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Fãs de palavras cruzadas relatam benefícios das atividades no dia a dia

Fazer passatempos pode ser alternativa na busca por uma mente sã

Célia Vituli é uma cruzadista campeã

Célia Vituli é uma cruzadista campeã Rubens Cavallari/Folhapress

São Paulo

Palavras cruzadas e outros passatempos podem parecer simples atividades de lazer e entretenimento. Mas o hábito de colocar a cabeça para funcionar pode ajudar a treinar o cérebro e aumentar as conexões neurais, reduzindo o risco do desenvolvimento –bem como do agravamento– de doenças mentais. É o que afirma o médico Fabio Porto, neurologista comportamental do Hospital das Clínicas de São Paulo.

"Exercitar o cérebro por meio de cruzadinhas, por exemplo, pode ajudar a criar uma 'poupança' de neurônios e conexões. Assim, danos causados pelo envelhecimento podem ser amenizados", diz o especialista. "Isso não quer diz que quem aumenta as conexões está completamente livre de ter um derrame cerebral ou outras doenças, mas os neurônios ficam mais resistentes. Quando você treina, você tem uma reserva", completa.

Quem diz ter certeza de colher os benefícios dessa "malhação" cerebral é a aposentada Célia Vituli, 79 anos, moradora da Saúde (zona sul da capital), que faz cruzadas desde os 14 anos de idade. O que era apenas um hobby passado de mãe para filha se tornou um estilo de vida. Há 22 anos, a aposentada participa do Encontro Brasileiro de Cruzadistas, onde ocorrem competições individuais e em grupos de várias idades.

Célia afirma que perdeu as contas de quantos prêmios já ganhou em todos esses anos. Na edição de 2019 ela ficou em quarto lugar, mas tem uma explicação para a classificação que não considera boa. "Eu estava cansada porque tinha voltado de viagem, com o horário bagunçado, e estava resfriada. Não fui tão bem, mas não voltei de mãos vazias."

Com vocabulário arrojado, a aposentada garante que sente os benefícios da atividade em sua vida. "Com a prática, comecei a ficar boa. Faço todos os dias. É um treino. É como uma academia. Fortalece o cérebro. Com o tempo, o cérebro vai sofrendo, desgasta. Tem coisas em que já não tenho tanta agilidade. Então eu vou exercitando a cabeça. É um estímulo até para viver. É um desafio. Estou bem melhor do que muita gente da minha idade. E sei que é por causa das cruzadinhas", diz a aposentada. E completa: "Dá uma sensação de bem-estar".

De acordo com o neurologista Fabio Porto, quanto maior o prazer envolvido no exercício cerebral, maior a neuroplasticidade –ou seja, a capacidade do cérebro de promover mudanças e adaptações estruturais e funcionais. "Se a atividade dá prazer, os benefícios são maiores. Tem que fazer o que gosta. Não adianta fazer por obrigação", diz o médico.

O funcionário público Paulo Sérgio de Guzzi Joaquim, 60 anos, morador do Alto da Lapa (zona oeste da capital), diz sentir os benefícios de uma vida dedicada a decifrar desafios de revistinhas de palavras cruzadas.

Ele conta que fez da prática um hábito diário e afirma que o prazer é o que o motiva a continuar.

"Comecei aos 17 anos. No início era esporádico, mas depois comecei a assinar e comprar revistas nas bancas. Hoje faço passatempos diariamente, gasto de 40 minutos a uma hora. Teve um sábado, em que fiquei fazendo durante quatro horas seguidas", revela.

"Moro com a minha esposa. Vez ou outra ela acha ruim e pede eu parar de fazer cruzadinha e ir passear, me divertir. Ela se incomoda, mas para mim está ótimo", brinca Guzzi, que divide suas funções na repartição república com os campeonatos de cruzadas, dos quais saiu vitorioso mais de 30 vezes.

PRÁTICA DEVE SER FREQUENTE E DESAFIADORA, DIZ MÉDICO

Se fazer palavras cruzadas não parece algo prazeroso, tudo bem. O importante é desenvolver atividades que sejam desafiadoras. Aprender um novo idioma, ler livros com linguagem mais rebuscada, fazer contas, montar quebra-cabeças complexos, jogar xadrez e fazer natação ou hidroginástica são apenas algumas das opções disponíveis a quem busca estimular o cérebro para tentar se beneficiar com a prevenção, o retardo ou o controle de doenças mentais.

Além de desafiadora, a atividade precisa ser frequente. Natan Chehter, geriatra do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, explica que é necessário adquirir um hábito frequente e regular para sentir os benefícios da prática --como ocorre com os exercícios físicos, por exemplo.

"Primeiro, é preciso haver um desafio na prática para que haja uma curva de aprendizado. Se ela o exercício ficar fácil, precisa ser substituído por outro que ofereça desafio", afirma o médico.

"O que deve ser proposto é algo que a pessoa tenha condição, vontade e desejo de fazer. Porque é isso que vai garantir que seja frequente, e não pontual. O mais importante é dar continuidade a essas atividades, e que elas sejam prazerosas", conclui o geriatra.

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