Cinema e Séries
Descrição de chapéu The New York Times Cinema

'E Sua Mãe Também' mudou tudo: astros falam sobre sucesso após 20 anos

Gael García Bernal, Diego Luna e Maribel Verdú protagonizaram longa

Cena do filme 'E Sua Mãe Também' - Divugação

Continue lendo com acesso ilimitado.
Aproveite esta oferta especial:

Oferta Exclusiva

6 meses por R$ 1,90/mês

SOMENTE ESSA SEMANA

ASSINE A FOLHA

Cancele quando quiser

Notícias no momento em que acontecem, newsletters exclusivas e mais de 200 colunas e blogs.
Apoie o jornalismo profissional.

Carlos Aguilar

O cinema do México mal estava emergindo de décadas de obscuridade quando “E Sua Mãe Também”, de Alfonso Cuarón, uma viagem de autodescoberta e um estudo sobre um país em transição, foi lançado, em 2001, conquistando imediatamente a posição de marco histórico.

O filme, estruturado em forma de uma “road trip” entre a Cidade do México e a paradisíaca praia de Oaxaca, gira em torno de um triângulo amoroso envolvendo um adolescente de classe alta, Tenoch (Diego Luna), seu melhor amigo, mais humilde, Julio (Gael García Bernal), e uma visitante espanhola, Luisa (Maribel Verdú).

Ela desafia as noções nascentes de masculinidade dos meninos diante do pano de fundo de uma sociedade que está desfrutando de seu primeiro gostinho de democracia depois de sete décadas sob o governo do Partido Revolucionário Institucional (PRI).

O filme, que bateu todos os recordes de bilheteria no México antes de estrear no Festival de Veneza em agosto daquele ano, representou um retorno para o diretor, não só ao México depois de uma passagem por Hollywood, mas à sua paixão pelo cinema. E viu o nascimento da gramática cinematográfica naturalista do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki.

Mas seu maior impacto reside na abertura quanto ao sexo que ele retratava, resultando na classificação de censura mais restritiva do governo mexicano; em seu questionamento tácito da masculinidade tradicional, em uma cultura na qual o machismo tem raízes profundas; e em seu tratamento incisivo das questões de classe em uma nação onde existem desigualdades dolorosas.

Conversei com os integrantes dispersos do elenco e da equipe do filme (incluindo Carlos Cuarón, irmão do diretor e seu parceiro na redação do roteiro), sobre suas lembranças quanto à realização do filme, as mudanças que este causou em suas carreiras e a recepção que seu trabalho encontrou no México naquela época quando o encontro carnal entre os dois meninos causou controvérsia. Abaixo, trechos editados dessas conversas.

Em que ponto você estava em suas carreiras quando “E Sua Mãe Também” aconteceu? O filme foi um momento de virada?
Alfonso Cuarón:
Àquela altura, eu tinha deixado que a indústria me seduzisse e foi quando minha confusão começou, porque esqueci o cinema. É um mito dizer que a indústria nos corrompe, nós é que nos corrompemos. Fazer meu primeiro filme em Hollywood, "A Princesinha" [1995], foi maravilhoso, mas em seguida fiz outro filme, "Grandes Esperanças" [1998], que jamais consegui entender. Comecei a assistir de novo a muitos dos filmes que mais amava. E aí telefonei para meu irmão e propus: "Vamos escrever um filme".

Carlos Cuarón: "E Sua Mãe Também" foi uma ideia conceitual que Alfonso e eu tivemos antes mesmo do primeiro filme dele, ‘Sólo Com Tu Pareja’. O filme foi inspirado pelas viagens que fazíamos na adolescência. O que nem meu irmão nem eu fizemos foi ter uma aventura com uma bela mulher espanhola. [Risos.] Trabalhamos na ideia por cerca de dez anos, mas separados. E então um projeto muito bacana que Alfonso tinha nos Estados Unidos deu errado e, aqui no México, o que seria minha estreia como diretor de longas também deu errado. Alfonso estava morando em Nova York e me ligou para perguntar. "E se fizéssemos ‘E Sua Mãe Também'?’’ Viajei para lá usando a milhagem que ele tinha acumulada e começamos a trabalhar. [Risos.]

Luna: Foi a primeira vez que percebi que poderia ter um alcance que antes não imaginava possível. Cresci fazendo principalmente teatro no México e pensando principalmente no contexto de minha comunidade lá. Mas o filme foi como um despertar para mim. O que me atingiu com mais força foi a distância que surgiu entre minha família, meus amigos e eu, depois do filme. Comecei a trabalhar em outros países, a passar períodos longos longe de casa ao ponto de até questionar onde realmente era meu lar. Isso pode ser empolgante, mas também angustiante, porque você se sente perdido, sente que não se enquadra bem em lugar algum.

García Bernal: Quando fiz "Amores Brutos" [o primeiro filme dele, em 2000], descobri esse universo sem saber coisa alguma sobre a loucura do cinema. Em "E Sua Mãe Também", Alfonso vivia um momento em sua vida no qual estava muito aberto a incluir os atores no processo de criação por mais de um ano. Aprendemos o básico do cinema. O que levei comigo desse trabalho, para cada filme que faço, é que um requisito importante é que exista um sentimento de fraternidade como o que tínhamos ali.

Verdú: Eu trabalho desde os 13 anos e por isso teria continuado a trabalhar no meu país e na América Latina, não importa o que tivesse acontecido, mas, graças a "E Sua Mãe Também", me tornei conhecida internacionalmente. E não foi só ganhar reconhecimento internacional por um filme, mas por um filme prestigioso e significativo. Graças a Alfonso, pude conhecer o México e mais tarde fazer filmes com outros diretores mexicanos.

Quais são as razões que fizeram de “E Sua Mãe Também” um sucesso, em sua opinião?
Alfonso Cuarón:
Uma parte é óbvia: colocar adolescentes em situações que incluem sexo sempre será atraente para determinadas audiências. Mas espero que "E Sua Mãe Também" tenha transcendido a isso, porque nosso objetivo não era ser um "American Pie". Queríamos que as cenas de sexo mostrassem certas coisas sobre os personagens e sobre os elementos sociais com os quais estávamos lidando, por exemplo questões de classe e concepções de masculinidade que os personagens tinham.

Carlos Cuarón: Aquele retrato da adolescência com seus fracassos e virtudes, o narrador que não narra, mas contextualiza as coisas e nos ajudou a evitar cenas de explicação, a enorme química entre Diego e Gael e o contraponto que Maribel oferecia foram alguns dos muitos fatores. Nenhum de nós que fizemos o filme imaginava que ele teria tamanho sucesso. Quando escrevemos o roteiro, nem sabíamos se alguém ousaria fazê-lo.

Luna: É um grande filme, com certeza, mas nem todos os grandes filmes aprecem no momento certo. "E Sua Mãe Também" teve essa sorte. Encontrou uma audiência que precisava de uma jornada como aquela que o filme propõe. O filme fala de relacionamentos fundamentais e é muito fácil que a pessoa se reflita nele. Também é um filme que retrata um México que antes parecia estar escondido. A forma pela qual o filme retrata a desigualdade econômica e o conflito de classes foi uma coisa muito dolorosa de ver para alguns de nós na época. Lembro-me de ouvir muita gente reclamando: "Por que vocês retrataram o México assim?" Mas ao mesmo tempo, o filme retratava a beleza que o país tem a oferecer.

García Bernal: O filme causou divisão na audiência mexicana. Muitas pessoas reagiram positivamente, mas ele enraiveceu as senhorinhas de sociedade. [Risos.] Algumas audiências projetavam um certo desconforto com a abertura sexual ou com o fato de o filme mencionar temas gays de forma ambígua. Tudo isso criou um diálogo. Fora do México, o que transcendeu foi desejo de viver que o filme instila em quem o assiste. Quando a pessoa sai do cinema, quer partir para a praia e viver uma louca aventura.

Verdú: Acredito que seja a autenticidade. É um filme que tem cara de documentário. Parece algo improvisado, mas existe um trabalho imenso por trás dele. Houve ensaios para que cada cena fosse muito precisa, mas ao mesmo tempo criar a impressão de que tudo aquilo estava acontecendo de improviso diante de nossos olhos. Foi muito mágico, e as audiências sentiram isso.

No momento, estamos vivendo um acerto de contas com a masculinidade. Na época, vocês pensaram sobre o que o relacionamento entre aqueles dois jovens poderia dizer sobre esse assunto?
Alfonso Cuarón:
Conversei muito sobre isso com Guillermo del Toro, Carlos e Chivo [Emmanuel Lubezki]. Seria pretensioso dizer que aquelas discussões eram sobre masculinidade, porque esse tipo de conversa acontece mais agora, mas estávamos tentando explorar o assunto sem usar a linguagem que é usada hoje. Chega uma hora em que a coisa se torna óbvia. Há um momento em que Luisa lhes diz: “A única coisa que vocês querem é fazer sexo um com o outro

Carlos Cuarón: Eu me recordo vividamente que, na estreia, na Cidade do México, houve pessoas que apuparam e vaiaram quando Diego e Gael se beijam. Durante a estreia, um amigo gay, diretor de cinema e teatro, disse: "Obrigado por mostrar claramente a imagem do macho mexicano pela primeira vez". Perguntei a ele de que imagem estava falando, e ele respondeu: "A de Julio e Tenoch se beijando".

Luna: Sempre dissemos que estávamos fazendo uma história de amor entre dois homens. Nos debates sobre o final do filme, as pessoas pediam que rotulássemos o que queríamos dizer. O filme sugere coisas mas deixa a decisão para a audiência. É o que os bons filmes fazem. Eles propõem questões. Não oferecem respostas.

García Bernal: A década de 2000 foi um divisor de águas. A juventude da época, o que me inclui, começou a ter uma visão muito diferente sobre sexo e as linhas divisórias entre os gêneros começaram a desaparecer porque a masculinidade estava, e está, em uma tremenda crise. Estou convencido de que aquele filme não poderia ter sido feito nos Estados Unidos. No México, o cinema tem maior liberdade de expressão porque as coisas são montadas de maneira mais independente.

Verdú: Nesse aspecto, o filme estava adiante de sua época. Mostrava coisas que ninguém mostrava então. Ninguém ousava.

Na cena final, o narrador nos diz que Tenoch e Julio nunca mais se encontraram. Vocês acreditam no narrador ou acham que eles vieram a se reconectar?
Luna:
Não acredito no narrador. Creio que de alguma forma eles se reencontraram. É difícil imaginar que não. A curiosidade provavelmente os reaproximou. É isso que desejo acreditar porque nada na vida é definitivo.

Alfonso Cuarón: Questionei esse aspecto. Em dado momento, Carlos e eu conversamos sobre a possibilidade de fazer um filme sobre [eles], mas agora com mais de 40 anos. Infelizmente, acho que seria triste demais. Minha visão sobre a vida é um pouco pessimista. Tenoch provavelmente seguiu nas pegadas do pai, não como político mas como banqueiro. E não creio que Julio tenha um bom relacionamento com as mulheres. Mas ambos tinham um belo espírito e existe uma possibilidade de que se reencontrem e que aquilo que os una sejam as coisas que faltam em suas vidas. Talvez falar sobre o passado sirva como catalisador para a segunda parte de suas vidas. É uma boa maneira de encarar a questão. Talvez Diego esteja certo.

Carlos Cuarón: Se o narrador diz, então eles nunca mais se encontraram. Caso isso tenha acontecido, provavelmente foi por acidente. Acredito de verdade que a vida os tenha separado. Não acho que não tenham voltado a se encontrar porque se odiavam, mas talvez porque se amavam demais.

García Bernal: Tenho certeza de que eles se reencontraram, mas o narrador diz o que os pais deles gostariam de ouvir. Agora que temos mais de 40, provavelmente deveríamos fazer uma reunião entre Julio e Tenoch.

Verdú: Eles nunca mais se encontraram. Tenho certeza. O relacionamento deles não era real. Isso fica visível, por exemplo, quando um vai à casa do outro e ergue a tampa do vaso sanitário com o pé para não encostar nela. Os dois vêm de origens diferentes. Fizeram uma viagem com uma mulher espanhola e curtiram a experiência como parte de seu despertar sexual. Ela os uniu por um breve momento e então desapareceu, e os dois desapareceram da vida um do outro. E foi isso que aconteceu.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci