Andrew Garfield como Jonathan Larson na versão cinematográfica de 'Tick, Tick… ​​Boom!'

Andrew Garfield como Jonathan Larson na versão cinematográfica de 1Tick, Tick… ​​Boom!' Macall Polay/Netflix

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Sarah Bahr
The New York Times

A adaptação de "Tick, Tick... Boom!" para o cinema por Lin-Manuel Miranda é um musical sobre o musical escrito por Jonathan Larson, o criador de "Rent", sobre um sujeito que está escrevendo um musical.
Só para esclarecer: o musical de que o filme fala não é "Rent". (Pois é, tentar entender essa história também nos causou dor de cabeça.)

"Tick, Tick... Boom!", que estreia na Netflix no dia 19, retrata Larson (Andrew Garfield) e seus esforços para encontrar o sucesso, pouco antes de chegar aos 30 anos. A audiência acompanha sua batalha para compor "Superbia", um musical futurista retrô, e ao mesmo tempo sua preocupação sobre ter ou não escolhido a carreira certa.

Para ajudar a distinguir "Superbia", o musical que Larson nunca produziu, de "Tick, Tick... Boom!" (um espetáculo solo autobiográfico de Larson sobre a criação de "Superbia") e de "Tick, Tick... Boom!", o novo filme que conta a história de Larson, preparamos um guia.

QUEM É JONATHAN LARSON?

O compositor e dramaturgo é mais conhecido pela criação de "Rent", um musical frouxamente baseado na ópera "La Bohème", de Puccini, que estreou em 1896.

Mas Larson não chegou a ver a sua ópera-rock transformada em um imenso sucesso na Broadway, premiado com quatro Tonys. O compositor morreu inesperadamente aos 35 anos, em 1996, de um aneurisma aórtico –na manhã anterior à estreia da primeira versão de teste de "Rent" em um teatro off-Broadway, e poucos meses antes de sua estreia na Broadway.

Mas "Rent" de maneira alguma foi seu primeiro musical, e foi influenciado de diversas formas por um espetáculo autobiográfico que ele estava escrevendo na mesma época, sobre as dificuldades que enfrentou para criar "Superbia".

O QUE ERA "SUPERBIA"?

Nenhum dramaturgo que esteja tentando fazer carreira em Nova York tem uma vida luxuosa, mas as acomodações de Larson eram especialmente precárias. Ele morava e trabalhava em um apartamento de quinto andar em um prédio na parte sul de Manhattan –sem elevador, sem aquecimento e com uma banheira na cozinha. Larson dividia o apartamento com dois amigos e um par de gatos. Ele trabalhava em sua nova peça por oito horas sem parar, nos dias em que tinha folga de seu emprego como garçom no Moondance Diner, no SoHo, onde ele trabalhava todos os finais de semana.

O musical em que ele estava trabalhando era "Superbia", e o texto tinha por base "1984", o romance distópico de George Orwell, ainda que Larson não tivesse conseguido obter direitos de adaptação. Ele conseguiu verbas de diversas fontes e usou o dinheiro conquistado com prêmios para continuar compondo Superbia. Um desses prêmios era o Richard Rodgers Development Grant, cuja comissão julgadora era presidida pelo compositor Stephen Sondheim. O dinheiro que ele conseguiu dessa fonte bancou uma produção-teste do espetáculo no teatro Playwrights Horizons, em 1988.

Mas esforço não quer dizer sucesso. Ainda que a música e as letras tenham conquistado grandes elogios entre os profissionais do teatro de Manhattan, o espetáculo foi considerado grande e negativo demais, e nenhum produtor quis arriscar encená-lo, de acordo com um artigo de Anthony Tommasini para o The New York Times em 1996. Por isso, Larson decidiu que escreveria um monólogo.

ONDE É QUE "TICK, TICK... BOOM!" ENTRA NA HISTÓRIA?

Larson não se deixou dissuadir pelo fracasso de "Superbia", e começou a trabalhar em um novo musical –"Rent"– e ao mesmo tempo em uma nova ideia: um "monólogo rock" autobiográfico que retrataria as dificuldades que ele enfrentou ao escrever "Superbia". Inicialmente intitulado "30/90" –porque ele completaria 30 anos em 1990– e em seguida "Boho Days", o espetáculo solo que se tornaria "Tick, Tick ... Boom!" foi encenado pela primeira vez, protagonizado por Larson, em uma oficina no Second Stage Theater, em 1990. O espetáculo –parte monólogo, parte recital de rock– cativou um jovem produtor chamado Jeffrey Seller, que se tornou um defensor do trabalho de Larson e mais tarde convenceria um grupo de produtores a levar "Rent" para a Broadway.

Mas "Boho Days" era um projeto de execução complicada: Larson tinha de fazer diversos monólogos longos, em muitos dos quais interpretava diversos personagens; cantar números musicais que representavam múltiplos pontos de vista; e ao mesmo tempo se acompanhar ao piano e comandar a banda, na execução de uma partitura que era uma combinação de pop, rock e pastiches de Sondheim.

Tommasini descreveu o espetáculo como "um longo e zangado solo", no qual um homem "acorda no dia de seu 30º aniversário, come junk food e se queixa por 45 minutos de suas ambições frustradas, de estar completando 30 anos no tênue começo dos anos 90, e muito mais".

Depois daquela primeira encenação, Larson continuou a revisar o espetáculo, o que incluiu alterar o título para "Tick, Tick ... Boom!" –uma referência ao relógio que ele acreditava estar tiquetaqueando sem parar em sua vida e em sua carreira. A nova versão foi apresentada na New York Theater Workshop em 1992 e 1993, e continuava a ser uma obra em progresso quando Larson morreu em 1996. Ele deixou pelo menos cinco versões inacabadas do texto, e uma pilha de listas de canções.

COMO O ESPETÁCULO SOLO SE TORNOU UM MUSICAL COM TRÊS PERSONAGENS?

Depois da morte de Larson em 1996, o dramaturgo David Auburn, ganhador de um prêmio Pulitzer por "Proof", revisou o espetáculo e o transformou em um musical de câmara para três intérpretes, o que reduziria a carga de trabalho do ator que interpretasse Jon. Os dois atores adicionais interpretariam Michael, executivo publicitário e melhor amigo de Larson, e Susan, sua namorada, uma dançarina; os dois também fariam diversos papéis secundários. As canções foram rearranjadas para três vozes, embora a música e as letras continuassem a ser de Larson.

Com a permissão da família de Larson, Auburn também eliminou a maior parte das referências de Larson ao terror de envelhecer e ao sentimento de estar sob tamanha pressão que seu coração poderia explodir em seu peito, o que poderia parecer insensível dado o conhecimento público sobre o destino do compositor.

A versão revisada de "Tick, Tick ... Boom!" estreou no Jane Street Theater, um teatro off-Broadway, em 2001, e foi encenada no West End londrino e em teatros londrinos menores, além de ser retomada duas vezes, ainda off-Broadway, em 2014 e 2016, e de ter sido encenada em turnê nacional nos Estados Unidos.

As críticas foram positivas. Ben Brantley, do The New York Times, apontou que as canções "reluzem com indícios da urgência e do humor" que dão um "ímpeto irresistível" à trilha sonora de "Rent".

Miranda –que já tinha obtido êxito com "In the Heights" mas ainda não tinha estreado "Hamilton", seu gigantesco sucesso– interpretou Jon na remontagem de 2014 no New York City Center, um desempenho que Charles Isherwood, do The New York Times, disse "pulsar com um senso de profunda identificação".

Isherwood apontou que não havia muito tempo que Miranda "lecionava inglês em uma escola de segundo grau e compunha em suas horas vagas", batalhando para encontrar sucesso como compositor de musicais.

COMO O FILME ADAPTA TUDO ISSO?

Vinte anos depois de assistir à remontagem de "Tick, Tick... Boom!", quando ele era um jovem estudante de teatro de 21 anos de idade e enfrentava problemas para escrever "In the Heights", Miranda agora dirige a adaptação do espetáculo de Larson para o cinema. É a história de um jovem compositor chamado Jon nos oito caóticos dias que antecedem a produção teste de seu musical "Superbia". Como na remontagem off-Broadway do espetáculo, o que originalmente era um monólogo rock de Larson teve seu elenco expandido para mais de uma dúzia de personagens (Bradley Whitford interpreta Stephen Sondheim, que encoraja o jovem compositor). O filme se alterna entre cenas em tempo real de Jon interpretando a versão original de Larson para "Tick, Tick... Boom!" e a história mais ampla.

Miranda disse que o espetáculo que ele mostra no filme é uma combinação do monólogo rock de Larson, da remontagem off-Broadway de 2001 e de uma exploração cinematográfica do modo de pensar de Larson. Ele recorreu aos arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos para montar toda a trilha com base em músicas de Larson, tanto composições feitas para "Tick, Tick... Boom!" quanto outros trabalhos.

"Foi como montar um musical original com composições de Jonathan Larson", disse Miranda à revista Entertainment Weekly, explicando o processo como uma busca do melhor caminho para "destrancar" as histórias e canções.

Será que Larson mesmo sentia o quanto seu trabalho era urgente? Para citar a letra de uma das canções que ele compôs para "Rent", e se tornou um hino, às vezes parece que ele compreendia que "não há outro dia senão hoje" para fazer o que precisava ser feito.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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