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Conselhos sentimentais na web melhoram autoestima e ajudam corações partidos

Psicólogos recorrem à internet e falam a quem sofre desilusão amorosa

Thais Belvisi é adepta dos conselhos sentimentais na internet - Folhapress
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Eligia Aquino Cesar
São Paulo

Nos anos 1980, a Blitz, banda que tinha entre seus integrantes Evandro Mesquita, 69, e Fernanda Abreu, 59, fez sucesso com músicas que são consideradas clássicas do rock nacional, como “A Dois Passos do Paraíso”. Em um dos trechos desta canção, Mesquita faz as vezes de um radialista que recebe a carta de uma ouvinte que se identifica pelo pseudônimo “mariposa apaixonada de Guadalupe” e conta esperar pela volta do noivo que sumiu. Ele, então, aconselha que o caminhoneiro “volte para o seio de sua amada”.

A música faz uma brincadeira com uma seção que já foi popular nos meios de comunicação: a de conselhos sentimentais. Não importa a qual geração a pessoa pertença, sofrer por amor é algo a que todos estão sujeitos. E se antigamente revistas e programas de rádio eram os canais que os desiludidos buscavam para pedir conselhos, hoje aqueles que sofrem recorrem também à internet não só para curar o coração partido, mas também para aprender lições valiosas que podem livrá-los de alguma cilada sentimental.

Com quase 60 milhões de visualizações no YouTube, a psicóloga Anahy D’Amico, 62, usa o poder de síntese que adquiriu ao longo de 17 anos como conselheira no programa Casos de Família (SBT), aliado à experiência clínica de quase 40 anos, para falar de relacionamentos. Ela conta que os pedidos de ajuda são tantos —diz ter 100 mil emails aguardando resposta— que pensa em criar um canal exclusivo para eles, o Anahy Aconselha.

A psicóloga afirma que vê nos conselhos online uma forma de terapia gratuita --que evidentemente não substitui uma consulta com um profissional, é importante ressaltar--, capaz de oferecer algum alento e sugerir rumo a quem está passando por uma desilusão amorosa. Segundo Anahy D’Amico, “não há dinheiro que pague” a satisfação de ver alguém dizer que conseguiu seguir em frente após assistir a um de seus vídeos.

“Sou muito chorona e emotiva, queria ser um pouquinho mais forte, mas, ao mesmo tempo, fico grata por não endurecer, porque para entender a dor humana vou na mesma sintonia e acho que é daí que vem a minha expressividade”, afirma. “Não sou Madre Teresa de Calcutá, mas levo isso como uma missão. Os vídeos são eficientes, sim, os conselhos funcionam e não dá para parar."

Quem também faz sucesso no mundo virtual é o psicólogo paraibano Marcos Lacerda, 53. Ele, que apresenta um quadro no jornalístico Bom Dia Paraíba, da TV Cabo Branco, afiliada da Globo em João Pessoa, tem também um canal no YouTube, o Nós da Questão, em que aborda problemas relacionadas à autoestima e dá conselhos sentimentais. A ideia de fazer um trabalho que vê como “contribuição social” nasceu do desejo de retribuir à sociedade o que foi investido em sua formação, com ensino superior e mestrado realizados na rede pública. Com 55 milhões de visualizações no canal, parece que tem dado certo.

“Não consigo entender que a sociedade invista em mim apenas para eu ganhar dinheiro e pagar minhas contas. Tenho que devolver alguma coisa, ao menos penso que essa deveria ser a mentalidade”, declara o profissional, que realiza atendimento clínico há 28 anos. “Pensei que a internet pudesse ser esse [canal para] democratizar a psicologia. Tanto que me recuso a cobrar para que as pessoas tenham acesso ao meu conteúdo. Escrevo livros, faço palestras, mas o canal é gratuito, não abro mão disso.”

Os vídeos mais vistos nos canais de ambos tratam de um mesmo assunto: os sinais que indicam que o seu relacionamento é uma roubada. Anahy e Lacerda se assemelham também pelos vídeos curtos, de cerca de dez minutos, e na linguagem --simples, direta e espontânea, sem textos prontos.

O destaque dos canais são mesmo os conselhos sentimentais, mas a paulistana e o paraibano não se furtam a, eventualmente, falar de assuntos mais sérios, como transtorno de personalidade narcisista, ansiedade e depressão. E ao contrário do que pode parecer, as dicas amorosas não atraem apenas solteiros buscando curar uma "dor de cotovelo", mas também pessoas comprometidas e casadas que tentam entender seus próprios sentimentos e procuram meios de manter a vida a dois saudável e feliz.

AJUDA VIRTUAL

Thais Helena de Melo Belvisi, 42, vê a internet como uma ferramenta capaz de ajudar principalmente quem não pode pagar um tratamento ou não tem com quem conversar. Casada há 15 anos e mãe de duas filhas, a estudante de psicologia diz que chegou aos canais de conselhos sentimentais por ter interesse no tema e também porque acredita que uma relação longa, como a dela, exige que o casal se reinvente constantemente.

“Os vídeos me ajudaram bastante, principalmente porque trazemos algumas feridas. Sempre me intrigou essa coisa de a pessoa se sentir preterida em algum momento. Certas atitudes do marido ou de um amigo já nos fazem pensar em rejeição, e às vezes não é isso”, diz Thais. “Tem um vídeo do Marcos Lacerda sobre rejeição no qual ele traz um ensinamento que vou levar para a vida: ninguém tem o poder de nos rejeitar, a pessoa só faz escolhas diferentes. Para mudar, é preciso estar disposto”, pondera ela.

Alexandre Moreira Guimarães Neto, 36, está entre os milhares de internautas que chegaram às páginas de conselhos sentimentais após sofrer uma desilusão amorosa. “Encaro como uma terapia diária. Claro que não substitui um tratamento tradicional, mas serve de estímulo para levantar um pouco a cabeça e seguir em frente quando não estamos num bom dia”, diz ele, que é cantor erudito e buscou forças nesse tipo de conteúdo para sair de um namoro que já não fazia bem para ele.

Thais e Neto têm um ponto em comum em relação aos vídeos a que assistiram: ambos entenderam que a chave para um relacionamento saudável é trabalhar a própria autoestima. Nesse sentido, o músico diz que uma frase muito usada por D’Amico o acompanha: "não se acostume com o que te faz mal". “Ajude-se e ame-se primeiro. Para poder se entregar a outra pessoa, tem que saber se amar acima de tudo”, afirma.

A estudante de psicologia faz coro: “É sobre conhecer seus pontos fortes e fracos e saber que você tem que se amar e se respeitar para depois entrar em uma relação, o que vale também para o casamento”, diz. “Falando assim parece simples, mas se a pessoa investir nisso perceberá que não é a respeito do outro, mas sobre ela mesma. É essencial entender que, se não for bom para os dois lados, está errado.”

DICAS DE OURO

A crença no amor romântico vendida como ideal em contos de fada, novelas e romances é apontada tanto por Marcos Lacerda como por Anahy D’Amico como grande responsável por arruinar a vida amorosa de muita gente, especialmente das mulheres.

“Elas acham que têm que fazer o amor dar certo, que são frágeis, que a responsabilidade do bom relacionamento cabe a ela, que se o marido trai é porque ela engordou ou está dando muita atenção aos filhos. O amor romântico faz a mulher achar que precisa ser salva”, diz a psicóloga, que escreveu sobre o assunto no livro “O Amor Não Dói”.

D'Amico argumenta que, com exceção das relações abusivas --em que a solução indicada é a separação, muitas vezes precisando de auxílio externo--, é necessário entender que o relacionamento é uma troca e exige igual empenho das partes envolvidas. “Você só vai fazer para mim aquilo que eu permitir. Falo isso para que principalmente as mulheres se conscientizem de que são fortes e aprendam a se defender e a escolher, e que entendam que muitas vezes a melhor opção é ficar sozinha.”

Alexandre Moreira Guimarães Neto usou os conselhos sentimentais na web para se curar de uma desilusão amorosa
Alexandre Neto usou os conselhos sentimentais na web para se curar de uma desilusão amorosa - Arquivo pessoal

Para D'Amico, um de seus conselhos mais valiosos é que a pessoa "ouça e preste atenção no maior radar que existe no mundo, que é o coração".

"Nós sabemos muito bem quando estamos sofrendo ou infelizes. Você pode estar com um sorriso no rosto, mas quando deita a cabeça no travesseiro, sabe que está sofrendo, que não está satisfeito, que você se sente inferior", afirma. "A mulher tem que entender que não é capacho", pontua.

Autor dos livros “Amar, Desamar, Amar de Novo: Como Garantir um Relacionamento Saudável e Feliz” e “Amar-se: Uma Viagem em Busca de Si Mesmo”, Marcos Lacerda destaca que não existe fórmula mágica para resolver problemas sentimentais. Ele crê que a forma como cada um lida com a questão está diretamente relacionada às próprias vivências.

“A função do psicólogo não é lhe dizer o que fazer, mas, sim, que você entenda o que está sentindo e o que quer fazer com isso”, esclarece. “É essencial compreender que não é possível dominar o que o outro faz. Cada um só tem controle sobre o que quer fazer com aquilo que sente. As pessoas têm que entender que o único poder que têm em uma relação é o de estar nela ou não. Não é possível mandar no outro."

Outro ponto que Lacerda destaca é que o amor é só um detalhe no relacionamento. “Posso perfeitamente amar alguém, me sentir amado por essa pessoa, mas entender que, apesar disso, não vale a pena, porque para viver com alguém é preciso mais do que amor”, sustenta ele, emendando que valores, princípios e objetivos similares são fundamentais para uma relação harmoniosa. “Uma pessoa muito religiosa dificilmente conseguirá viver com alguém que não acredita em nada; se for vegano, terá dificuldade em ficar com uma pessoa que maltrata animais”, exemplifica.

Ele afirma que para levantar a cabeça e seguir em frente é necessário compreender que momentos de infelicidade fazem parte da vida de qualquer um e que aprender a lidar com eles é essencial. “A vida não é feita somente de coisas boas, mas das ruins também, e tudo bem”, diz. E finaliza com seu conselho de ouro: “Você não morre sem o outro, só morre se não respirar."

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