação, eles se divertem", diz Di Paula.

Sem previsão de retomar as aulas presenciais, a Fundação Britânica estuda agora uma forma de manter e até aumentar seu quadro de alunos. Os cursos são totalmente gratuitos e abertos a qualquer um, contanto que tenha mais de 60 anos. Os cursos à distância, porém, são direcionados apenas àquelas pessoas que já faziam o presencial, que estava lotado quando começou a pandemia.

"As pessoas têm uma mania de colocar o idoso como improdutivo, aquela pessoa que já cumpriu sua função na sociedade. Mas nossa sociedade está envelhecendo, e essa é uma forma de cuidar dos nossos idosos. Amanhã será minha mãe, serei eu", afirma Di Paula, que desenvolve agora uma nova radionovela com seus alunos de teatro.

Empolgada com o novo desafio, Ultramari brinca e diz que agora a professora "ferrou" seus alunos. "Nós que estamos escrevendo a história. A gente escreveu, ela viu se estava bom, pediu mudanças e agora começaremos a gravar", conta a aluna. “Como está nas nossas mãos, talvez não chegue a cinco capítulos [risos]”, brinca ela.

Para a psicóloga Carla Guth, é importante que os idosos mantenham alguma atividade de lazer mesmo durante a quarentena. É uma forma, diz ela, de combater a angústia e a tristeza que podem surgir com o isolamento social e até mesmo pelo risco da própria doença, já que eles são o principal grupo de risco.

Para o gerontólogo Felipe Souza Peito Silva Borges, professor do curso de cuidador de idosos do Senac, as atividades online ainda podem promover o empoderamento do idoso. "Isso inclui compras online, aplicativos. Na perspectiva de cultura, ainda temos as lives, música, que estimulam a memória, fortalecimento, autoestima."

Fundação Britânica - Centro de Convivência para Idosos

  • Quando Fechado durante a pandemia
  • Onde Rua Ferreira de Araújo, 741, 1º andar, Pinheiros
  • Preço Gratuito
  • Classificação Acima de 60 anos
  • Link: https://fundacaobritanica.org.br/
  • Tel. (11) 3813-7080
Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Mais lidas