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Curtir a vida? Por que adultos com até 35 anos deixam a cautela financeira

Crises mundiais fazem os jovens repensarem suas prioridades

Schuyler Wagner é analista financeiro e gasta de US$750 a US$1.500 por mês com seu hobby

Schuyler Wagner é analista financeiro e gasta de US$750 a US$1.500 por mês com seu hobby Ash Ponders/The New York Times

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Anna P. Kambhampaty
The New York Times

Em um período tumultuado, muitos adultos americanos de menos de 35 anos desistiram de apostar na segurança. Em lugar de guardar a mesma proporção de seus ganhos que costumavam, eles agora poupam menos, gastam mais, investem em projetos que os apaixonam ou optam por carreiras de risco.

Nimarta Narang, 27, disse que costumava ser prudente sobre quase tudo, até o final do ano passado, mas que então teve uma epifania: "Não quero passar a vida sendo tão cuidadosa e cautelosa".

Por boa parte da pandemia do coronavírus, ela não pôde viajar a Bancoc para visitar sua família. Quando enfim fez uma visita, ficou chocada com o número de coisas que tinha perdido: o 50º aniversário de sua mãe, o funeral de sua avó, o noivado de sua irmã, a barba de seu pai ficando grisalha.

​"Ao voltar aos Estados Unidos, percebi que precisava fazer as coisas de um jeito diferente", disse Narang, que é editora literária na revista Brown Girl Magazine.

Uma coisa que ela sempre tinha desejado era morar em Nova York. Narang empacotou tudo que tinha em seu apartamento em Los Angeles e se mudou, em março. Também adotou uma nova abordagem quanto às finanças. Antes da pandemia, disse, ela costumava guardar pelo menos US$ 2.000 (R$ 10,2 mil) por mês. Agora, poupa apenas metade desse valor. O resto ela usa para bancar um apartamento mais caro (seu novo aluguel é US$ 600 por mês mais alto, o que equivale a R$ 3.000), para sair mais com os amigos e para pequenos caprichos de que antes se privava.

"Eu queria usar minhas economias para ter uma grande experiência em algum momento da minha vida, mas visitar a família me fez perceber o quanto da vida eu estava perdendo".

Ela não está sozinha. Um estudo recente da Fidelity Investments constatou que 45% das pessoas dos 18 aos 35 anos "não veem vantagem em economizar até que as coisas voltem ao normal". Na mesma faixa etária, 55% das pessoas disseram que deixaram de lado o planejamento de aposentadoria.

Para algumas pessoas, como Narang, o isolamento da pandemia causou a decisão de desfrutar do momento, e que se danem, as consequências financeiras. Para outras, a motivação veio de preocupações como a invasão da Ucrânia pela Rússia, a instabilidade política no país, a disparada da inflação, os custos de habitação em alta desenfreada e um mercado de ações confuso.

Hannah Jones, humorista radicada em Denver, disse que costumava guardar todo dinheiro que pudesse. Ela só fazia compras em lojas de pechinchas e se recusava a pagar por uma assinatura da Netflix. Agora, Jones se tornou aquilo que descreve como "uma niilista financeira", o que significa que ela guarda muito menos dinheiro.

O estado precário do planeta está sempre em seus pensamentos. "Não vou me privar de confortos em minha vida atual em benefício de um futuro que às vezes parece que pode ser arrancado de mim a qualquer instante", ela disse.

Em suas apresentações de stand-up, Jones, 27, tem uma fala que sempre causa risadas: "Não, não vou economizar para a minha aposentadoria, vou gastar o dinheiro agora, enquanto ainda existe uma cadeia de suprimento". Ela muda a conclusão do sketch de acordo com as manchetes do dia. Há noites nas quais em vez de falar da cadeia de suprimentos, ela simplesmente encaixa uma menção à catástrofe da vez.

Esse clima de rejeição da frugalidade é onipresente. Hannah Fuller, 25, disse que antigamente ela poupava entusiasticamente, pensando no futuro. Porque precisou de bolsas de estudo para conseguir fazer o segundo grau e uma universidade, ela administrava seu dinheiro cuidadosamente, e poupava o máximo que podia em sua conta de aposentadoria. Mas agora, diz, seu modo de pensar mudou. Tudo começou quando ela estava morando em Portland, Oregon, a cidade em que cresceu, durante a onda de incêndios florestais de 2020.

"Vivendo cercada de fumaça, o sentimento de desânimo e desesperança era palpável", disse Fuller, que trabalha para a Farmers Market Coalition, uma organização sem fins lucrativos de Washington. "A sensação era a de que estávamos vivendo no filme ‘Perdido em Marte’, em um espaço apertado, tentando impedir a fumaça de invadir nosso apartamento".

"Ir a lugares que você costumava visitar quando criança e vê-los destruídos pelo fogo faz com que a vontade de construir coisas novas se torne muito forte", ela prosseguiu.

Agora, Fuller abandonou o hábito de pedir sempre o prato mais barato do cardápio. Reservou ingressos para um festival de música em Barcelona, Espanha, dentro de algumas semanas. E, tendo em vista a explosão dos preços no mercado de imóveis, ela chegou à conclusão de que economizar para comprar uma casa não é algo com que ela vá se preocupar agora.

"Os preços das casas se tornaram completamente inacessíveis", ela disse. "Nem sei se isso vale meu tempo e minha energia". Alguns especialistas dizem que a atitude do gastar já não é específica dos jovens de 2022.

"Cada geração passou por um momento de visões apocalípticas sobre sua vida", disse Brad Klontz, psicólogo financeiro em Boulder, Colorado. Durante a Grande Depressão, ele apontou, muita gente deixou de confiar nos bancos. No pico da guerra fria, o medo da guerra nuclear afetou a maneira pela qual muitos jovens planejavam seu futuro. E durante a crise financeira de 2008, economizar para comprar uma casa parecia despropositado, para muita gente.

"Não estamos programados para poupar", disse Klontz. "Estamos programados para consumir. Se você tem uma visão empolgante quanto ao futuro, pode se tornar a espécie de pessoa que poupa agressivamente para quando se aposentar. Se você tem uma visão apocalíptica do futuro, por que economizar para ele? É claro que você vai preferir fazer outra coisa".

As visões negativas quanto ao que está por vir podem ser exacerbadas por questões como a mudança do clima. Danilo Jiménez, que planeja fazer pós-graduação em política ambiental começando no quarto trimestre, disse que adiou os planos de começar a poupar para a aposentadoria e que prefere gastar o dinheiro em viagens de final de semana e para sair da casa de seus pais e dividir um apartamento com amigos em Nova York.

"A ideia de colocar dinheiro em uma conta de aposentadoria à qual só terei acesso aos 60 anos... isso seria em 2056!", disse Jiménez, 25, que trabalha como treinador de futebol juvenil e auxiliar de marceneiro. "Àquela altura muita coisa terá mudado por causa da mudança no clima".

Em lugar de colocar suas economias em uma conta tradicional de poupança, Schuyler Wagner, 25, está dedicando seu dinheiro e tempo a um investimento idiossincrático: o cultivo de corais. Para Wagner, que é analista financeiro em Tempe, Arizona, a cultura de corais era um hobby de infância que ele abandonou ao chegar à universidade, porque não havia espaço para grandes aquários no alojamento.

Mas depois de se formar, ele voltou ao seu passatempo. Wagner agora cuida de corais das variedades Goniopora (também conhecido como coral "vaso de flores"), Euphylia (que segundo Wagner atinge preços muito altos), e Acanthophyllia ("um pólipo de coral imenso que pode chegar ao tamanho de uma pizza"), entre outros. Wagner tem sete aquários em seu apartamento, contendo 1,7 mil litros de água. Ele compra e negocia corais de outros adeptos do hobby no Arizona, bem como em lojas especializadas e lojas de peixes.

Wagner diz gastar de US$ 750 (R$ 3.800) a US$ 1,5 mil (R$ 7.700) por mês em materiais e equipamento. Ele espera que um dia esse dispendioso hobby comece a dar lucro, e que ele possa adotá-lo como trabalho de tempo integral.

"Em lugar de tentar poupar para competir com a inflação ou para comprar uma casa dentro de cinco anos, o que para mim não faz sentido no momento, quero me dedicar a essa paixão", ele disse. "Há incerteza demais no mundo, e a Covid deu um lugar de destaque às paixões".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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