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Descrição de chapéu The New York Times

Medalhista olímpico que faz tricô, Tom Daley fala em se tornar estilista

Artesanato ajudou atleta a superar a ansiedade do isolamento social

Atleta britânicoTom Daley

Atleta britânicoTom Daley Amber Bracken/NYT

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Hannah Wise
The New York Times

Algumas semanas atrás, sempre que as câmeras da Olimpíada de Tóquio focalizavam o atleta britânico Tom Daley, 27, dos saltos ornamentais, ele estava tricotando –à beira da piscina, no ônibus da equipe, sentado nas arquibancadas.

As agulhas e a lã se tornaram a assinatura de Daley –abaixo apenas da medalha de ouro que ele conquistou na competição. O BuzzFeed classificou seu trabalho manual como tão bom quanto seus saltos. E na mídia social, os devotos do tricô, do crochê e do artesanato elogiavam muito sua concentração e a firmeza de seus pontos.

Daley, foi uma das muitas pessoas que se voltaram ao artesanato, nos dias iniciais da pandemia, como uma espécie de bálsamo táctil para combater os momentos de ansiedade, e como um substituto para rituais que tivemos de abandonar. Ele estava treinando para os Jogos Olímpicos de 2020 havia quatro anos, e de repente eles foram tirados do calendário.

Daley e seus colegas de equipe estavam acostumados a ir à piscina todos os dias, e a seguir um regime de treinamento altamente disciplinado. O lockdown severo adotado no Reino Unido impediu que isso continuasse.

As almofadas de seu sofá se transformaram em acolchoado de treino para a prática de saltos e das manobras que tornam o esporte uma competição tão hipnotizante para os espectadores. Aulas de spin, corridas e sessões coletivas de exercício via Zoom se tornaram a norma. O tempo passado em casa significou que ele teve mais oportunidade de conviver com seu filho pequeno, Robbie, e seu marido, Dustin Lance Black. Mas Daley também estava à procura de um novo desafio –alguma coisa com que ocupar suas horas vagas.

Por sugestão do marido, Daley começou a assistir a vídeos com aulas de tricô no YouTube, quando viajou para uma competição no Canadá. “No começo, eu era horrível naquilo”, ele disse.

Os praticantes iniciantes do tricô e crochê sabem o quanto é difícil aprender as técnicas básicas dessas duas formas de artesanato apenas com a ajuda de vídeos. Mas depois de muita prática e consultas com diversos atletas e treinadores sobre as experiências deles com o artesanato, Daley conseguiu estabelecer uma base de trabalho.

“Com cada novo projeto que eu começava, eu queria aprender um novo ponto ou técnica”, disse Daley. “Fiquei completamente obcecado pelo tricô”.

Depois de dominar os pontos básicos do tricô, Daley começou a trabalhar para aprender as técnicas mais complicadas de tricotar com múltiplas cores, e em agosto acrescentou o crochê ao seu repertório de artesanato. Sua conta de artesanato no Instagram, @madewithlovebytomdaley, mostra as criações dele e kits de empresas como Wool and the Gang e We Are Knitters.

Quando ele chegou a Tóquio, o novo hobby de Daley se tornou ainda mais essencial. As medidas de segurança tomadas por conta da pandemia mantinham os atletas olímpicos isolados, o que lhes dava tempo de sobra para se obcecarem com cada mínimo movimento que fariam em suas provas. Tricotar se tornou não só uma forma de ocupar as horas de folga, para Daley, como uma maneira de administrar a ansiedade.

“Fiquei muito agradecido por ter o meu pequeno projeto de cardigan para me dar aquela distração saudável e ao mesmo tempo me ajudar a encontrar paz e calma”, ele disse.

Tom Daley faz tricô na arquibancada dos Jogos Olímpicos 2021 - Antonio Bronic - 2.ago.21/ Reuters

A Olimpíada de 2021 foi um divisor de águas para os atletas no que tange a questões de saúde mental, e levou alguns deles a priorizar seu bem-estar de preferência à competição. Porque seu trabalho leva o corpo ao limite, muitos atletas olímpicos saíram em busca de práticas restaurativas, como passar mais tempo com as pessoas queridas, escrever ou fazer terapia.

Alguns estudos apontam que tricô, crochê e outras formas de artesanato são capazes de aliviar sintomas de ansiedade, depressão e solidão. Os movimentos repetitivos que o artesanato requer são meditativos e requerem foco na tarefa, o que pode ajudar o artesão a encontrar uma maneira saudável de se distrair e evitar o estresse.

Em um estudo publicado em 2013 pelo British Journal of Occupational Health, os praticantes de artesanato reportavam se sentir mais calmos e mais felizes. E as comunidades criadas em torno do artesanato podem servir como conexão social necessária em nossas vidas, especialmente em períodos difíceis.

O tricô olímpico de Daley certamente ajudou a atrair mais atenção ao artesanato. Mas ele está usando a plataforma de que dispõe, e seu equipamento de tricotar, para muito mais. Daley regularmente faz rifas com as peças que produz, e doa os proventos para a Brain Tumor Charity, em memória de seu pai, Rob Daley, que morreu de câncer no cérebro em 2011.

Daley fez sua estreia olímpica aos 14 anos, nos Jogos de 2008 em Pequim. Ele conquistou medalhas de bronze na Olimpíada de Londres, em 2012, e na Olimpíada do Rio, em 2016. Nos anos iniciais de sua carreira, enfrentava “bullying” na escola e recebeu muita atenção indesejada da parte dos jornais sensacionalistas britânicos, o que incluía insinuações de que ele não levava a sério sua carreira nos saltos ornamentais.

Ao mesmo tempo, ele estava lamentando a perda do pai, e descobrindo mais sobre si mesmo. Depois de se apaixonar, ele anunciou por meio de um vídeo no YouTube em 2013 que era gay. “Conheci uma pessoa”, ele dizia no vídeo. “E ela me faz sentir muito seguro e muito feliz. Tudo está ótimo. E essa pessoa é um homem”. (O homem a que o vídeo se refere é o atual marido de Daley.)

Fora das piscinas, Daley se dedica ao ativismo LGBTQ. Ele disse que, quando era mais jovem, se sentia excluído. “Jamais imaginei que seria capaz de fazer qualquer coisa, porque eu não me via representado de qualquer maneira”, ele afirmou.

Mas muita coisa mudou em termos de representação nos esportes, desde que ele saiu do armário. Pelo menos 185 atletas participantes dos Jogos Olímpicos de Tóquio se identificaram publicamente como gays, lésbicas, bissexuais, transgênero, “queer” ou não binários, um total superior ao de todas as olimpíadas de verão precedentes combinadas, de acordo com a Outsport.

“O fato de que mais pessoas estejam assumindo suas identidades vai ajudar a inspirar a garotada ‘queer’ que ainda não sabe se vai conseguir realizar alguma coisa na vida”, disse Daley. “Quero tentar ajudar a continuar difundindo essa mensagem, com o objetivo de buscar nivelar a competição ao máximo para todos os interessados”.

Tóquio foi a participação olímpica mais bem-sucedida da carreira de Daley até o momento. Ele conquistou o ouro nos saltos ornamentais sincronizados em plataforma de 10 metros, com seu parceiro Matty Lee, e ficou com o bronze na plataforma de 10 metros masculina.

Para onde ele pretende ir, depois de voltar para casa com uma medalha de ouro, depois de se tornar meme, e depois de conquistar o mundo do artesanato? Para começar, Daley escreveu um livro de memórias, “Coming Up for Air”, que deve sair no final do ano. E também disse que está encarando com seriedade a ideia de se tornar estilista de tricô.

“Eu adoraria facilitar para as pessoas o processo de descobrir que elas são capazes de fazer sozinhas alguma coisa que viram em uma loja”, ele disse.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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