Estilo
Descrição de chapéu The New York Times

'Round 6': Série da Netflix traz agasalhos de ginástica de volta à moda

Roupas do sucesso sul-coreano viram ponto de identificação com fãs

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Vanessa Friedman

“Round 6”, drama distópico sul-coreano que se tornou a série mais assistida na história da Netflix, à primeira vista não pareceria candidato a um papel de destaque no mundo da moda.

Diferentemente de grandes sucessos anteriores do serviço de streaming, como “Bridgerton” e “The Queen’s Gambit”, a série não traz personagens que usam roupas glamorosas e variadas, imbuídas de romantismo e história —o tipo de figurino que inspira nos espectadores um profundo anseio por uma casaca de cintura justa à moda do império ou um vestido de estampa quadriculada.

E diferentemente de filmes nos quais o sobrevivente fica com tudo, como “Jogos Vorazes” (mencionado frequentemente como ponto de comparação com “Round 6”), o elenco não está repleto de personagens que usam trajes futuristas sensuais enquanto se esquivam de situações que colocam suas vidas em risco.

“Round 6”, em lugar disso, tem um elenco de jogadores que vestem banais agasalhos de ginástica verde azulados, quase sempre respingados de suor e sangue, enquanto se veem forçados, se quiserem pagar suas dívidas, a participar de brincadeiras infantis nas quais o preço da derrota é a morte. Árbitros em macacões cor-de-rosa e máscaras pretas assistem ao espetáculo (e abatem a tiros qualquer participante que que viole as regras da competição).

Às vezes, os jogadores tiram suas blusas fechadas por zíperes e revelam por sob elas camisetas brancas de beisebol, com mangas verdes como o agasalho, e o número que eles receberam em lugar de seus nomes. É a moda “normcore” da distopia.

Que as máscaras pretas e os agasalhos suarentos tenham disparado imediatamente para o topo da lista de fantasias de Halloween de muita gente não é surpresa. Mas o fato é que as roupas que caracterizam “Round 6” estão provando ser moda no sentido mais amplo da palavra, e isso é um tanto mais difícil de explicar.

De acordo com uma porta-voz da plataforma de comércio eletrônico Lyst, “as buscas mundiais por agasalhos em estilo retrô, tênis brancos sem cadarços, macacões vermelhos e camisetas com números brancos estão registrando uma forte alta”. O interesse por agasalhos dobrou desde que a série estreou na metade de setembro, ela disse, e as buscas por tênis brancos subiram em 145%; os produtos da Vans receberam forte empuxo na semana passada.

A Netflix mesma oferece uma coleção inspirada por “Round 6” em sua loja online, com “hoodies” e camisetas nas cores e modelos que caracterizam a série. E a revista Grazia US recentemente publicou um artigo sobre produtos de moda, inspirado pela série, com o título “o agasalho de ‘Round 6’, mas com jeito fashion”. Talvez pelo mesmo motivo, a Louis Vuitton assinou com HoYeon Jung, estrela de “Round 6”, como embaixadora da marca, no momento em que o programa foi lançado. (Ela já era modelo, mas o contrato com a empresa francesa a coloca na primeira divisão da moda internacional.)

Sim. Todos eles estão apostando na ideia de que as pessoas querem mesmo usar aquele look. Portanto, vamos falar do look, por um momento. Como outras séries muito assistidas (e muito monetizadas) da Netflix, “Round 6” oferece uma dose rápida de escapismo que gera endorfina, envolta em imagens tão suntuosas que parecem ficar impressas instantaneamente em nossas retinas.

O complexo onde acontecem os jogos está saturado das cores brilhantes da infância, com sets que têm cara de parque infantil e castelos plásticos gigantescos. Os jogadores que morrem são retirados em caixões negros decorados por grandes laços de fita cor-de-rosa. E os uniformes verdes e uniformes rosa dos dois grupos sociais opostos têm a clareza absoluta do “nós contra eles”.

Por boa parte da série, o único personagem que se destaca de qualquer dos grupos é o Front Man –o organizado—, que usa um casaco cinza metálico que parece esculpido, e um capuz (em lugar de um “hoodie’), bem como uma máscara angulosa que o faz parecer uma espécie de versão corporativa de Darth Vader. O que, se levarmos em conta que a série trata de disparidade econômica, faz imenso sentido.​

Front Man, em cena de "Round 6" - Netflix

Isso também destaca a maneira pela qual as roupas brincam com velhos conceitos de estrutura de classe, e com quem veste o quê, tornando heroicos os trajes menos charmosos da tela e transformando os suntuosos robes de brocado dos voyeurs ricos que aparecem para curtir o desespero dos jogadores em um símbolo sucinto de decadência e falência moral.

Afinal –quem é que não se identifica com um agasalho simples? Não só porque todos usamos um deles de vez em quando (qualquer pessoa que tenha feito parte de uma equipe esportiva na escola com certeza o fez, e o mesmo vale para qualquer pessoa que tenha cedido à tentação de comprar uma peça de roupa enfeitada por inscrições como Juicy [suculento] no traseiro), mas também por conta de tudo que aconteceu no ano passado.

Os agasalhos esportivos se tornaram praticamente um ponto de referência universal, depois de meses de isolamento. Assim como usar sapatos que não precisam ser amarrados. Ao optar pelos trajes do dia a dia, “Round 6” elevou o valor de choque do que acontece na série, e humanizou a trama, ao mesmo tempo.

É por isso, mesmo quando os três últimos jogadores vestem black tie para uma refeição final –e mais tarde quando o vencedor coloca um elegante terno azul– que o uniforme verde azulado dos jogos se mantém em nossa memória. Eles deixaram para trás o básico.

São prova, se é que uma prova era necessária, de que a mudança de nossos hábitos televisivos está alterando não só aquilo que vemos, e como, mas também aquilo que vestimos. Não é tão difícil imaginar que a Luis Vuitton lance um agasalho esportivo. (Balenciaga e Celine já os oferecem.)

Podemos definir a tendência como o efeito cascata dos pixels: o consumo de mídia de massa gera uma obsessão de massa por certas roupas. No mundo ferozmente competitivo da moda, apelar a esse tipo de coisa se torna cada vez mais uma maneira de vencer.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci