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Descrição de chapéu RFI

Conheça o brasileiro que conquistou todos os jurados no The Voice da França

Luciano Cadô começou a estudar piano aos 7 anos, voz aos 11 e violão aos 15

Luciano Cadô, participante da versão francesa do The Voice
Luciano Cadô, participante da versão francesa do The Voice - Lionel Guericolas/TF1
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Maria Paula Carvalho
RFI

O seu nome artístico é Luciano Cadô, um jogo de palavras com os sobrenomes de Carvalho Paludo e que em francês soa como presente (cadeau). É assim, com bom humor e explicações racionais para tudo, que esse gaúcho de Farroupilha, 32 anos, contou à RFI como passou de engenheiro a músico, até conquistar todos os jurados do programa de televisão The Voice, exibido pelo canal francês TF1.

Por telefone, ele falou sobre sua trajetória de vocalista de uma banda regional para estudar canto com os melhores professores da França e o recente salto para a carreira artística em um país estrangeiro. Após um programa de estudos com um duplo diploma, financiado pelo ministério da Educação francês, Luciano chegou a trabalhar em pesquisas de engenharia antes de largar tudo para correr atrás de seu maior sonho.

“O que eu adoro é compartilhar música com o público. Gosto de música ao vivo e sentir a energia que o público te dá. No palco, eu me sinto no meu elemento. Sabe aquelas horas em que o tempo para?”, pergunta o cantor, pianista e “showman”, como ele mesmo se apresenta.

Luciano Cadô começou a estudar piano aos 7 anos, voz aos 11 e violão aos 15. Nunca sonhou em participar do programa The Voice, muito menos em uma das versões mais assistidas da Europa. Porém, teve a sorte de ser visto por um “caça-talentos” em um concurso de voz.

“Eu participei da final de uma competição de canto e no júri havia alguém da equipe de Bruno Berberes, o cara que faz a maior parte das audições na França para comédias musicais, programas de televisão. Foi aí que me viram”, conta. “E aí olharam meus vídeos, youtube, Instagram e perguntaram se eu queria participar [do The Voice]. Houve três audições e então eu cheguei à televisão”, lembra.

Aparecer no horário nobre em um dos programas de maior audiência do país é uma chance e tanto para um músico em início de carreira. E Luciano sabia disso. Treinou durante um mês e meio, preparando seis músicas. “Escolhi as músicas que valorizavam a minha voz. Fui com seis e todas passaram, pois a produção vê antes se o teu nível está bom. No fim, me deixaram escolher”, diz.

Luciano subiu ao palco diante das câmeras na noite de 27 de fevereiro e, ao piano, interpretou a música Grace Kelly, de Mika (cantor nascido em Beirute e sucesso internacional). “Escolhemos essa do Mika porque ela é mais feliz. Acho que nessa época é bom tocar música mais alegre, que tristeza já tem de sobra. Em termos de técnica vocal, ela me deixava mostrar bastante coisa em pouco tempo”, explica.

A apresentação de Luciano Cadô fez unanimidade no júri, que chegou a comparar o estilo do gaúcho ao de Elton John, de quem ele é fã. A performance conquistou os jurados Amel Bent, Florent Pagny, Vianney e Marc Lavoine. Ao fim daqueles dois minutos e meio de show “às cegas”, todos os jurados viraram suas cadeiras para ver de onde vinham as notas tão afinadas.

“Não posso dizer que eu lembro de muita coisa porque é muita adrenalina. Os dois primeiros viraram muito rápido. Eu estava na sexta frase e eles viraram. E aí ‘tu já relaxa. Bah’, vai continuar”, diz, com o forte sotaque gaúcho. “Depois foi só festa, eu estava à vontade lá, tocando em casa”.

“Uma coisa é ser perfeito tecnicamente. E outra é conseguir passar uma emoção e se conectar com o público. No primeiro quesito, não foi perfeito, tem notas que estão imprecisas e dá para melhorar. Mas, no segundo quesito, de passar emoção, não sei se eu conseguiria fazer melhor”, avalia.

DUELO: “A PIOR ETAPA”

A competição que começou com 600 participantes nas audições em vídeo, chega à televisão com 120 candidatos, para uma nova seleção de onde sairão 60. Para seguir na disputa, Luciano Cadô precisa vencer a batalha entre equipes neste sábado (27).

O brasileiro escolheu ficar no time do cantor francês Marc Lavoine. “Para mim, a principal função do coach é escolher a música que vai ser interpretada no duelo. Eu analisei os quatro e as músicas que eles escolheram nas outras temporadas. E o Marc Lavoine batia mais com o tipo de música que eu gosto”, conta.

“Eu tenho bastante medo dessa etapa porque eu não posso escolher a música. Eu fiz a minha bibliografia e, vendo os vídeos no youtube, frequentemente nos duetos tem uma pessoa que está mais para aquela música. Quando você escolhe, é difícil não ser tendencioso”, diz.

“Eu adoro a técnica vocal e a gente treina para que todas as vozes sejam fluidas para a interpretação sair bem. Eu gosto muito de experimentar, de ver os limites”, afirma. “Os cabelos [compridos] me fazem parecer bem rock, eu gosto de cantar rock, acho que é onde a minha voz se sai melhor. Mas se me fizerem cantar algo romântico, um Nat King Cole, que eu também adoro, a minha voz não se sobressai”, analisa o músico.

ENGENHARIA PARA GARANTIR O FUTURO

Ciente de que nem tudo é brilho na carreira de um músico iniciante, Luciano conta que resolveu estudar engenharia mecânica para ter uma opção na vida. Formou-se na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e depois frequentou a Escola Central de Paris, por dois anos.

“Quando eu vim [para a França, em 2009], eu não sabia se iria voltar. Eu não tinha mais vínculo nenhum com os estudos do Brasil. Eu ganhava dinheiro da França, eu falei diretamente com o meu orientador de tese. Vim como qualquer estrangeiro e fiquei. O fato de a minha namorada ser francesa contribui bastante”, diz o artista-engenheiro.

“As ‘Grandes Écoles’ eu entendo como uma universidade de elite. Elas vêm de Napoleão, ele queria formar quem iria comandar o país”, diz Luciano Cadô, ao comentar sobre o diploma, muito reconhecido na França.

O brasileiro conta que traz um pouco do rigor e da estatística para a sua carreira de artista. “Ser engenheiro é parte de mim. Eu estudei tanto que, mesmo como músico, eu ainda sou muito engenheiro. Por exemplo, quando eu canto, eu procuro me gravar e me analiso no computador para ver se estou feliz, se estou afinado”, revela.

Na hora de escolher a língua, ele tem uma preferência: “em inglês”, diz, explicando que “o mercado da música é anglo-saxão". "Desde os Beatles, a maioria das músicas icônicas é em inglês. No Brasil, eu cantei muito em português, mas aqui na França só se fosse Bossa Nova e isso não fica tão bom para a minha voz”, observa.

Além disso, tem o aspecto técnico, explica. “O canto é complexo. E só o jeito de dizer as vogais e nasalizar, de acordo com a língua, tem que mudar. Inglês ou português é bem diferente e francês é ainda outra coisa”, ensina. “É uma língua concentrada atrás da garganta, para fazer soar o francês é diferente. Eu tenho tentado, mas entre cantar e cantar e fazer a plateia levantar a cabeça, há diferença", diz. “O cantor é um atleta, ele pode ser mais gordinho como eu, mas fisicamente requer, exige bastante. Tem que trabalhar a memória muscular, até que se torne um reflexo. Tem muito treino”, acrescenta.

Com a paixão pela música paralelamente aos estudos acadêmicos, Luciano passava horas em casa ensaiando, ou se apresentando solo ou em diferentes formações de bandas, em eventos e festas. Porém, a sua continuidade ou não no programa The Voice, neste sábado, pode lhe render mais visibilidade, o que ele traduz como novas oportunidades.

“Eu gostaria de conseguir ganhar a minha vida tranquilamente com a música, mas hoje com a pandemia está mais difícil. Estou esperando para ver as portas que se abrem com essa visibilidade, ver até onde eu vou no programa, mas, independentemente disso, tem que conseguir trabalhar”, diz o artista.

O MELHOR DO BRASIL É A “JOIE DE VIVRE"

Luciano Cadô diz que aprende muito “tentando imitar as pessoas”. “Os dois que mais me ensinaram foram o Freddie Mercury, do Queen, e o Sting”, revela. Entre os ídolos brasileiros, estão “Gilberto Gil e Samuel Rosa, do Skank, não pela voz, mas pela composição. Ele é um camaleão, as músicas não se parecem”, elogia.

Enquanto as casas de espetáculos permanecem fechadas na França, Luciano Cadô tem feito apresentações online. “Fizemos um grande show. Conseguimos um palco bonito numa das casas que estão fechadas e tocamos para cerca de 100 pessoas que estavam assistindo simultaneamente”, diz.

A última vez que Luciano Cadô esteve no Brasil foi antes da pandemia. “Eu gosto muito de Farroupilha (RS), sempre que posso eu vou. Mas você muda como pessoa quando vive fora e, de vez em quando, se torna menos compatível com o pessoal que saiu menos e confrontou menos pessoas diferentes. Tento evitar assuntos polêmicos e manter a cabeça aberta”, afirma. “Eu adoro o Brasil, a minha família está lá. Não descarto a possibilidade de voltar”.

Quando perguntado sobre o que ele mais gosta de suas origens, responde sem pensar: “o que é melhor de ser brasileiro é a ‘joie de vivre’. A gente tem um jeito feliz de ser que é ótimo”, conclui.

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