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As atrizes Rita Moreno, a esquerda, e Ariana DeBose, a direita. NYT

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Melena Ryzik
The New York Times

"Bom dia, rainha do aniversário", disse Ariana DeBose, saudando sua companheira de elenco em "Amor, Sublime Amor", Rita Moreno.

Era uma tarde de domingo em Nova York e DeBose estava recostada em almofadas na cama de sua casa, em companhia de seus dois gatos resgatados, Isadora Duncan e Frederick Douglass, que invadiam a conversa via Zoom quando bem entendiam.

Moreno, do outro lado do país em sua casa em Berkeley, Califórnia, parecia preparada para a câmera e usava um suéter vermelho e joias vistosas, mas acompanhados por calças de pijama e chinelos, abaixo do plano. Como é que ela costuma celebrar seu aniversário?

"Fico feliz por informar que a celebração nunca para", ela disse. "Me sinto majestosa e principesca". Moreno, que chegou a Nova York vinda de Porto Rico em 1936, ficou famosa ao conquistar um Oscar pelo papel de Anita em "Amor Sublime Amor", de 1961 –a primeira atriz latina a fazê-lo.

DeBose, que cresceu na Carolina do Norte e se define como afrolatina, está recebendo críticas muito favoráveis e foi mencionada como provável candidata a prêmios ao interpretar a mesma Anita na nova versão de Steven Spielberg para "Amor, Sublime Amor", que também conta com Moreno em um papel criado especialmente, o da comerciante Valentina.

Em uma entrevista por vídeo, as duas falaram de identidade, da luta contra os estereótipos e de receber comentários de Stephen Sondheim, o letrista original do espetáculo. As duas também soltaram palavrões ocasionais, e trocaram trechos de canções e elogios. "Tenho certeza de que este filme vai ter espaço no Oscar, de muitas maneiras", disse Moreno. Abaixo, trechos editados da conversa.

Ariana, você disse que sua identidade era importante para o que você levou ao papel. Como que é você discutiu esse aspecto com a equipe de criação?
DeBose:
Foi uma das primeiras coisas que mencionei. Na minha primeira audição. Eu não sabia que Steven estaria lá, e decidi fazer o que precisava, para me representar bem e mostrar o que eu poderia oferecer.

Ele perguntou se existia algo mais que eles precisassem saber, para isso, e eu respondi que "se vocês não estiverem interessados em explorar minha identidade afrolatina, e em encontrar maneiras de incorporá-la ou de falar dela, eu provavelmente não serei a pessoa certa para vocês". Eu não queria aquela sensação de que estava lá só para preencher um requisito.

Quando estávamos filmando, Steven me perguntava: "Isso parece autêntico para você? Porque, se não parecer, podemos mudar". Eu podia responder de minha perspectiva, é claro, mas não cresci em 1957. Trouxeram pessoas para conversar com a gente que viveram em San Juan Hill naquela época.

Havia um irlandês membro de uma gangue, porto-riquenhos que viviam na área naquela época. Rita e eu não conversamos muito sobre a personagem, mas ouvir sobre as experiências que ela viveu me ajudou demais.

Vocês conversaram sobre o legado de interpretar Anita?
Moreno:
Não. E por um motivo muito consciente. Eu sabia como a posição de Ariana era delicada. Queria que ela tivesse certeza absoluta de que eu não estava lá para impor coisa alguma. Por isso, como boa anfitriã, decidi guardar alguns dos meus pensamentos para mim.

Ela conhecia a enormidade do trabalho. Era claro para mim que ela era uma jovem brilhante e não havia muito de útil que eu pudesse dizer, a não ser em benefício próprio. Tentei, tentei ao máximo, conseguir que ela se sentisse em casa e tratar com a maior justiça qualquer inveja que eu pudesse sentir –e, para deixar claro, eu senti inveja. Não estaria viva se não sentisse.

Ariana, você disse que teve um pequeno ataque de pânico ao ser apresentada a Rita na filmagem. Como você se recuperou?
DeBose:
Na verdade, ainda estou me recuperando. Honestamente, em minha ingenuidade eu não tinha sacado que estaria na mesma sala que ela. E aí chegou o momento e pensei "oh, meu Deus".

Moreno: Ela parecia um animalzinho apanhado pelos faróis de um carro. Decidi que ia levá-la para almoçar e só aí percebi como ela estava nervosa. Pensei que tinha de fazer o meu melhor para ajudá-la a relaxar. E lhe disse que ela tinha de ser a Anita que ela era. Porque eu não a conhecia bem, naquele momento, nem sabia que ela só poderia ser mesmo a Anita que ela é.

Qual é sua resposta aos críticos que dizem que o filme não deveria ter sido refeito, porque ele traz de volta estereótipos, ou não pertence à nossa era em termos de origem?
Moreno:
Não traz estereótipo algum. Isso é [palavrão] bobagem, completa e absoluta bobagem. A primeira vez que vi o filme, fiquei comovida. Comecei a chorar na cena do mambo; eu estava sentada ao lado da minha filha e ela perguntou por que eu estava chorando, já que era uma cena tão alegre.

E eu respondi que estava chorando porque Steven tinha acertado tudo. As tomadas eram incríveis, e ele entendeu o espírito no qual números musicais precisam funcionar.

DeBose: E é por isso que refilmamos os clássicos. É o que os torna clássicos, a capacidade de serem recontados e reimaginados. Você dá contexto histórico à coisa para compreender melhor o texto, e torná-lo tangível.

Moreno: É essa a função de Tony Kushner (o roteirista). Ele traz os elementos sociais e alguma coisa que nem mesmo era tratada no original. Isso não significa que aquele primeiro esforço tenha perdido mérito. Continua a ser um filme emblemático. Mas, por outro lado, é espantoso para mim o quanto os personagens (originais) eram ocos. Não acho que tenha sido deliberado. Acho que era assim que (os criadores originais) os viam.

Como foi ter Sondheim presente?
DeBose:
Ele estava por lá, mas eu não tive muita oportunidade de interagir individualmente com ele. Ele me enviava suas observações via Steven Spielberg –ou, como ele gosta de dizer, SS2. Sondheim era SS1 e Spielberg era SS2. Assim, ou Jeanine (Tesori, supervisora musical) ou SS2 me procuravam para conversar e aí tentávamos de novo, até que SS1 ficasse satisfeito.

Ele falou sobre cores. Lembro-me de quando estávamos gravando a parte de Anita no quinteto ("Tonight"), e ele me disse, (imitando uma música em espiral): "É essa a cor que você está procurando; deixe o vocal voar".

Moreno: É isso (cantando): "Anita’s going to get her kicks tonight"...

DeBose: Sim. Ele disse que eu tinha de partir para algo completamente diferente na segunda metade. E aconselhou a muitos de nós que fôssemos confiantes, que fôssemos donos de nossos vocais. O que, para ser honesta, nunca foi problema para mim –ser confiante. A questão era encontrar a coisa certa, porque era um vocal que podia seguir em direções diferentes. Em que cor estou cantando agora? Acho que minha escolha foi magenta.

A cena em que Anita procura Valentina e é atacada pelos Jets é uma das mais emocionantes do filme. É obviamente muito sóbria, e tantos temas diferentes surgem –gênero, raça, classe social. Como vocês conversaram a respeito ou se prepararam para ela?

DeBose: Tivemos um dia de ensaio, e a presença de uma coordenadora de intimidade.

Moreno: Que diabos é isso? Nunca ouvi falar disso. É fascinante para mim.

DeBose: Uma pessoa para garantir que todos se sintam confortáveis com o que está acontecendo na cena.

Moreno: Que não haja toques em certas áreas?

DeBose: Exatamente. Certas partes do corpo não podem ser tocadas sem acordo prévio. Ela ajudou bastante, porque os meninos dos Jets estavam nervosos demais com relação à cena. Nós todos no elenco nos amamos muito, e eles estavam com muito medo de me machucar.

E eu dizia para eles que não era Ariana, que era Anita, na cena. Mas sou muito grata pelo ensaio, porque ajudou a determinar fronteiras para todos nós. Terminou sendo uma experiência psicológica bem segura. É verdade que ainda não deixei para trás aquela experiência. Não vejo aquela cena, quando assisto ao filme. Consigo ouvi-la, mas assisti-la de verdade ainda me incomoda um pouco.

Moreno: Isso é muito triste.

DeBose: Foi intenso porque eram muitos corpos em cima de mim, com o ímpeto de me machucar, e mesmo que seja simulado o corpo na verdade não sabe a diferença.

Moreno: E quer saber? Não é só o corpo. O cérebro e o coração –porque foi isso que me fez chorar histericamente ao filmar a cena, e eles precisaram parar de filmar porque eu não conseguia parar de chorar. São feridas que nunca fecham.

DeBose: Acho que, porque é um musical, as pessoas às vezes não percebem a profundidade do material. E a personagem, quer na encarnação de Rita, quer na minha, a [palavrão] se torna bem real. O volume de dor e de agressão contra aquela pessoa é difícil de assistir. E ainda mais difícil de interpretar.

Tenho um imenso respeito por quem quer que tenha interpretado esse papel porque a pessoa não sabe até estar fazendo o papel –e até deixar de fazê-lo– a que ponto precisará ir para criar um momento com aquela mulher, especificamente.

Moreno: Ela é charmosa, e engraçada. Tem opiniões e não hesita em expressá-las. Isso tudo ilude quem vê. Porque ainda é preciso interpretar as feridas e os insultos.

DeBose: E se você não se sentir desconfortável como espectador, eu diria que você precisa analisar algumas coisas em você.

O que vocês acham que aprenderam interpretando Anita, e daquilo que ela representa?
Moreno:
Para mim foi uma revelação, porque percebi na metade do (primeiro) filme que tinha encontrado meu exemplo de pessoa, lá pelos 28 anos de idade, e era Anita. Jamais tinha interpretado uma mulher hispânica com aquela dignidade e senso de respeito próprio, e com o destemor que ela tinha ao expressar o necessário.

DeBose: Ela me ensinou muito sobre perdoar. Em nosso ramo, muita coisa é levada para o lado pessoal, mas o caminho mais saudável é escolher perdoar. E não é um caminho fácil. Eu, pessoalmente? Teria descido [palavrão] em Maria. É o único momento da peça –no filme ou no teatro– no qual eu não sei como agiria, na vida real. Mas é difícil fazer aquela escolha em um momento de pesar.

Moreno: Não é só perdão, mas expressar a importância do papel que o amor desempenha na vida. "Quando o amor é forte assim, não existe certo ou errado".

DeBose: Essa linha –é sobre isso que todo o momento gira. Não importa o que aconteça, às vezes você se enfurece demais com alguém mas ainda ama a pessoa profundamente. O amor não morreu. Pode se transformar. Pode mudar de forma. Mas sempre existe amor.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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