Música
Descrição de chapéu The New York Times

Lorde diz que não é salvadora de ninguém e que tem prazer em confundir

Cantora lançou novo álbum, 'Solar Power', após hiato de quatro anos

A cantora e compositora Lorde NYT

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Joe Coscarelli
The New York Times

Pode ser tentador, depois de passar algum tempo na companhia da cantora Lorde, 24, imaginar o que há de errado com ela. Ou seja, onde exatamente ela esconde as partes ruins, as notas desafinadas, os traços desagradáveis que emergem desconfortavelmente em qualquer personalidade, especialmente depois de experimentar uma trajetória estranha como a dela?

Ninguém que tenha se tornado tão famoso, que tenha sido tão festejado aos 16 anos, seria tão bem ajustado quanto ela parece ser. Não é? Nem é que a cantora e compositora, nascida Ella Yelich-O’Connor, se apresente como especialmente perfeita, ou confiante, ou imune a críticas. E tampouco que ela fique isenta de dúvidas pessoais, inseguranças, surtos de vaidade, impaciência ou manuseio inquieto do celular.

Mas Lorde –a pessoa e a artista– em geral é encontrada um passo à frente, em termos intuitivos e emocionais, tendo raciocinado sobre sua realidade de muitas perspectivas: que sensação alguma coisa lhe causa, de que modo ela expressaria essa sensação, como isso será recebido, e de que maneira ela processará a maneira pela qual foi recebida.

E um conjunto de talentos que qualquer pessoa que tenha se tornado famosa da maneira que ela se tornou –uma adolescente de cidade pequena que lançou sua carreira com um hit desproporcional– é capaz de fingir com alguma competência. Mas pouca gente o faz de maneira tão convincente.

“Sei o bastante para ter noção de que pessoas em minha posição são símbolos, arquétipos, e os lugares em que encontramos pessoas, no contexto da cultura e dos acontecimentos atuais, ficam meio fora de nosso controle, e por isso tento não me preocupar demais. “É engraçado estar nessa posição”, ela reconhece. “E absurdo”.

Mas é esse senso de perspectiva e essa autoconsciência que mantiveram Lorde ativa, em um setor muitas vezes impiedoso. Na verdade, ela gravou todo um álbum sobre a procura do equilíbrio. “Solar Power”, que saiu no dia 20 de agosto, é o que acontece quando uma estrela pop se torna mais esperta que o sistema, contorna suas demandas mais estranhas, deixa de tentar produzir sucessos e decide murmurar para seus seguidores mais devotados exatamente como ela fez o que faz.

Para Lorde, o truque era encontrar uma vida –uma vida verdadeira– muito distante de tudo aquilo. E também foi preciso jogar seu celular no mar. (Passar por terapia não atrapalhou, além disso.)

Depois do reinado de “Royals”, seu primeiro single, que liderou as paradas de sucesso por nove semanas e recebeu dois Grammys, e de seu álbum de estreia, “Pure Heroine” (2013), ganhador de três discos de platina, Lorde decidiu que precisava de uma pausa de quatro anos antes de lançar um novo trabalho.

O segundo disco, “Melodrama”, de 2017, não apresentou resultados comerciais nem de longe tão espetaculares, mas ajudou a realinhar as expectativas exageradas e a estabeleceu como fenômeno juvenil transformada em compositora, com direito a críticas altamente elogiosas e a mais uma indicação ao Grammy, desta vez por álbum do ano. E em seguida ela reservou mais quatro anos para si mesma.

Ao longo do caminho, Lorde se tornou uma espécie de mapa para as jovens cantoras e compositoras tímidas que estavam construindo seus mundos, ajudando a abrir caminho para a geração de Billie Eilish, Halsey e Olivia Rodrigo. Mas Lorde não estava prestando atenção a qualquer uma dessas coisas.

“Eu decidi voltar a viver minha vida”, ela disse, sobre seu mais recente hiato, e se descreveu como “uma flor de estufa, uma pessoa delicada, e uma completa introvertida”, que tinha se sentido esgotada depois de um ano de trabalho de promoção e de turnês na era de “Melodrama”. Ela acrescentou que “as pessoas às vezes têm dificuldades para entender isso”.

“A pergunta que mais ouvi recentemente foi sobre o que andei fazendo”, ela acrescentou. “E eu respondo que não, não, o que estou fazendo agora é que é uma pausa em minha vida. Estou de volta para cumprir essas obrigações porque acredito no álbum”.

Mesmo agora, com o acúmulo de obrigações antes do lançamento de “Solar Power”, Lorde marcou uma semana de férias na praia com amigos, e não hesitou em usar parte do horário reservado para a entrevista a fim de cuidar de algumas outras tarefas, como comprar uma sacola para a viagem, e enchê-la de queijos gostosos.

Pela maior parte dos últimos quatro anos, porém, Lorde viveu como Ella, em meio à vegetação e à linha costeira deslumbrante do lugar em que cresceu, na cidade de Auckland, Nova Zelândia, e arredores, descobrindo como definir suas fronteiras.

Uma amiga de casa, Francesca Hopkins, disse que “essa coisa toda de Lorde não costuma ser discutida. Acho que consigo contar nos dedos de uma mão o número de vezes em que eu já tenha dito a palavra ‘Lorde’”. A cantora também começou o processo de controlar seu vício em internet, inspirada por livros como “How to Do Nothing”, de Jenny Odell, e “Pilgrim at Tinker Creek”, de Annie Dillard.

“Eu percebia que estava passando 11 horas por dia na frente das telas, e sem fazer nada mais que olhar o jornal”, disse Lorde. “E lembro de me sentar na cama um dia e pensar que poderia chegar ao fim da minha vida fazendo exatamente isso a cada dia. Percebi que cabia a mim escolher. E por isso fiz minha escolha”.

Mas na verdade foi preciso mais do que isso: o celular de Lorde, com a tela agora em grayscale, não tem mais um navegador de internet; ela não tem mais as senhas para seus apps de mídia social; e um amigo que entende de software programou o computador dela para que a cantora não tenha acesso ao YouTube.

Em lugar de navegar na internet, ela aprendeu a cozinhar, passeava com seu cachorro, nadava, cuidava do jardim –em outras palavras, vivia calmamente– enquanto esperava para ver se “aparecia alguma ideia sobre a qual valesse a pena compor”. E a verdade é que a ideia já tinha aparecido, entremeada à sua existência naquele momento.

Em “On The Path”, a faixa reluzente de abertura de “Solar Power”, que ela compôs bem cedo como uma espécie de proposta de tese para o álbum, Lorde se descreve como “criada em meio à grama alta”, mas também como “milionária adolescente, com pesadelos sobre os flashes dos fotógrafos”. E ela adverte: “Se você está à procura de um salvador, bem, não sou eu”. Mas oferece uma alternativa grandiosa: o sol.

“Estou ciente da maneira pela qual as pessoas me olham”, disse Lorde. “Sinto o grande amor e devoção que as pessoas têm por mim –e por pessoas em posições como a minha– e o que quero dizer de imediato é que não sou digna dessa devoção, e essencialmente sou como todas essas pessoas”.

“Meus garotos –minha comunidade– esperam transcendência espiritual, vinda de mim, vinda do meu trabalho. ‘Quero que Lorde volte e me diga o que sentir, como processar esse período em minha vida’. E minha reação é dizer, cara, não sei se tenho como te ajudar com isso. Mas o que sei é que, olhe lá para cima, e o sol vai ajudar, e muito”.

Brincando com o papel da estrela pop como messias, ela adota o caráter de uma líder de culto, na canção, pregando sobre o mundo natural. Mas Lorde também sabe que essas recomendações derivam da posição de privilégio de que ela desfruta, e se sobrepõem a alguns dos preceitos da cultura moderna do “wellness” (que ela também detona no disco). Ande ao ar livre. Passe mais tempo com sua família. Desligue o celular. Passe mais tempo com os amigos.

O que impede “Solar Power” de parecer didático ou simplista são as letras em que ela satiriza suas próprias experiências, baseadas em detalhes com algo de fofoca, e com recurso a um humor cortante para derrubar as pretensões, como no momento em que ela interrompe um tratado frágil sobre a velhice com “ou talvez eu esteja só chapada no salão de manicure”.

A artista que no passado cantava com desdém e distanciamento sobre a cultura das celebridades agora fala de seu “baú cheio de Simone e Céline”, e do tempo passado em hotéis e no Met Gala, nas cerimônias do Grammy e em jatinhos executivos. “Tenho centenas de vestidos, tenho quadros com molduras”, ela canta em “The Man With the Axe”. “E uma garganta que se enche de pânico em cada dia de festival/ se dilacerando lealmente pela princesa da Noruega”.

Mas optar por ficar de fora, Lorde deixa claro, é simplesmente uma sensação melhor. “Adeus a todas as garrafas, todos os modelos, toda a garotada em fila para a nova Supreme”, ela acrescenta em California, voltando inteiramente à sua postura em “Pure Heroine”.

Lorde sabia que precisava de um som orgulhosamente fora de contato, para tratar de seus temas, e criar um senso de desconexão. Ela encontrou a estética “tilintante” de “Solar Power” ao combinar influências das décadas de 1960 e 1970 como o Mamas and Papas e os Bee Gees com artistas muitas vezes criticados de sua juventude, que representavam o que ela define como “otimismo praiano de virada de século”: All Saints, S Club 7, Natalie Imbruglia, Nelly Furtado.

No passado fiel à música eletrônica e alérgica a guitarras, Lorde emprega só uma bateria eletrônica 808 em todo o disco, em uma seção que é uma espécie de citação de seu passado. “Com certeza não há nenhum grande hit à espera”, ela diz com um riso seco. “E faz sentido que não haja, porque eu nem faço ideia de quais são os sucessos agora”.

Ela prometeu que nunca tentaria voltara a atingir as alturas de “Royals”. Ela comentou que “seria uma causa perdida. Você consegue imaginar? Não tenho ilusões. Aquilo foi como vencer a corrida espacial”. Mas Lorde encontrou um aliado em sua experimentação e sua visão agnóstica quanto aos sucessos da Billboard: o compositor e produtor Jack Antonoff, com quem ela também compôs e produziu “Melodrama”.

“Você faz seu primeiro álbum com imensa alegria, porque nada existe”, disse Antonoff. Mas ele recorda a pressão premente antes do segundo disco de Lorde, o que levou os dois a se isolarem e criou o sentimento de intimidade que se ouve em “Melodrama”.

“Solar Power”, ele disse, vem de uma sensação renovada de liberdade. “O terceiro disco é um ótimo lugar para isso –para acordar e decidir que realmente amo esse trabalho e tenho a maior sorte por estar aqui”, ele disse. “E uma forma de se reconectar com o passado. Tivemos muito disso”.

Lorde concorda. “Minha sensação é a de que podia relaxar e correr mais riscos”, ela disse. Mas foi no contexto de Antonoff que Lorde expressou a sensação mais próxima de angústia de que ela parece ser capaz.

Especificamente, ela rejeitou a postura do número crescente de fãs e críticos que colocam o trabalho dele com ela na mesma prateleira que suas muitas colaborações com outras estrelas pop –Taylor Swift, Lana Del Rey e Clairo entre elas– reduzindo Lorde a só mais uma égua no que ela se refere com humor como “o estábulo de Jack”.

“Não fiz um disco de Jack Antonoff”, a cantora diz. “Fiz um disco de Lorde, e ele me ajudou a fazê-lo, e aceitou minhas posições quanto a muita coisa na produção e arranjos. Jack concordaria com essa descrição. Dar crédito demais a ele é francamente um insulto”. Ela define essa narrativa –que também inclui especulações sobre a vida romântica e sexual do par– como “retrô” e “sexista”.

“Sei que existem certos traços característicos do trabalho de Jack, e algumas dessas coisas eu amo; de outras, não gosto. Assim, as excluo dos trabalhos que fazemos juntos”, ela acrescentou. “Digo isso com muito amor e afeição, mas minha sensação é a de que estamos construindo uma casa juntos e ele diz ‘olha só esse guardanapo que dobrei em forma de cisne, olha só essa cesta de palha que fiz’, e eu rebato: Ótimo. Um por sala”.

Em uma entrevista recente em um programa noturno de TV nos Estados Unidos, Lorde estava claramente no comando, e sintonizada em todos os detalhes. Ao chegar, Antonoff alertou que seu estilo na guitarra seria “bem solto”.

“Solto como?”, Lorde perguntou. Mais tarde, ela deixou de cantar por alguns momentos para prestar atenção ao arranjo. “Minha única observação é que você precisa ficar mais perto do disco”, ela disse, com a franqueza que só uma longa parceria confere. “Bonito, porém”, ela acrescentou.

“Ninguém que esteja em um trabalho que não é o meu tem uma relação como a que eu tenho com Jack”, disse Lorde, mais tarde. “Ele é como um parceiro para mim. Não é um relacionamento romântico, mas estamos nessa há sete anos, e é uma coisa única, e por isso não me incomoda que as pessoas talvez não entendam”.

Ela está tentando manter a mesma mentalidade para o lançamento de “Solar Power”, disse, voltando à ideia de que estava “muito, muito confortável e em paz com coisas como a percepção pública. Nada disso me abala, agora”.

“Eu até gostaria que as pessoas não entendessem, no começo”, ela disse, sobre o disco. “Fico realmente chateada quando um álbum sai e ouço tudo rapidinho, encontro todas as letras no Genius em três minutos e percebo que sei exatamente o que aquilo é, e que não vai crescer”. “Acho que ainda estou fazendo algo de bem digestível”, acrescentou Lorde com um sorriso sarcástico. “Mas meu prazer é confundir. E o que quero ser para as pessoas”.

Traduzido originalmente do inglês Paulo Migliacci

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem