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Descrição de chapéu The New York Times

Programador alemão esquece senha da carteira digital e pode perder mais de R$ 1 bilhão

Só restam duas tentativas para acertar antes do fechamento permanente do cofre

Stefan Thomas in San Francisco on Dec. 23, 2020. Thomas, a programmer, owns 7,002 Bitcoin that he cannot access because he lost the password to his digital wallet. (Nicholas Albrecht/The New York Times)

Stefan Thomas é um programador que não pode mais acessar sua fortuna por ter perdido a senha NYT

Nathaniel Popper
The New York Times

Restam duas chances para que Stefan Thomas, um programador nascido na Alemanha e radicado em San Francisco, acerte uma senha que, esta semana, lhe daria acesso a US$ 220 milhões (mais de R$ 1 bilhão)

A senha permitiria que ele acessasse um pequeno hard drive, conhecido como IronKey, que contém as chaves privadas de acesso a uma carteira digital que detém 7.002 bitcoins. Embora o preço do bitcoin tenha caído acentuadamente na segunda-feira (11), continua mais de 50% acima da cotação do mês passado, quando bateu seu recorde histórico anterior de cerca de US$ 20 mil.

O problema é que Thomas perdeu há anos o papel onde tinha anotado a senha do IronKey; o aparelho oferece aos usuários 10 chances de acertar a senha antes que bloqueie o acesso e criptografe o conteúdo do drive de maneira intransponível e de modo permanente. Ele já tentou oito das formulações de senha que usa mais frequentemente – sem resultado.

“Eu ficava deitado na cama pensando a respeito”, diz Thomas. “E aí ia ao computador com alguma estratégia nova, e não funcionava de novo, e eu voltava a ficar desesperado”.

O bitcoin, que está passando por uma corrida extraordinária, e registrando extrema volatilidade, nos últimos oito meses, enriqueceu muitos de seus detentores rapidamente, enquanto a pandemia do coronavírus devastava a economia mundial.

Mas a natureza incomum da criptomoeda também significa que muita gente tem impedido o acesso a suas fortunas em bitcoin, como resultado de senhas esquecidas. E essas pessoas se veem forçadas a assistir, impotentes, enquanto o preço sobe e cai acentuadamente, sem que possam desfrutar de sua riqueza digital.

Dos 18,5 milhões de bitcoins em circulação, cerca de 20% - ou US$ 140 bilhões, à cotação atual – parecem estar em carteiras eletrônicas perdidas ou às quais não há acesso recente, de acordo com a Chainanalysis, uma empresa que acompanha dados sobre criptomoedas. A Wallet Recovery Services, uma empresa que ajuda a encontrar chaves digitais perdidas, disse estar recebendo 70 pedidos ao dia, de pessoas em busca de ajuda para recuperar suas riquezas, um número três vezes mais alto que o registrado um mês atrás.

Os detentores de bitcoins que perdem o acesso às suas carteiras digitais falam de dias e noites intermináveis de frustração, enquanto buscam acesso às suas fortunas. Muitos detêm a moeda desde os dias iniciais do bitcoin, uma década atrás, quando ninguém confiava em que a nova moeda teria valor real um dia.

“Ao longo dos anos, passei centenas de horas tentando recuperar o acesso a essas carteiras”, disse Brad Yasar, um empreendedor de Los Angeles que têm alguns computadores que abrigam milhares de bitcoins que ele criou, ou minerou, nos dias iniciais da tecnologia.

Embora esses bitcoins hoje valham centenas de milhões de dólares, ele perdeu suas senhas muitos anos atrás, e colocou os discos rígidos que as contêm em embalagens seladas a vácuo e armazenadas em um lugar em que ele não possa vê-las. “Não quero ser lembrado a cada dia de que o que tenho hoje é uma fração do que poderia ter e perdi”, ele disse.

O dilema é um lembrete severo sobre a base tecnológica incomum do bitcoin, que o distingue do dinheiro normal e gera algumas das qualidades mais elogiadas – e de maior risco – da moeda digital. No caso de contas de banco e carteiras online tradicionais, bancos como o Wells Fargo e companhias financeiras como o PayPal são capazes de fornecer aos clientes as senhas de suas contas, ou restabelecer o acesso em caso de senhas perdidas.

Mas o bitcoin não conta com uma companhia que forneça ou armazene senhas. O criador da moeda virtual, uma figura nebulosa conhecida com Satoshi Nakamoto, disse que a ideia central do bitcoin é permitir que qualquer pessoa do planeta abra uma conta bancária digital e guarde seu dinheiro nela de uma forma que governo algum possa bloquear ou regular.

Isso é tornado possível pela estrutura do bitcoin, governada por uma rede de computadores que concordam em seguir um software que contém todas as regras da criptomoeda. O software inclui um complexo algoritmo que torna possível criar um endereço, e uma chave privada de acesso, conhecida apenas pela pessoa que criou a carteira.

O software também permite que rede do bitcoin confirme a exatidão da senha a fim de permitir transações, sem que a rede possa ver ou saber a senha em si. Em resumo, o sistema torna possível que qualquer pessoa crie uma carteira de bitcoins sem ter de se registrar com uma instituição financeira ou passar por qualquer forma de verificação de identidade.

Esse aspecto tornou o bitcoin popular entre os criminosos, que podem usar o dinheiro sem revelar sua identidade. Também atraiu pessoas em países como a China e a Venezuela, onde governos autoritários são conhecidos por confiscar ou fechar contas bancárias convencionais.

Mas a estrutura do sistema não leva em conta os problemas que as pessoas podem ter para se lembrar de suas senhas, ou protegê-las devidamente.

“Mesmo investidores sofisticados se provaram completamente incapazes de administrar devidamente suas chaves privadas”, disse Diogo Monica, um dos fundadores de uma startup chamada Anchorage, que ajuda empresas a criar segurança para o uso de criptomoedas. Monica criou a companhia em 2017, depois de ajudar um fundo de hedge a retomar o acesso a uma de suas carteiras de bitcoins.

Thomas, o programador, disse que o que o atraiu no bitcoin foi em parte o fato de que a moeda não estava sob o controle de um país ou de uma empresa. Em 2011, quando ele morava na Suíça, ele recebeu os 7.002 bitcoins de um dos primeiros seguidores dedicados da moeda, como recompensa por fazer um vídeo de animação, “o que é o bitcoin?”, que foi a introdução de muita gente à tecnologia.

Naquele ano, ele perdeu as chaves digitais de acesso à carteira que detinha os bitcoins. Desde lá, o valor do bitcoin disparou e caiu numerosas vezes, e ele não teve acesso ao dinheiro. Thomas agora já não aprecia tanto a ideia de que as pessoas devem servir como banco para si mesmas e guardar o próprio dinheiro.

“Essa ideia de que cada pessoa pode ser seu próprio banco – olha, vou explicar assim: você quer fazer seus próprios sapatos?”, disse Thomas. “O motivo para que tenhamos bancos é que não desejamos lidar com todas essas coisas com as quais os bancos lidam”.

Outros adeptos do bitcoin também perceberam as dificuldades de operar como seus próprios bancos. Alguns terceirizaram a responsabilidade por reter os bitcoins para startups e bolsas que protegem as chaves privadas que dão acesso às posições pessoais dos clientes em moeda virtual.

Mas muitos desses serviços encontraram dificuldades para proteger suas chaves. Muitas das maiores bolsas de bitcoins ao longo dos anos – entre as quais a Mt. Gox, que foi uma das mais conhecidas – perderam chaves de acesso privadas ou as tiveram roubadas.

Gabriel Abed, 34, um empreendedor de Barbados, perdeu cerca de 800 bitcoins – em valor atual cerca de US$ 25 milhões – quando um colega formatou um laptop que continha as chaves para uma carteira de bitcoin em 2011.

Abed diz que isso não atenuou seu entusiasmo. Antes do bitcoin, disse, ele e seus compatriotas não tinham acesso a produtos financeiros digitais com preços convenientes, tais como os cartões de crédito e contas-correntes facilmente disponíveis para os americanos. Em Barbados, até mesmo registrar uma conta no PayPal era praticamente impossível, ele disse. A natureza aberta do bitcoin, afirma Abed, lhe deu acesso integral ao mundo financeiro digital pela primeira vez.

“O risco implicado em ser meu próprio banco vem acompanhado pela recompensa de ter livre acesso ao meu dinheiro e ser um cidadão do mundo – isso vale o preço”, disse Abed.

Para Abed e Thomas, quaisquer prejuízos causados pela perda das chaves privadas de código foram compensados em parte pelos imensos ganhos que realizaram com os bitcoins que conseguiram reter. Os 800 bitcoins que Abed perdeu em 2011 representam apenas uma pequena fração do total de criptomoeda que ele comprou e vendeu desde então, o que lhe permitiu recentemente adquirir uma propriedade de 40 hectares de frente para o mar, em Barbados, por US$ 25 milhões.

Thomas disse que ele também reteve bitcoins suficientes – e com senhas de que se lembra – para torná-lo mais rico do que ele poderia imaginar. Em 2012, ele começou a trabalhar com uma startup de criptomoeda, a Ripple, cujo objetivo era melhorar o bitcoin. Foi compensado na moeda própria da Ripple, o XRP, que subiu de valor.

(A Ripple recentemente enfrentou dificuldades legais, em parte por os seus fundadores terem controle demais sobre a criação e distribuição da moeda XRP.)

Quanto à sua senha perdida e bitcoins inacessíveis, Thomas tem o drive IronKey guardado em um local seguro – que não revela –, caso os especialistas em criptografia venham a desenvolver novas maneiras de quebrar senhas complexas. Mantê-lo longe o ajuda a tentar não pensar a respeito, ele diz.

“Cheguei a um ponto em que eu disse a mim mesmo que era melhor deixar isso no passado, pelo bem de minha saúde mental”, ele afirma.

Tradução de Paulo Migliacci

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