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Multitarefas: como fazer várias coisas ao mesmo tempo pode estimular a criatividade

Novas pesquisas mostram que a multitarefa pode aumentar nossa criatividade
Novas pesquisas mostram que a multitarefa pode aumentar nossa criatividade - BBC News Brasil/Alamy
David Robson
BBC News Brasil

Sempre que me sento para escrever, gosto de reservar longos períodos para me concentrar no trabalho. Sem emails, telefonemas ou reuniões —somente eu e a página em branco.

Se preciso realizar várias outras tarefas, tento fazer uma pequena pausa para limpar minha mente antes de começar de novo. Isso porque sempre pensei que a criatividade exigia uma espécie de paz meditativa e tranquilidade de antemão. Mas parece que posso ter me enganado completamente na minha abordagem.

De acordo com um novo estudo, períodos de agitação em que realizamos várias atividades ao mesmo tempo —exatamente o que tento evitar— podem, na verdade, estimular nossa criatividade. Graças a um "efeito de difusão", a energia e o entusiasmo de trabalhos frenéticos podem levar a ideias mais originais.

É importante ressaltar que esse impulso cerebral parece se aplicar a diferentes tipos de criação, desde o desenvolvimento de planos de negócios originais até os floreios culinários de chefs especializados, sugerindo que pessoas de variadas profissões podem se beneficiar.

As descobertas mostram que todos nós podemos ser "um pouco mais oportunistas na forma como usamos a multitarefa", diz Shimul Melwani, professora de comportamento organizacional da Kenan-Flagler Business School da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, que foi coautora do artigo sobre o novo estudo em parceria com sua aluna de doutorado Chaitali Kapadia.

CUSTOS COGNITIVOS

No passado, os psicólogos viam decididamente com maus olhos a multitarefa. Vários estudos mostram que o cérebro tem dificuldade de conciliar duas atividades ao mesmo tempo e, em vez disso, se move rapidamente entre elas —com uma perda de precisão cada vez que desvia sua atenção.

Se você está escrevendo um email enquanto fala ao telefone, por exemplo, você perde temporariamente a capacidade de processar a conversa enquanto digita a frase. "Você fica mais ou menos surdo", diz Iring Koch, professor de psicologia da RWTH Aachen University, na Alemanha.

A mudança de foco levará a um lapso momentâneo em sua escrita, resultando em um erro de digitação ou falta de sequência. Para otimizar a precisão, você deve, portanto, dedicar toda sua atenção a cada atividade.

Todos esses estudos se concentraram nas consequências imediatas da multitarefa, enquanto Melwani e Kapadia estavam interessadas ​​no que viria depois. A criatividade muitas vezes envolve juntar pensamentos e ideias díspares, e isso pode se beneficiar de uma mentalidade mais difusa, em vez de um foco rígido.

Sabemos, por exemplo, que pedir às pessoas que contemplem ideias contraditórias e perspectivas conflitantes pode aumentar a flexibilidade e a originalidade de seu pensamento exatamente por esse motivo.

"Quando as pessoas têm duas informações separadas em suas cabeças, elas são de alguma forma capazes de agir e se envolver de maneiras mais criativas", explica Melwani.

E parecia fazer sentido que a multitarefa pudesse ter um efeito semelhante e nos fazer sentir energizados e alertas. Isso se reflete em nossa fisiologia. Quanto mais tarefas tentamos realizar, maior nossa frequência cardíaca, por exemplo. Essa energia, suspeitavam as pesquisadoras, também poderia melhorar a geração de ideias.

COLOCANDO EM PRÁTICA

Melwani e Kapadia colocaram isso à prova em uma série de experimentos. No primeiro, estudantes tinham que participar de uma teleconferência e responder a um email.

Para analisar os efeitos da multitarefa, alguns estudantes foram solicitados a responder o email enquanto participavam da teleconferência, enquanto outros podiam fazer as duas tarefas sequencialmente —sem nenhum malabarismo mental.

Depois, todos os participantes fizeram o teste de usos alternativos (AUT, na sigla em inglês) —forma padrão de medir a criatividade que envolve encontrar novas maneiras de usar um objeto doméstico familiar, como um tijolo.

Eles podiam sugerir que o tijolo pode servir como um peso de papel, por exemplo, ou uma arma, ou uma ferramenta auxiliar de mergulho —respostas que foram avaliadas quanto à sua originalidade por juízes independentes.

Em consonância com sua teoria, Melwani e Kapadia descobriram que os estudantes que realizaram multitarefas de fato apresentaram mais ideias inovadoras do que aqueles que puderam se concentrar em uma tarefa por vez.

É importante ressaltar que as pesquisadoras também testaram os participantes em um jogo de palavras que exigia pensamento analítico, em vez de criativo —mas não observaram melhora em seu desempenho.

Isso mostra que há algo único em relação ao próprio processo criativo que foi afetado. Para obter mais evidências, as pesquisadoras se voltaram para o programa de TV de culinária Chopped.

Em cada episódio, chefs profissionais são apresentados a um conjunto de "ingredientes misteriosos" e solicitados a criar e preparar aperitivos, entradas e sobremesas com base nos ingredientes que receberam.

Cozinhar cada prato requer uma certa quantidade de multitarefa —e Melwani e Kapadia queriam ver se isso afetaria a criatividade dos chefs na rodada seguinte. "Era quase perfeito para o tipo de criatividade que queríamos explorar", diz Kapadia, que agora é professora assistente na Florida International University, nos Estados Unidos.

Para testar sua hipótese, os pesquisadores recrutaram chefs profissionais para julgar a multitarefa dos concorrentes e a criatividade de suas receitas. Os resultados foram mais uma vez exatamente como haviam previsto.

Os chefs que realizaram mais multitarefas durante a rodada de aperitivos criaram entradas mais originais, e aqueles que realizaram mais multitarefas na rodada de entradas também tenderam a preparar sobremesas mais criativas.

Intrigada, Kapadia entrou em contato com alguns dos participantes para conversar. Curiosamente, as experiências deles pareciam ir ao encontro de sua teoria — que a multitarefa os deixava com energia, o que por sua vez ajudou a inspirar a criatividade posterior. "Se encaixou muito bem com o nosso modelo."

Os experimentos finais de Melwani e Kapadia visavam desvendar esse mecanismo em mais detalhes. Elas entrevistaram 105 garçons e garçonetes nos restaurantes em que trabalhavam, tanto nas noites mais movimentadas (sexta e sábado) quanto nas mais calmas (terça e quarta-feira).

Os funcionários foram solicitados a avaliar seus níveis de energia —se eles se sentiam "animados" e "estimulados". Também fizeram o teste de usos alternativos e, adicionalmente, foram solicitados a fazer o desenho de um alienígena de outra galáxia, que foi julgado por sua originalidade.

Aqueles com características mais humanas foram considerados menos originais do que aqueles com órgãos sensoriais incomuns.

Confirmando sua teoria, as pesquisadoras descobriram que quanto mais ocupados os funcionários do restaurante estavam e quanto mais eles precisavam realizar várias tarefas ao mesmo tempo durante o turno, mais energizados eles se sentiam.

Isso, por sua vez, aumentou a flexibilidade de pensamento deles no teste de usos alternativos e contribuiu para a inovação de seus alienígenas. Exatamente o mesmo "efeito de difusão" foi observado em alunos de escolas de negócios projetando brinquedos; quanto mais realizavam multitarefas, mais "ativos" se sentiam e melhor era a qualidade de suas ideias subsequentes.

CRIAÇÃO OPORTUNISTA

As descobertas de Melwani e Kapadia coincidem com um estudo intrigante de Stephen Wee Hun Lim, da Universidade Nacional de Singapura.

Ele descobriu que os níveis relatados pelas pessoas de "multitarefas relacionadas à mídia" —o hábito de enviar um WhatsApp ou checar o TikTok enquanto veem TV, por exemplo— se correlacionam com medidas de criatividade, como o teste de usos alternativos.

Mais pesquisas são necessárias para provar uma relação causal, mas é possível que o malabarismo regular de várias mídias possa levar o cérebro a ser um pouco mais flexível em seu pensamento, diz ele. Mas como será que podemos aplicar isso em nossas vidas?

Melwani reluta em sugerir que devemos buscar ativamente mais multitarefas, caso sejam desnecessárias —uma vez que isso pode aumentar nossos níveis de estresse. Em vez disso, sugere que sejamos um pouco mais "oportunistas" na maneira como planejamos nosso dia.

Ela mesma aplicou essa ideia durante a pandemia, usando a dupla demanda do trabalho remoto e da escola virtual dos filhos, responsabilidade que ela compartilha com o marido. "Minha vida envolveu muito mais multitarefas crônicas do que eu jamais imaginei", diz ela.

Melwani agora programa deliberadamente uma tarefa mais criativa após um período de aula virtual dos filhos, de modo que a energia e a flexibilidade cognitiva aumentada "transbordem" para a geração e execução de ideias.

Os gestores também devem se lembrar disso —e agendar uma reunião para pensar em novas ideias após uma tarefa energizante, por exemplo. Reconhecer esses potenciais benefícios da multitarefa pode nos ajudar a encarar os momentos em que estamos mais ocupados de forma um pouco mais positiva.

Já vimos como a procrastinação "se regenerou" graças aos seus benefícios criativos. Agora parece que a multitarefa pode passar por uma mudança semelhante. "É bom saber que nem sempre é ruim", diz Melwani.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Work Life.

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