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Descrição de chapéu The New York Times

Drag kings ganham maior visibilidade com apresentações online na pandemia

Nascidas mulheres, artistas se destacam com bigode e roupa masculina

O drag king Tenderoni, 32 Evan Jenkins - 21.fev.2021/The New York Times

Frank DeCaro
The New York Times

Que um artista drag de Chicago esteja se preparando para uma competição virtual de talentos, não deveria ser um assunto cabeludo, mas a apresentação de Tenderoni, 32, é motivo para colocar a peruca.

O evento se chama Drag Queen of the Year 2021. Mas a despeito de seu pendor por dublar canções de Missy Elliott, Tenderoni não é uma drag queen. Ele é um drag king, o que em geral quer dizer um artista nascido mulher mas que sobe ao palco em roupas masculinas –com bigode desenhado a lápis, faixas elásticas comprimindo os seios e tudo mais.

Tenderoni, diz seu criador, “é uma combinação de Michael Jackson, Bobby Brown, Prince, George Michael e Boy George”. É drag, é cosplay e, o artista espera que seja o suficiente para vencer.

Embora o uso de fantasias andróginas nessa direção nada tenha de novidade –Marlene Dietrich ficou famosa por inflamar as libidos ao usar cartola e um smoking em “Marrocos”, clássico do cinema de 1930–, os drag kings tendem a ser um segmento menos exposto e menos apreciado do mundo do drag.

Os fãs casuais que veem suas apresentações de drag na televisão, ou como acompanhamento de um “brunch”, talvez nem tenham ouvido falar dessa prática.

“No passado, muitos membros de nossa audiência não compreendiam, o conceito de um drag king”, diz Chad Kampe, produtor que organiza “brunches” com shows de drag muito populares, em Minneapolis, desde 2012. “Muitas pessoas parecem ter dúvidas”. E a principal dessas dúvidas é “o que diabos é um drag king”?

Mas agora o mundo drag ganhou circulação comercial mais ampla. A estreia da temporada 13 de “RuPaul’s Drag Race”, no canal VH1 em 1º de janeiro nos EUA, atraiu 1,3 milhão de espectadores, a maior audiência na história da série –e artistas que exageram e exploram os traços visuais da masculinidade começam a receber maior atenção.

Ainda que não tenha surgido um drag king no programa de RuPaul (um homem trans chamado Gottmik, que se apresenta vestido de mulher, já apareceu, porém), os drag kings começam a obter mais exposição em outros lugares, e a pandemia surpreendentemente pode ter ajudado.

O fechamento dos bares e restaurantes prejudicou muito o faturamento da maioria dos artistas, mas a transição obrigatória para o entretenimento online pode ter ajudado a equilibrar o jogo.

“A Covid fez com que todo mundo tivesse de se tornar digital”, afirma Tenderoni, que desenvolveu seu número na casa noturna Berlin, em Chicago. “Isso tornou as audiências muito maiores para apresentações em drag de todos os tipos. Fiz shows e espectadores me disseram ser do Brasil, de Londres. As portas parecem ter sido abertas”.

"UM LUGAR À MESA"

O concurso Drag Queen of the Year encara esse tipo de diversidade como missão. “Trabalhamos com homens trans e mulheres trans, com drag kings e com todo tipo de artista diferente, durante toda a nossa vida”, diz Alaska 5000, 35, que venceu o “RuPaul’s Drag Race All-Stars” e criou o concurso com uma colega drag queen, Lola LaCroix, em 2019.

Por que, as duas conversaram em um voo noturno de volta para casa depois de um show, os artistas não podiam competir uns com os outros apesar das diferenças, e celebrar uns aos outros? “Todo mundo tem algo a provar, e todo mundo tem muito a contribuir”, diz Alaska 5000. “O que as pessoas fazem não é só válido, mas lindo”.

Para esse fim, Tenderoni vai concorrer com sete outros artistas de drag –alguns barbudos, corpulentos e burlescos, alguns curvilíneos como Jessica Rabbit, alguns conhecidos por envolver os músculos em lingerie– pela coroa de Drag Queen do ano, em um evento transmitido pela plataforma Session Live.

Pouco importa se ele vencerá ou não. “Isso nos dá um lugar à mesa”, disse Tenderoni, que começou a se apresentar como drag king menos de cinco anos atrás. “O drag é um bufê. Não preciso ser o prato principal. Só quero estar incluído”.

Ao aparecer no concurso, ele conquistará uma vaga em uma irmandade de drag kings que, sob diversas denominações, existe há séculos.

Vesta Tilley e Hetty King imitavam homens e eram célebres nos palcos do “music hall” britânico no século 19. Stormé DeLarverie, uma ativista da casa noturna Stonewall de Nova York que preferia ser definida como “imitadora” do que como drag king, conseguia se fazer passar por homem, ao realizar turnês pelos Estados Unidos nas décadas de 1950 e 1960.

Nos anos 1980, a atriz e comediante Lily Tomlin interpretava Tommy Velour, um conquistador barato de Las Vegas com mais pelos no peito do que talento. Ele ainda vive, em toda sua hirsuta glória, no YouTube.

Em um episódio da série “Sex and the City” exibido em junho de 2000, Charlotte York (Kristin Davis) é mostrada de bigode e terno masculino, em uma foto exibida em uma exposição. O episódio (“Boy, Girl, Boy, Girl...) mostrava drag kings, mas apenas como figurantes.

Mais recentemente, “Vida”, uma série do serviço de streaming Starz sobre duas irmãs americanas de origem mexicana, teve participação de Vico Suave, drag king criado pelo ator não binário Vico Ortiz.

Tanya Saracho, a criadora da série, disse que desejava incluir drag kings no elenco porque eles são uma “iniciativa com baixa representação” no entretenimento “queer”. Ela diz que “o talento artístico está presente. Por que eles ainda não se tornaram parte da onda de sucesso comercial do drag que está acontecendo agora?”

Há 25 anos, os fãs tinham de deixar suas salas de visita muito para trás se desejavam ver apresentações de drag kings, que costumavam acontecer em plena madrugada em algumas casas noturnas underground.

Em Nova York, na época, isso queria dizer casas como o Flamingo East, na Segunda Avenida, East Village, em uma época em que o bairro era muito mais barra pesada do que agora.

“Aquela época nas casas noturnas era elétrica, pioneira e fascinante”, disse Murray Hill, 49, um humorista de Nova York conhecido como “o homem de meia-idade que mais trabalha no show business” desde que emergiu como drag king em 1995.

Sua primeira apresentação em drag foi como “um Elvis gordo e suarento”, para usar sua descrição, às 2h em uma festa realizada nas noites de domingo chamada Club Casanova, no Cake, um bar da Avenida C. “Era tudo muito underground”, ele diz.

Mo B. Dick, 55, o drag king que promovia as festas Club Casanova antes de se transferir para a costa oeste dos Estados Unidos em 2004, disse que a era “tinha drag kings que buscavam mais realidade. As pessoas queriam se fazer passar por homens”.

Os drag kings usavam pedacinhos cortados de seus cabelos para simular barbas e pelos de peito, em nome de entretenimento. A ilusão funcionava, mas esse tipo de transformação não impressionaria tanto hoje em dia.

Graças a próteses e trabalhos de pintura especializados criados por profissionais de efeitos especiais, como os vistos em “RuPaul’s Drag Race”, os artistas drag de todas as modalidades tiveram de melhorar seu desempenho.

“Agora, quando as pessoas vão ao bar drag de seu bairro, elas querem ver a mesma coisa que veem na televisão”, diz Kampe, o produtor de Minneapolis, que encoraja os artistas a “investirem continuamente em novos looks”.

Dick acredita que o padrão tenha subido. “Essa garotada de hoje em dia, é um prazer para mim perceber o quanto eles são extraordinários”, disse Dick. “Agora há mais arte e mais maquiagem. Ser um drag king ficou mais ‘draggy’. O senso de espetáculo é fenomenal”.

Em um bom “brunch”, ele aponta, “os artistas realizam três ou quatro mudanças de figurino em um show de uma hora de duração”.Um tributo realizado por drag kings em 2018 às boy bands Backstreet Boys e ‘N Sync, em uma casa noturna de Minneapolis chamada Union Rooftop, atraiu tanta audiência que Kampe disse que teve de realizar seis shows para atender à demanda.

Dick recentemente criou um site, dragkinghistory.com, para ajudar novas audiências a aprender sobre o passado dessa forma de arte. Em 21 de fevereiro, ele celebrou os drag kings veteranos em um evento online internacional chamado “Drag King Legends”.

O show, pago, trazia artistas conhecidos como Fudgie Frottage, de San Francisco, Flarington King, de Toronto, e Ken Vegas, de Washington. Todos os três se apresentam como drag kings há 25 anos ou mais.

Hill que talvez possa ser definido como a RuPaul dos drag kings, foi a atração principal da noite. Nos próximos meses, ele interpretará papeis em três séries de TV importantes: “Love, Beth”, de Amy Schumer, no serviço de streaming Hulu; “Somebody Somewhere”, de Bridget Everett, na HBO; e na adaptação americana da sitcom britânica “This Country”, interpretando um mágico. “Ter um papel regular na TV era algo que eu desejava desde que comecei, 25 anos atrás”, diz Hill.

Paul Feig, diretor e produtor de “Missão Madrinha de Casamento” e das séries “Freaks and Geeks” e “Zoey e a sua Fantástica Playlist ”, afirmou em um email que “sou grande fã de Murray há muito tempo. Quando Jenny Bicks e eu vendemos a adaptação de ‘This Country’ para a Fox, um dos meus primeiros objetivos era tê-lo na série. Amo pessoas talentosas que vejam o mundo de um jeito único, e faço o que posso para lhes dar oportunidades de brilhar”.

A maioria dos drag kings continua a enfrentar dificuldades, no entanto. “Os drag kings estão ganhando popularidade em muitas grandes cidades dos Estados Unidos, mas não recebem as mesmas oportunidades que as queens”, diz Kampe.

Os shows ao vivo em muitos casos são organizados por promotores homens, que podem não perceber o valor artístico do trabalho dos drag kings. “Muitas vezes, um show tem uma dúzia de drag queens e só um drag king”, afirma Kampe.

“Os drag kings enfrentam a mesma discriminação que as mulheres, no trabalho, e muitas vezes ganham menos”. Outro obstáculo, como aponta Dick, é que as audiências “não necessariamente veem comédia em uma mulher de terno. A masculinidade feminina ainda assusta muita gente”.

Existe menos teatralidade inerente e, até recentemente, nem tanto glamour, nos shows em drag masculino. E as pessoas estão muito mais acostumadas a ver mulheres de calças do que homens de saia. “Fazer um personagem homem é muito mais difícil que fazer uma personagem mulher”, diz Alaska 5000. “Não é tão interessante olhar para homens”.

"REINANDO NA ESCURIDÃO"

Mas os drag kings mais empolgantes estão dando um jeito, espetacularmente. Landon Cider, 39, de Long Beach, Califórnia, por exemplo, foi o primeiro drag king a vencer um reality show nos Estados Unidos, em 2019, quando ele levou para casa o título de “novo supermonstro drag do planeta”, em “The Boulet Brothers’ Dragula”, uma série da Netflix que parece uma versão gótica de “RuPaul’s Drag Race”.

Usando maquiagem de qualidade digna de um filme de terror, que ele mesmo desenvolveu, Cider comeu aranhas vivas em um episódio, e usou uma fantasia manchada de sangue do Homem de Lata do Mágico de Oz, em outro, no qual ele também carregava um machado.

Cider foi o único drag king a participar da competição, mas venceu, em toda sua sanguinolenta glória. “Reinamos na escuridão há muito tempo”, ele diz. “Agora há mais luz brilhando sobre nós. Se as audiências acham que estão vendo só uma lésbica usando as roupas do pai, entendo como um desafio, e tenho algo a lhes provar”.

Um concurso online não é “RuPaul’s Drag Race”. Mas é alguma coisa. “Ver drag kings se apresentando nessas plataformas e se saindo bem é mais um golpe contra a misoginia na comunidade drag”, diz Hugo Grrrl, 29, artista da Nova Zelândia que em 2018 venceu um concurso televisivo chamado “House of Drag”.

Grrrl, que mudou de “travesti de bigodes”, em suas próprias palavras, para homem trans nos anos transcorridos desde sua vitória, diz que “as audiências estão aprendendo que o trabalho dos drag kings é tão transformador, artístico e interessante quanto o das drag queens. E eles usam o mesmo tanto de maquiagem, glitter e acessórios”.

Com nomes como Vigor Mortis, Spikey Van Dykey, Jack Rabid e Freddie Prinze Charming, os novos drag kings surgem em casas noturnas pouco conhecidas em cidades de todo o mundo, nem tão diferentes das casas da década de 1990.

Em Nova York, coletivos como o Switch ’N Play, de Brooklyn, liderado pelo “sex-symbol” K. James, que se inspira no burlesco; Night Gowns, uma série de eventos organizados por Sasha Velour, vencedora de “Drag Race”; e o Cake Boys, de Queens, vêm se provando terreno fértil.

Tipicamente, os artistas mais jovens ignoram completamente as linhas divisórias de gênero. Como diz Grrrl, “no momento, se você não tem um ‘artista AFAB’ –ou seja, uma mulher cisgênero, homem trans ou pessoa não binária vestida como drag queen– ou um drag king em seu elenco, você está agindo errado”.

O futuro do drag, ele diz “vai ser uma tremenda confusão, e isso é maravilhoso, glamoroso e fantástico. Estamos todos descobrindo novas maneiras de espalhar alegria com a força das lantejoulas”.

Quando Damien D’Luxe, 34, drag king de Minneapolis, sobe ao palco, ele dubla um medley de “Hooked on a Feeling” e “Crocodile Rock”, vestido de Capitão Gancho. Mas usa botas de salto alto e cílios postiços que Bianca Del Rio mataria para conseguir.

Ele já se apresentou usando uma peruca empoada e mangas de rendas que parecem saídas do vídeo de “Rock Me, Amadeus”, de Falco, em1986, enquanto dublava “O Barbeiro de Sevilha” em italiano.

Um drag king às vezes precisa se esforçar muito para ser percebido. “Mais e mais kings estão reconhecendo que se fazer passar por um cara, embora exija muito esforço, dedicação e talento, não atrai tanta atenção”, disse Cider. “

O reino evoluiu para as cores vivas, figurinos brilhantes, adereços e glitter, porque é assim que você se destaca da multidão”. Especialmente se você vai dividir o palco com um grupo de drag queens de dois metros de altura.

“Não temos como competir no departamento do glamour”, diz Wang Newton, 42, drag king de origem asiática que, em seu número, testa os limites da correção política, em um figurino clássico de Las Vegas. Mas isso não significa que os drag kings não tenham como competir.

“Não fazemos ‘death drops’, mas temos nossa própria coisa”, diz Newton. “É uma área completamente nova, que agora pode ser explorada”.

E cada vez mais artistas estão fazendo isso. “Vejo meninas e artistas de todos os gêneros que cinco anos atrás talvez tivessem escolhido o burlesco, e agora acham que ser drag king é a maior forma de arte”, diz Grrrl. “É um espaço muito interessante a ocupar. A masculinidade é algo que merece ser alvo de zombaria”.

  Tradução de Paulo Migliacci

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