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Do interior do Amazonas a digital influencer premiada em Mônaco: a história de Cacau Sitruk

Cacau Sitruk
Do interior do Amazonas a digital influencer premiada em Mônaco: a história de Cacau Sitruk - RFI
Descrição de chapéu RFI
Elcio Ramalho

Em uma luxuosa cerimônia no Principado de Mônaco, no início de outubro, Cacau Sitruk recebeu o prestigioso troféu de digital influencer na categoria filantropia. A homenagem rendeu mais projeção para o trabalho e a história de uma mulher singular, que deixou para trás a pobreza do interior do Amazonas para se tornar uma das embaixadoras de marcas de luxo nas redes sociais.

No tapete vermelho da 2ª edição do “Influenceurs Awards”, que muitos veículos de imprensa já apelidaram de “Oscar dos influencers”, a amazonense Cacau Sitruk dividiu os holofotes e selfies com personalidades conhecidas e que fazem um sucesso estrondoso no mundo virtual, como a francesa Lea Elui, que tem mais de 10 milhões de seguidores no Instagram.

“Eu gritei, não acreditei que era eu”, lembra Cacau quando soube que seu nome figurava na lista de vencedores do prêmio. Ela se inscreveu, mas não esperava no fundo ser contemplada pelo trabalho filantrópico que a faz se sentir conectada com suas raízes.

“A maioria das pessoas gosta de ajudar a África. Mas eu resolvi ajudar as pessoas de onde eu nasci”, explica a amazonense, fundadora da Associação Parisienne de l’Amazonie (Parisiense da Amazônia). O nome foi inspirado na sua própria história. Até os 15 anos de idade, Cacau vivia em uma casa com a família em uma pequena estrada, distante duas horas de caminhada do centro de Benjamin Constant, no noroeste da Amazônia, na fronteira com a Colômbia.

Cresceu nadando entre jacarés e piranhas, mas quis saber o que tinha no final do rio Javari, onde a vista não mais alcançava. “Uma vez estava bem longe, com uma canoa eu ouvi minha mãe gritar: onde você está indo, menina? Estou indo procurar o mundo”, respondeu Cacau. “É que certa vez, ao perguntar o que tinha no final do rio, minha mãe respondeu: É o mundo”, recorda.

Mas foi apenas aos 15 anos que a jovem deixou a pequena comunidade para se mudar para a capital. “Minha irmã tinha sido sorteada com uma casa do governo. Foram 10 dias de barco até Manaus”, conta. Na cidade, a família com 10 integrantes se instalou em uma casa de 25 metros quadrados em um bairro sem energia elétrica nem água encanada.

Foi na sala de aula do bairro Santa Etelvina, onde parte da família ainda mora, que sua vida começou a mudar. Ao ver um slide de uma foto da Torre Eiffel, projetou-se um lugar que nunca tinha ouvido falar. Ao perguntar onde ficava o famoso monumento, reagiu: “É muito longe. Como eu vou fazer?”, perguntou. “Fazer o quê?”, perguntou a professora. “Para morar lá”, respondeu.

 A DOIDA QUE FOI PARA PARIS

“Eu era conhecida como a louca do bairro, a doida que vai para Paris”, lembra, sorrindo. Depois de perder a mãe, aos 30 anos, começou a concretizar o plano cultivado desde a adolescência. Ela deixou o trabalho de promoter e recepcionista de festas nas noites manauras para finalmente viajar para a Europa.

A ideia inicial era desembarcar na Espanha, onde uma amiga tinha arrumado um trabalho de babá. Mas antes, passou pela capital francesa onde tinha intenção de ficar quatro dias, e nunca mais foi embora.

Sem falar a língua, Cacau foi faxineira e babá de crianças em Paris durante dois anos. Ficou como residente em situação irregular no país, antes de se casar com um francês e trabalhar com ele no “mercado de pulgas” da cidade, em meio a muitos antiquários. Além da experiência, manteve o sobrenome judeu do ex-marido.

Com o fim do casamento, Cacau investiu suas forças na Associação Parisienne de l’Amazonie e construiu uma forte reputação na rede social Instagram, atualmente com mais de 118 mil seguidores.

A exposição rendeu contratos com marcas de luxo, de roupas e acessórios, que pagam por fotografias exibidas nas redes sociais, seja em Paris ou muitos outros lugares. Ela diz investir o dinheiro com o trabalho de influencer para a Associação que cuida de 42 crianças que vivem na mesma estrada de Benjamin Constant, onde ela morava.

“As crianças têm muita dificuldade de ir para escola porque é uma estrada de barro. São duas horas de caminhada até chegar ao centro da comunidade e poder frequentar as aulas”, explica. O dinheiro é enviado para Tabatinga, onde uma irmã que ainda mora no local vai buscar para depois comprar material escolar, uniformes e calçados para as crianças.

“Meu trabalho é voltado para eles, onde vivi o mesmo da minha infância. Quis ajudar essas crianças para terem uma melhor educação”, afirma. 

“Criei meu Instagram pensando na missa Associação. Não queria ser apenas uma influencer, mas uma influencer que ajuda as pessoas. Não queria apenas mostrar coisas bonitas, mas para ajudar e falar da Parisienne de l’Amazonie”, acrescenta. 

O sucesso nas redes sociais, ela atribui à sua “honestidade, naturalidade, e espontaneidade”.  “Eu falo muito o que vem na minha cabeça e, pelo que ouço, as pessoas gostam. Sou alegre, mostrou como eu sou, sem maquiagem. Hoje eu tenho uma outra condição, mas nunca escondi de onde venho e o que fiz”, conta.

Apesar de viver e sustentar sua associação com o trabalho no ambiente virtual, ela aconselha não ficar olhando demais a vida alheia e as imagens veiculadas apenas pelas redes sociais. “Cada um só mostra o que quer mostrar. Ninguém sabe o que está por trás. Tento influenciar as pessoas no sentido de que elas devem lutar pelo que querem. Tento inspirar as pessoas com minha história. Eu saí do rio Javari, de onde ninguém sai se realmente não lutar. Se eu consegui, qualquer pessoa pode conseguir”, afirma.

“Procuro meu Instagram para mostrar para as pessoas que se você trabalhar, tiver fé e não ficar sentado, você consegue. Isso para mim é ser influencer”, finaliza.

Veja a íntegra da entrevista.

RFI
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