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Governo de Roraima diz que Globo presta desserviço ao falar de venezuelanos em 'Órfãos da Terra'

Novela cita crise em Pacaraima; para governo é 'desserviço'

Novela aborda refugiados pelo mundo: nesta cena personagem de Julia Dalavia embarca em uma perigosa viagem para a Grécia com sua família - Reprodução/TV Globo
Lucas Rezende
São Paulo

Em meio ao drama de venezuelanos fugindo da crise econômica e humanitária rumo a países da América Latina, o governo de Roraima, sob gestão de Antonio Denarium (PSL), escreveu uma carta aberta em repúdio à trama da novela “Órfãos da Terra” (TV Globo), escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes sob viés do drama dos refugiados pelo mundo

No capítulo 66 exibido no dia 17 deste mês, dois personagens comentaram a notícia de que imigrantes venezuelanos estariam sendo hostilizados e vistos como inimigos pela população, mas que um padre de Pacaraima teria aberto as portas de uma igreja para recebê-los.

A cidade se transformou em uma zona de conflito entre brasileiros e venezuelanos em agosto de 2018 com pedradas, ataques com bombas de gás improvisadas, incineração de pertences de refugiados e vandalização de carros dos moradores locais.

Para o governo de Roraima, a Rede Globo “prestou um desserviço ao Estado de Roraima e aos roraimenses, que ao contrário da forma como foram tachados, vêm se desdobrando para ajudar os imigrantes venezuelanos, seja com trabalho, com ações sociais ou de voluntariado.”

Como revés, a gestão Denarium está lançando mão de dados que constam num relatório enviado pelo Governo de Roraima ao Senado Federal e ao Ministério da Saúde. “Se em 2016 foram realizados 3.445 atendimentos a venezuelanos, em 2018 esse número chegou a 48.454. Nos primeiros quatro meses de 2019, já são mais de 15 mil atendimentos. Na educação, mais de 7 mil venezuelanos matriculados na rede estadual de ensino, ou quase 10% do total”, diz. 

O governo lembra ainda que foi em um dos abrigos de Boa Vista a realização do primeiro casamento coletivo para imigrantes. “Mas, estranhamente, essa iniciativa e as ações na saúde e educação não foram divulgadas pela Rede Globo de Televisão, que parece preferir distorcer a realidade e influenciar negativamente a opinião pública nacional ao veicular conteúdo ofensivo ao valente povo de Roraima, que nos últimos anos se esforça para acolher bem e ajudar o povo venezuelano, diante de uma crise humanitária”.

Quatro milhões de venezuelanos já fugiram da crise econômica e humanitária em sua terra natal, segundo dados divulgados pelo Acnur, a agência da ONU para refugiados, e pela OIM, a Organização Internacional para a Migração. Só nos últimos sete meses, um milhão deixou o país. O Brasil já recebeu 168 mil venezuelanos.

Diante o cenário, o governo federal criou a Operação Acolhida para reduzir a pressão sobre Roraima, onde já houve episódios de xenofobia e violência. Mais de 5 mil venezuelanos viajaram para 67 cidades pelo programa. Um brasileiro foi apunhalado ao entrar em confronto com um venezuelano que havia roubado um supermercado. O venezuelano foi linchado até a morte por um grupo de brasileiros.

Neste contexto, a história escrita Duca Rachid e Thelma Guedes tem o drama dos povos expulsos de sua terras como pano de fundo para a história de amor de Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes). Laila é uma jovem síria que tem sua vida destruída pela guerra. Ela e sua família precisam abandonar o lar e partem para o Líbano. Em um campo de refugiados, ela se apaixona por Jamil, mas aceita se casar com o poderoso sheik Aziz (Herson Capri) para salvar vida de seu irmão mais novo, gravemente ferido em um bombardeio.

Procurada, a Rede Globo replicou posicionamento da Rede Amazônica - afiliada da emissora na região norte. Segundo a nota, novelas são obras audiovisuais de ficção, desvinculadas de qualquer compromisso com a realidade, como, aliás, está registrado ao final de cada capítulo. "Assim, como uma obra de ficção, a novela Órfaõs da Terra recria, livremente, situações que podem ocorrer na vida real, buscando apenas tecer o pano de fundo para suas histórias, e nesse caso sem nenhuma intenção de ofender a população de Roraima."

Sobre a fidelidade dos fatos, a Globo esclarecem que é em seus telejornais que vem dando ao assunto cobertura factual ampla e variada, nunca alheia à solidariedade dos roraimenses e à divulgação dos valores positivos do estado de Roraima e de sua população, especialmente quanto à acolhida dos refugiados venezuelanos. 

"Apenas como exemplos recentes estão a matéria veiculada no último dia 08 de junho no programa Como Será?, assim como o programa Sem Fronteiras da GloboNews, que vai ao ar amanhã à noite, por conta do Dia Mundial do Refugiado. O programa foi a Roraima acompanhar as atividades conjuntas das Forças Armadas do Brasil e das Nações Unidas na Operação Acolhida, que recebe os cerca de 500 venezuelanos que cruzam a fronteira todos os dias", diz o comunicado.

Da mesma forma, de acordo com a emissora, o assunto tem sido objeto de ações institucionais locais da Rede Amazônica, que, com a parceria da população de Roraima, arrecadou oito toneladas de alimentos. "Destaque-se ainda o profundo respeito e carinho que a Globo tem por Roraima e sua gente e o orgulho de ter tido o Monte Roraima como locação fundamental de umas de suas obras de grande audiência, a novela Império, que deu a todo o Brasil a oportunidade de conhecer as riquezas e belezas dessa terra", finaliza o texto. 

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