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Caitlin Doughty diz que ser agente funerária lhe permitiu ver novos rituais e quer se comida por animais

Americana explora em 'Para Toda a Eternidade' novas formas de homenagear os mortos

Caitlin Doughty

Caitlin Doughty Instagram/thegooddeath

Fabiana Schiavon
São Paulo

A agente funerária americana Caitlin Doughty, 34, autora do best “Confissões do Crematório - Lições para Toda a Vida” (Dark Side Book, R$ 49,90, 256 pags.), visitou o Brasil para lançar o livro “Para Toda a Eternidade” (Dark Side Book, R$ 54,90, 224 pags.), obra em que relata todos os rituais de morte que viu em viagens pelo mundo.

Com muito bom humor, ela explora as diferentes maneiras de homenagear os mortos para cumprir uma missão: fazer com o que todo o mundo trate a morte com mais naturalidade. Porque ela é inevitável. Doughty passou a encarar a morte de outra forma após trabalhar na preparação de corpos de uma funerária, quanto tinha 22 anos.

Para promover uma reflexão sobre o tema, a agente reuniu casos em que viu em seu primeiro livro, “Confissões do Crematório”. Já em “Para Toda a Eternidade”, ela vai além da cultura americana e mostra como os mortos são homenageados ao redor do mundo.

As experiências que ela teve fora do mundo ocidental são as que chamam mais atenção. Na Indonésia, por exemplo, um corpo pode ser mumificado e permanecer na casa da família por mais de dois anos. Em outro lugar do mundo, há uma tribo indígena, ainda, que deixa os corpos elevados em uma estrutura ao ar livre até chegar o dia do funeral, que ocorre uma vez por ano. 

Todos esses costumes têm um significado e, por isso, a escritora diz que não ser possível definir qual é a melhor maneira de dizer adeus aos seus entes queridos. “Cada um cresce em uma cultura e entende nela o que é o mais respeitoso de se fazer em um funeral”, afirma Doughty. 

“O que vi é que todo mundo sofre, todo mundo passa pelo luto, todos têm seus rituais para honrar os seus mortos e eles podem ser completamente diferentes. Os filhos podem colocar seus pais junto a uma estátua de Buda de LED ou podem simplesmente envolvê-los em um pano e enterrá-los. Nenhuma das formas pode ser considerada melhor que a outra”, afirma a autora.

Nascida nos Estados Unidos, ela defende novos formatos de funerais. Um dos rituais que ela descreve de forma poética em seu livro, ocorre em Crestone, no Colorado, e passou a ser adotado por pessoas de outras regiões do país, interessadas naquela maneira de se despedir dos parentes e amigos. Lá, os corpos são queimados em um pira, e todos passam à noite assistindo à queima.

Para Doughty, esse foi um dos funerais mais bonitos que já viu. “É meu preferido porque reúne toda a comunidade, que fica assistindo o corpo queimar nas chamas. É muito bonito ver a fumaça subindo como se fosse um tornado. É algo incrível de se fazer parte”, conta a autora.

Mesmo assim, não é dessa forma que ela vê seu próprio fim. Doughty quer que seu velório seja na sala de estar de sua casa, cheia de amigos conversando e se divertindo ao redor de seu corpo. “Ficarei feliz se a imagem do meu corpo for filmada e transmitida pela internet, porque a minha principal premissa é mostrar que está tudo bem, que não há nada de errado com um corpo morto e que não é assustador. Vou usar o meu próprio corpo por essa causa." 

Ela quer que todo mundo a toque, a observe para ter a certeza de que está tudo bem. Aliás, não será mais nada além de um corpo morto. Doughty também não planeja ser enterrada nem mesmo cremada. “Quero que meu corpo seja devorado por animais. Passei a vida toda comendo animais e, quando eu morrer, quero que eles tenham a vez deles”, diz Doughty. "Sei que isso não é comum nos Estados Unidos atual, mas pode ser que isso mude até a minha morte."

A agente afirma que descobriu essa forma de funeral no Tibet. “Os corpos são deixados aos abutres, que levam o corpo para um passeio pelas incríveis montanhas do Tibet”, conta ela, ao imaginar a beleza da paisagem. 

Ao passar pelo Brasil para o lançamento do livro, Doughty diz ter achado bastante positivo a forma como os brasileiros são encorajados a permanecer perto do corpo durante o velório. O ponto fraco disso, na visão dela, é que o funeral acontece muito rápido e nem mesmo quem mora em outra cidade ou país consegue chegar a tempo de fazer parte desse ritual. “Parece algo mais cultural, como se as pessoas fizessem aquilo só porque elas têm de fazer”, conclui. 

Doughty lembra que a refrigeração é comum, principalmente nos Estados Unidos, quando os funerais ocorrem dias depois da morte e são bem planejados –como no já citado ritual da Indonésia, em que o corpo é mumificado e vive na casa dos familiares por anos. 

Além de desmistificar a morte, Doughty diz que há ainda um grade desafio de melhorar os funerais de grandes cidades. Ela afirma que em cidades pesquenas, "é possível fazer tudo com mais calma, mas se você está em Los Angeles ou em São Paulo, é tudo muito burocrático, porque tem tanta gente, tantas coisas a se resolver." 

Além de escritora e fundadora do grupo The Order of the Good Death (que une profissionais, acadêmicos e artistas para falar sobre a mortalidade), a americana é youtuber e conta histórias fabulosas no canal Ask a Moritician (Pergunte ao Agente Funerário).

Em um dos vídeos mais recentes, ela conta que, ao escrever o livro, ela viajou bastante, claro, e além de comer, beber e visitar museus, ela foi a todos os cemitérios. “Você acha estranho ou assustador? Vá e veja como são lugares quietos, bonitos e revelam os costumes e a história daquela cidade”, diz a autora sorridente. 

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