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'Mesquinho e cruel': o 'mea culpa' do blogueiro de celebridades Perez Hilton em autobiografia

Perez Hilton trabalhava sentado em cafés em Los Angeles quando lançou seu site
Perez Hilton trabalhava sentado em cafés em Los Angeles quando lançou seu site - BBC News Brasil/Getty Images
Steven McIntosh

Em 2011, o blogueiro de celebridades Perez Hilton se reuniu com uma nova e promissora cantora chamada Ariana Grande.

Ela tinha 18 anos na época e procurava um empresário para ajudá-la a lançar sua carreira. Hilton, uma figura conhecida na indústria do entretenimento, percebeu seu potencial e queria trabalhar com ela. Mas, no final das contas, Grande fechou contrato com outra pessoa.

"Fiquei muito magoado, então, durante anos depois disso, fui super mesquinho com Ariana no meu site e nas redes sociais", admite Hilton em seu novo livro autobiográfico. "Eu me arrependo disso."

Essa é uma das muitas histórias que ele conta no livro TMI: My Life in Scandal (TMI: Minha Vida em Escândalo, sem edição em português), que narra seus 16 anos no showbiz. No livro, ele reflete sobre seu sucesso, mas também expressa seus muitos arrependimentos.

"Eu nunca pensei muito em escrever uma autobiografia antes, porque embora eu tenha essa personalidade pública extremamente confiante, também estou extremamente cheio de dúvidas, preocupação e insegurança", disse Hilton à BBC News.

"Este livro surgiu porque eu estava tentando vender outro livro, sem sucesso, sobre saúde e bem-estar", explica, com transparência. "Quando percebi que o livro está sendo rejeitado, tentei transformar meus limões em limonada."

Hilton, cujo nome verdadeiro é Mario Lavandeira, foi abordado por uma dupla de escritores suecos para fazer um livro de memórias enquanto conversava com editoras sobre o livro de bem-estar. Ele não aceitou a oferta inicialmente, mas acabou cedendo depois.

Aos 42 anos, Hilton diz com franqueza: "Não tenho a expectativa de que meu livro vá bem em termos de vendas. E estou bem com isso, porque (o sucesso do livro) não significada nada sobre mim."

"Eu entendo, eu não estou 'bombando' no momento. Tenho 16 anos de carreira. Mas embora eu não seja Charli D'Amelio [estrela do TikTok], que é a 'it girl' (garota que todos querem ser) de 2020, tenho muito mais a oferecer. Tenho uma vida inteira que ela ainda não viveu."

O pseudônimo Perez Hilton era uma brincadeira com o nome Paris Hilton, que era uma celebridade bem famosa na época em que ele lançou seu blog
O pseudônimo Perez Hilton era uma brincadeira com o nome Paris Hilton, que era uma celebridade bem famosa na época em que ele lançou seu blog - BBC News Brasil/Getty Images

'Notícias feias'

Hilton começou seu blog de fofoca escrevendo sentado em um café perto de seu apartamento em 2005. Na época, ele não tinha dinheiro para ter internet instalada em casa, então ele usava o wi-fi grátis do estabelecimento.

"Eu sempre sentava no mesmo lugar, porque em todo o café havia apenas uma tomada, então eu tinha que sentar lá para ligar meu laptop", ele ri. "Espero que eles tenham se atualizado desde então."

O site cresceu rapidamente, atraindo oito milhões de acessos por dia em um momento em que a internet ainda estava em sua infância relativa. Hilton escrevia histórias sobre o mundo das celebridades, muitas vezes adicionando seus próprios comentários maliciosos. Foi rapidamente apelidado de o site mais odiado de Hollywood, uma descrição que ele adotou.

Corria o boato de que Hilton comandava toda a operação do café, e em pouco tempo celebridades como Lindsay Lohan e Amanda Bynes comeram a aparecer por lá para lhe contar histórias.

Mas muitas celebridades, como você pode imaginar, não ficaram entusiasmadas com o conteúdo do site. Nicole Richie apareceu um dia para reclamar sobre sua cobertura.

"Para mim, ele foi a primeira pessoa a criar notícias feias, que espalharam sujeira", disse Mila Kunis em 2018. "Era apenas maldade e, portanto, permitia que as pessoas fossem maldosas." Ela afirmou que "todo o conceito de trolagem realmente não existia" antes de seu blog.

Hilton rejeita essa acusação específica, apontando para as inúmeras revistas de celebridades que o precederam. "Mila Kunis nunca leu a revista Us Weekly, National Enquirer ou Star?" ele pergunta. "Todos eles existiam antes de mim e faziam exatamente a mesma coisa. Talvez eu tenha sido o primeiro a fazer isso online e, portanto, sou um pioneiro!"

No entanto, houve outras reclamações sobre o site que o levaram a mudar significativamente o tom. A comunidade LGBT o criticou por revelar celebridades gays, enquanto outros ficaram chateados com o uso de apelidos desagradáveis.

Em 2010, por exemplo, Hilton se referiu repetidamente a Christina Aguilera como fracassada, em um esforço para prejudicar suas vendas e aumentar as de sua então amiga Lady Gaga. O remorso de Hilton por seu comportamento é uma das seções mais interessantes do livro.

"Tenho uma tonelada de arrependimentos, principalmente porque agora vejo que nunca deveria ser tão mesquinho ou cruel", escreve ele. "Uma das muitas coisas de que me arrependo é ter magoado tantas pessoas ao dar-lhes apelidos desagradáveis ​​e, acima de tudo, fui indelicado com os filhos de celebridades."

"Também lamento por ter pensado que era ok 'forçar' celebridades gays para fora do armário. Isso é algo em que não acredito mais."

Hilton, que também é gay, recebeu ameaças de morte quando revelou que o ex-concorrente do American Idol Clay Aiken era gay. Mas uma campanha de ação social o levou a mudar seus hábitos.

Em 2010, o ativista Dan Savage lançou o movimento It Gets Better (Vai Melhorar, em inglês) em resposta aos múltiplos suicídios de adolescentes naquele ano que haviam sofrido bullying por serem gays. Mas quando Hilton gravou uma mensagem de apoio à campanha, ele enfrentou uma reação imediata.

"A resposta que recebi realmente me abalou profundamente", explica ele. "Quase todos os comentários diziam: 'Você é um hipócrita, você é um bully, você é parte do problema.' Eu sabia que muitas pessoas não gostavam de mim antes, mas eu estava vivendo em minha própria bolha."

"Fiz uma lavagem cerebral em mim mesmo e disse coisas como: 'Se as pessoas não gostam do que estou escrevendo, não deveriam ler'. Ou '[Perez é] apenas um personagem, essas pessoas não conhecem meu verdadeiro eu.' Mas naquele ponto eu disse, 'Uau, eu preciso assumir a responsabilidade pelo que está acontecendo e pelo que estou fazendo.' "

Desde então, Hilton tem feito esforços para consertar as coisas. "Cheguei a um ponto na minha vida privada em que comecei a ter esses pensamentos sobre a mudança. Mas estava paralisado de medo de perder tudo que havia trabalhado muito para conseguir até aquele ponto", diz ele.

"Nos últimos 10 anos, tem sido esse processo contínuo de fazer mudanças constantes, descobrir qual é o caminho e cometer erros ao longo do caminho. Não sou perfeito, tive deslizes, mesmo nos últimos 10 anos."

"E tem havido uma grande variedade de mudanças —desde não expor as pessoas a não desenhar mais rabiscos inadequados nas fotos e não usar apelidos desagradáveis. Não compartilho mais fotos de pessoas sofrendo ao sair de um funeral ou fora de um hospital quando um ente querido está doente. Você pode fazer o seu trabalho e ter uma opinião forte, mas não seja ofensiva ou cruel. "

Hoje em dia, Hilton frequentemente aparece em reality shows de celebridades e apresenta seu próprio podcast de notícias do showbiz ao lado de seu co-apresentador Chris Booker, cujo ceticismo e impaciência com grande parte da cultura das celebridades é o equilíbrio perfeito para a personalidade excitada e animada de Hilton.

Quanto ao seu site, Hilton ainda pode ser encontrado regularmente fazendo comentários cortantes sobre as notícias de entretenimento do dia. Mas, diz ele, há uma diferença entre ser mesquinho e uma opinião honesta.

"Por exemplo, se Mila Kunis lançasse uma música amanhã e eu dissesse que não gosto dela, ela poderia responder, 'Não diga o que você pensa, guarde para você'", diz ele. "Mas nesse caso eu diria, 'Sai dessa, Mila Kunis!'"

BBC News Brasil
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