Tony Goes

'7 Minutos' mergulha no lado escuro do universo homossexual masculino

Rodado na França, filme do brasileiro Ricky Mastro participa do Mix Brasil

'7 Minutos', escrito e dirigido pelo brasileiro Ricky Mastro. Foto - Maxime (Valentin Malguy et Kévin (Paul Arvenne) Divulgação

A grande maioria dos filmes de temática LGBTQI+ traz mensagens positivas. Muitos contam história de superação, de saídas do armário, em que o personagem principal conquista o respeito de seus parentes e amigos e, de quebra, ainda encontra um grande amor. É o caso de "Me Chame Pelo Meu Nome", "Com Amor, Simon" e tantos outros títulos que fizeram sucesso nos últimos anos.

Os dramas mais pesados costumam ser protagonizados por transexuais e travestis, que, de fato, são os que enfrentam as maiores barreiras no mundo real. Só alguns poucos filmes abordam o lado mais escuro da experiência homossexual masculina, encarando temas espinhosos como o uso de drogas e o sexo promíscuo. Um exemplo recente é o francês "Um Estranho no Lago", sobre um serial killer.

"7 Minutos", escrito e dirigido pelo brasileiro Ricky Mastro, faz parte deste incômodo subgênero. Rodado na França, o longa é baseado num fato acontecido no Brasil: o aparente suicídio de um casal de amigos do diretor, cujos corpos foram encontrados com sinais de enforcamento em um quarto de hotel.

A sequência de abertura de "7 Minutos" recria este momento fatídico. Os jovens Maxime (Valentin Malguy) e Kevin (Paul Arvenne) temperam uma noite de sexo com drogas como cocaína e GHB, um líquido usado nos golpes conhecidos como "boa noite, Cinderela" para adormecer as vítimas.

De repente, Kevin começa a passar mal, entra em convulsão e morre. Desesperado, Maxime pega um cinto e se enforca –não sem antes enforcar o cadáver do namorado com outro cinto. Tudo isto, antes dos créditos de abertura. O que se segue é uma espécie de investigação. A polícia garante que os rapazes morreram com sete minutos de diferença um do outro. Em entrevista por telefone, questionei o próprio Ricky Mastro se esta precisão é possível, e ele diz achar que sim.

De qualquer forma, o que Jean (Antoine Herbez) quer saber não é o como, mas o por quê. O pai de Maxime, que aceitava a homossexualidade do filho, quer entender melhor o estilo de vida do rapaz, para dar algum sentido àquelas duas mortes estúpidas. Resolve, então, conhecer os amigos de Maxime e a boate que ele frequentava, na cidade francesa de Toulouse –a mesma onde o diretor se instalou já há alguns anos.

Começa então um mergulho num microcosmo onde as drogas correm soltas e estranhos transam em banheiros. Ricky Mastro tem lugar de fala: antes de se mudar para a França, trabalhou anos como promoter em boates gays de São Paulo, e conheceu pelo menos 30 rapazes que morreram de overdoses acidentais. Mas sua câmera, através do olhar de Jean, não julga nada do que vê. O pai de Maxime até estranha algumas coisas, mas nunca se escandaliza. E faz questão de experimentar muitas delas.

Por causa da pandemia, "7 Minutos" está tendo uma carreira comercial inusitada. O filme foi lançado nos cinemas na Alemanha, onde também já saiu em DVD, e deve estrear em breve na França. No sudeste da Ásia, está disponível na plataforma GagaOOLala, especializada em conteúdo de temática LGBTQI+. Aqui no Brasil, pode ser visto até domingo (22) na programação online do 28º Festival Mix Brasil.

Não é um filme fácil de ser visto, mas levanta uma discussão que a comunidade gay masculina não pode seguir evitando. Mesmo com tantas conquistas dos movimentos pelos direitos igualitários nos últimos anos, essas mortes inúteis, que não são causadas pela violência homofóbica, continuam acontecendo.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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