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Famílias adquirem pets na quarentena e deixam os filhos mais felizes no Dia da Criança

Confira dicas e cuidados para relação forte e saudável entre criança e animal

Marcel e Viviane Nobre deram um cãozinho ao filho Théo Rubens Cavallari/Folhapress

São Paulo

Ter um animalzinho de estimação é tudo de bom. Agora quando ele chega num momento em que estamos fragilizados, como em meio a uma pandemia, pode ser melhor ainda. Segundo especialistas, essa relação entre o humano e o animal ajuda a lidar com depressão e ansiedade que podem surgir durante o distanciamento social. Sabendo disso, famílias resolveram adquirir pets na quarentena para tornar a vida mais alegre e o Dia da Criança mais especial.

A ansiedade das filhas foi o principal motivo para fazer com que a advogada Hadrianne Sander, 35, resolvesse presentear com um cão da raça Husky as pequenas Beatriz, 7, e Bárbara, 4. Em conversa com o marido, o médico Bruno Sander, 40, decidiram levar para a casa o animal com 30 dias de vida que recebeu o nome de Lobo Snow.

“A Bárbara roía as unhas das mãos e dos pés até sangrar durante a pandemia. E com a chegada do cachorro ela parou de vez. Esse hábito acabou com a chegada do bicho. Ela não tinha gasto de energia e agora tudo mudou. A chegada do Snow foi melhor do que um remédio”, define ela.

O Dia da Criança das duas será, talvez, o mais legal até hoje justamente por causa do novo melhor amigo. E será ele quem deverá ganhar presentes. “Elas agora já economizam dinheiro que eu dou para poderem comprar objetos para o Snow. Ele é o novo bebê da família”, diz Hadrianne.

Já fazia tempo que a analista fiscal Pamela Antunes Lopes, 30, queria adotar um gato para fazer companhia para ela e para sua filha, Maria Eduarda, 8. Só que foi durante a quarentena que ela encontrou o melhor jeito de fazer isso. Foi após ver a foto de uma bela gatinha no Instagram do projeto de resgate de animais Casa do Vira-Lata que ela se decidiu.

"Não tenho nada contra quem compra, mas creio que tem tantos animais precisando de um lar, de amor. A adoção é muito gratificante", opina. Quem também aprovou a nova amiguinha foi a pequena Maria Eduarda. A gatinha, que antes recebia o nome de Magda, quando chegou à casa da nova família virou Maya.

"A minha filha ficava muito no tablet e na frente da televisão, e isso não é bom. Com a chegada da Maya, ela esqueceu um pouco a tecnologia e começou a criar uma relação com a gatinha. Ela ajuda a dar comida", conta a analista fiscal.

Já na casa do empreendedor Marcel Pedretti Nobre, 39, e de sua mulher, a executiva Viviane Silva Nobre, 40, não é fácil decifrar quem tem estado mais contente com a chegada do cachorro da raça Border Collie, o Brother. Isso porque Marcel se considera um entusiasta da raça e pesquisou semanas para encontrar o cãozinho e levá-lo ao seu apartamento. Só que o filho do casal, o pequeno Théo, 7, não des YouTube.

“Está sendo muito diferente porque o Théo está considerando o Brother como filho. No primeiro dia eu tive que pedir para ele soltar o cão. Meu filho está descobrindo uma criança externa e entendendo que ele é totalmente responsável por ele. Sempre nos preocupamos em dar o melhor Dia da Criança a ele, e tenho certeza que o cão vai receber do Théo o mesmo carinho”, diz Marcel.

Ao criar o canal no YouTube, O Incrível Mundo do Théo, Marcel conta que a expectativa dele era de o filho mostrar mais sobre sua rotina. Após o lançamento do vídeo do dia em que foram buscar o cão no canil, muita gente elogiou a felicidade do menino. “Ele nem dormia com a ideia de ter esse canal. É recente, tem dois meses, mas é bonito de ver o amor genuíno que ele tem pelo Brother.”

Pesquisa veiculada em julho pela ONG União Internacional Protetora dos Animais mostra que houve um crescimento de 400% na procura por cães e gatos durante a quarentena em São Paulo. O levantamento realizado pelo Sindan (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal) revela que mais de 37 milhões de domicílios no Brasil contam com algum pet, na esmagadora maioria cães ou gatos: são mais de 54 milhões de cachorros e quase 30 milhões de gatos.

A pandemia do novo coronavírus mudou muita coisa na família da bancária Juliane Matos Alves Rodrigues, 37, e de seu marido, o dentista Paulo César Rodrigues, 40. O sogro da bancária morreu vítima da doença e essa perda despertou na filha Luiza, 7, um sentimento de que algo faltava para preencher o vazio que sentia no peito.

“Foi então que um certo dia ela virou para mim e disse: ‘Você não quer me dar uma irmã, não quer me dar um cão e nem vai trazer de volta o meu avô. Então nada tem mais sentido’. Aquilo me marcou muito e fomos comprar o Gold que é um Lulu da Pomerânia”, relembra a bancária que também é mãe de Enzo, 9.

Os irmão Enzo e Luiza com a mãe Juliane Matos e o cãozinho Gold - Rubens Cavallari/Folhapress

Depois que o bicho de estimação chegou em casa tudo melhorou. Aquela angústia da menina sumiu. E agora a criançada tem, digamos, outros planos para quando a pandemia acabar. “Os meninos cogitam que não voltarão à escola porque não querem deixar o Gold sozinho. E eu fui explicando que eles acostumam. Vai ser uma adaptação para todos”, afirma.

A história da arquiteta Rosana Pirovano, 47, é semelhante à de Juliane. Depois de 40 dias que ela havia comprado um maltês, de nome Floki, seu pai morreu vítima da Covid-19. É o animalzinho que tem alegrado a dura vida da família e da filha de Rosana, Chiara, 7, desde então. “Jamais substituirá meu pai, claro. Mas talvez ele tenha nos mostrado uma outra forma de amor que não conhecíamos”, destaca.

Como as demais crianças, Chiara ainda parece não acreditar que tem um bichinho de estimação na quarentena para fazer companhia. “Ela é filha única do meu casamento e a ideia do cão foi justamente ser uma companhia para ela, como um irmão para brincarem. E de fato ela tem uma relação muito boa com ele, brincam muito e ela o respeita.”

O Dia da Criança de ambos (Chiara e Floki) será incrível se depender da empolgação da mamãe coruja. “Fizemos para o Floki até hoje todas as comemorações mensais com bolo e parabéns. Na Páscoa até ovo ele ganhou”, relembra.

A arquiteta Rosana Pirovano, 47, ao lado do marido, o microempresário Marcello Greco, 53, e a filha Chiara Pirovano Greco, 7; eles posam com o cãozinho Floki
A arquiteta Rosana Pirovano, 47, ao lado do marido, o microempresário Marcello Greco, 53, e a filha, Chiara Pirovano Greco, 7; eles posam com o cãozinho Floki - Arquivo pessoal

CUIDADOS COM O PET

Adquirir um bichinho de estimação pode ser a melhor coisa do mundo desde que ele seja bem cuidado. Por mais que por vezes pareça um ursinho, um pet é um ser vivo e necessita de um tratamento diferenciado. Especialistas alertam para que esses fatores sejam levados em conta na hora de optar por escolher um pet.

Porém, se o animal é comprado ou adotado em meio a uma quarentena os cuidados precisam ser redobrados. As famílias precisam pensar no futuro, ou seja, no momento em que vão ter de voltar a trabalhar fora e deixar o animal sozinho.

De acordo com Bruno Leite, terapeuta de cães com 16 anos de experiencia, as relações entre seres humanos e animais estão muito consolidadas durante a pandemia e isso pode gerar um estresse quando o convívio for diminuído.

“A primeira dica é tentar manter o máximo de rotina possível, pois quando tudo voltar ao normal o filhote sentirá a mudança brusca. Os cachorros tendem a cair emocionalmente. O ideal é deixa-los sozinhos mais tempo durante as horas que ninguém estará em casa para eles irem se acostumando”, explica. O especialista também orienta fazer um enriquecimento ambiental, que é rechear o espaço do bicho com brinquedos para que ele associe o momento de solidão com algo bom.

Outro fator que ajuda é fazer constantemente passeios, tirar um momento do dia para brincar com ele e gastar sua energia para que durma melhor. “O pet precisa de previsibilidade. Se ele prevê que vai acontecer algo de bom com ele, não ficará ansioso”, destaca o especialista que é adepto do adestramento positivo, quando se recompensa o animal pelo bom comportamento. Qualquer um pode fazer em casa.

Outra recomendação para quem pegou um animal na quarentena é o período de vacinação. É importante estar atento às datas de vacinação de 21 em 21 dias após a primeira dose que geralmente é dada com 45 dias. Um pet vacinado é um pet saudável.

“Orientamos a saber a procedência do animal sempre. Recomenda-se ainda levar o animal ao veterinário com frequência para evitar dores de cabeça e transtornos futuros. Não deve-se esperar criar um vínculo e vê-lo adoecer. Será pior para ambas as partes”, define o médico veterinário com 30 anos de experiência Luiz Fernando Lucas Ferreira.

A castração, sobretudo em cães, é recomendada com seis meses de vida. A castração auxilia no comportamento do bicho e na prevenção de doenças como tumores de mama na fêmea e doenças na próstata em macho.

CRIANÇADA ADQUIRE RESPONSABILIDADE

Ter um animalzinho de estimação estimula a amizade, a confiança e dá mais responsabilidade para crianças. É isso o que afirmam especialistas em saúde mental.

Para Gregor Osipoff, psicanalista e pós-graduado em neurociência, a chegada de um novo amiguinho na família pode ajudar a melhorar a sensação de ansiedade das crianças em tempos de distanciamento social. “Tira o foco de muitas coisas que estão acontecendo com a família e com o mundo, ajudando a dar um direcionamento da atenção para um ser simplesmente adorável”, opina.

Em tempos de pandemia, o profissional acredita que a aquisição de um animal é mais positiva do que negativa. “O despertar de uma companhia é sempre especial. São emoções carregadas de amor, carinho e de um possível amigo, muitas vezes visto como um brinquedo, mas que a família tem que conduzir para o entendimento de um outro ser vivo. Ganhar um animal de estimação gera uma grande enxurrada de neurotransmissores que podem colaborar para a felicidade da criança. Mas o principal é o ‘hormônio do amor’, a oxitocina”, completa.

Especialista em maternidade e dona de um canal sobre o assunto com mais de um milhão de inscritos no YouTube, a consultora Monica Romeiro aponta o benefício de dar mais poder à criança e um senso maior de responsabilidade. “Temos ganho na autoestima, ela fica mais confiante, aumenta senso e responsabilidade. Crianças aprendem a respeitar o próximo”, diz.

A especialista reforça que o animal pode gerar no pequeno ensinamentos sobre vida. “Por viver menos, o bichinho fará a criança entender que existem perdas, não deixa de ser uma forma de fazê-la lidar com aspectos desse tipo no futuro.”

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