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De pão sírio a dança africana, imigrantes e refugiados em SP ensinam experiências típicas

Projeto reúne 20 estrangeiros que oferecem comida, música e arte de seus países

Renee Abegail, artesã da Guiana, ensina a costurar bonecas africanas

Renee Abegail, artesã da Guiana, ensina a costurar bonecas africanas Ulises Cabrera da Silva/Divulgação

Flávia Mantovani
São Paulo

"Roj bas", diz Fátima Ismail, 42, com um sorriso no rosto, enquanto estica a massa de pão, formando um disco fino. "Significa 'bom dia' em curdo, a língua da região de onde eu venho." Ela é de Afrin, na Síria, e aprendeu a fazer o típico pão folha com a mãe. "A gente era criança e brincava com a massa", lembra.

Ismail saiu do país em guerra e veio para o Brasil há quatro anos, com o filho. Chegando aqui, achou caro o pão vendido no mercado e resolveu fazer o próprio, resgatando a receita da bisavó. Agora, vai ensinar essa tradição familiar para brasileiros.

Ela é uma das imigrantes que vão oferecer, em São Paulo, experiências culturais de seus países de origem em um projeto recém-lançado. Desenvolvido pela organização social Migraflix, que ajuda imigrantes a empreender, o Raízes da Cidade é feito em parceria com o Airbnb, plataforma mais conhecida pelo aluguel de acomodações, mas que também oferece experiências culturais pelo mundo. 

Entre as opções do projeto de São Paulo estão aulas de dança congolesa e confecção de turbantes com uma ex-miss refugiada, degustação de comida típica venezuelana ou de empanadas chilenas, costura de bonecas de pano africanas e apresentação de música de uma banda haitiana.

Durante quatro meses, 50 imigrantes e refugiados participaram de um curso focado em empreendedorismo, desenvolvimento pessoal e artístico. As 20 melhores propostas foram selecionadas e incluídas na plataforma. 

São atividades de música, artesanato e gastronomia com anfitriões de nove países —África do Sul, Bolívia, Colômbia, Guiana Inglesa, Haiti, México, República Democrática do Congo, Síria e Venezuela. A ideia é que a interação com os brasileiros incentive conversas sobre as histórias pessoais dos imigrantes e sobre seus lugares de origem.

"Os tecidos africanos são uma parte enorme do nosso dia a dia", conta o congolês Duchelier Mahonza, 27. "Quando alguém vai se casar, a mãe da noiva pede tecidos como presente. Em um velório, a família de quem morreu usa o mesmo tecido para se diferenciar do restante dos convidados", ensina. 

Formado em artes plásticas, ele está no Brasil desde 2015. Já trabalhou como auxiliar de limpeza e ajudante geral, e agora quer se dedicar à sua área. No Raízes da Cidade, oferece uma oficina de pintura e tecidos africanos. 

Muitas das experiências acontecerão na casa dos imigrantes, em várias regiões de São Paulo. Casado com uma brasileira, o professor de francês haitiano Manier Sael, 44, vai buscar os participantes no metrô para levá-los à sua residência, onde preparará uma sopa típica de seu país.

Feita com ingredientes como abóbora, batata, carne marinada, repolho, agrião, alho-poró, nabo, cenoura e leite de coco, a “sopa da liberdade” é um dos símbolos da independência haitiana. "Em qualquer lugar do mundo onde o haitiano está ele toma essa sopa no dia 1º de janeiro, para começar o ano", conta. "Prova. Não tem gosto de liberdade?"

As experiências custam entre R$ 40 a R$ 130 por pessoa, e a renda fica inteiramente com o imigrante. Elas estão reunidas na página do projeto no site do Airbnb.  

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