Saiu no NP

Saiu no NP: Polícia desce o cacete no 'Comício da Maconha'

No local havia "70 policiais para 80 manifestantes", assim relatou o jornal "Notícias Populares" do dia 1º de novembro de 1986 após cobertura do "Comício da Maconha".

Como em um passe de mágica, um efetivo grande de homens da Polícia Militar surgiu no meio da multidão e "desceu o cacete" em todo mundo, escreveu o diário. O evento, composto majoritariamente por estudantes, clamava pela liberalização da erva e acabou em pancadaria em pleno centro de São Paulo. A operação policial resultou na detenção de mais de 100 pessoas, incluindo transeuntes e curiosos próximos da área.

Crédito: José Luis da Conceição - 1º.nov.1986/Folhapress
Policiais do Garra levam manifestantes para a delegacia após a interrupção do Comício da Maconha, em 1986

Era reta final das eleições de 1986 quando às 18h do dia 30 de outubro, cerca de 80 pessoas se reuniram em frente às escadarias do Teatro Municipal, no centro da capital paulista, para fazer o protesto. Em meio às eleições para o governo do Estado, o jornal "Notícias Populares" classificou o evento como "Comício da Maconha".

De acordo com a reportagem, os manifestantes saíram em defesa "do uso e da liberalização da maconha". Os agentes chegaram, e a reunião não durou nem 10 minutos.

"Depois de muitos palavrões, socos, pontapés e gritos de desespero, o balanço foi este: um rapaz detido em flagrante por porte da droga, a agressão do repórter fotográfico do jornal 'Diário Popular' pelo investigador de polícia Antônio C. Laudares, e a prisão de mais de 100 pessoas", publicou o "NP".

Para o tenente Bolivar Martins, coordenador do batalhão responsável pela operação no local, os detidos foram encaminhados para a delegacia "porque faziam apologia do uso da droga". Todos foram levados após a intervenção da PM e do forte esquema de segurança dos policiais do Garra, que, armados com metralhadoras e à paisana, já estavam no local antes mesmo de o evento começar.

A detenção também não poupou os transeuntes, inclusive mulheres. Todas foram levadas "a força para os camburões". Segundo os policiais ouvidos pelo jornal, a detenção era "apenas para a prestação de mais informações no Departamento Estadual de Investigações Criminais, Deic, na Divisão de Entorpecentes".

Crédito: Folhapress
"Notícias Populares", em novembro de 86, relata a agressão a um fotógrafo e a detenção de manifestantes no Deic

A reportagem relatou que uma estudante de jornalismo teve seu filme apreendido pelas patrulhas, que não permitiam o registro da ação. A garota explicou que se tratava apenas de um trabalho da faculdade, mas foi detida. O mesmo ocorrera com o diretor de um pequeno jornal intitulado "Pícaro". Era Jairo Máximo, morador de Mogi das Cruzes. O homem foi levado pelas forças de segurança, assim como uma série de panfletos contra a "descriminalização do aborto e da maconha".

O tumulto também chegou às equipes de reportagens que cobriram a passeata. No meio do quebra-quebra, um repórter fotográfico do jornal "Diário Popular" teria sido agredido com palavrões e empurrões por um investigador do Deic. Ao tentar gravar a prisão de um jovem, seu equipamento foi seriamente danificado, relatou o texto do "Notícias Populares".

Indignados com a ação do Estado, transeuntes e manifestantes tentavam em vão conter os policiais, que colocavam todos nas viaturas encaminhando-os até a delegacia.

Na medida em que eram prestados os esclarecimentos, as autoridades liberavam os detidos. Algumas pessoas, contudo, ainda permaneciam na delegacia até serem indiciados por apologia ao crime. No final, a ação durou o dia todo e acabou sem prisões.

Ainda surpresos com a repercussão do fato, alguns dos manifestantes declararam à imprensa que novos atos já haviam sido marcados.


Nos dias de hoje, fenômenos como o "Comício da Maconha" realizado no final da década de 1980 continuam causando polêmica entre adeptos, simpatizantes e sociedade.

Mais recentemente, o evento conhecido como "Marcha da Maconha" aconteceu pela primeira vez na capital paulista em 2008, no Parque do Ibirapuera (zona sul da capital paulista).

Entre críticos que queriam criminalizar o movimento e adeptos que defendiam a liberdade de expressão, a Justiça proibiu os protestos até o ano de 2011. Sob a justificativa de "apologia às drogas", o Tribunal de Justiça vetou as passeatas.

Em maio deste ano (2015), novamente em São Paulo, vários manifestantes saíram às ruas para reivindicar a legalização da produção e uso de maconha no Brasil. A marcha ocorreu na avenida Paulista e atraiu, de acordo com a PM, 4.000 pessoas. Por sua vez, os organizadores do evento alegaram a presença de 15 mil pessoas.

Crédito: Marlene Bergamo - 23.mai.2015/Folhapress
Manifestantes participam da Marcha da Maconha em São Paulo, em maio de 2015

Em decisão unânime e após tantos impasses, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a realização da "Marcha da Maconha". Segundo o voto do ministro Celso de Mello, seguido por todos os demais, os protestos são atos espontâneos que desejam através da livre manifestação do pensamento "a possibilidade da discussão democrática do modelo proibicionista (do consumo de drogas) e dos efeitos que (esse modelo) produziu em termos de incremento da violência".

De acordo com os ministros da mais alta corte nacional, "os direitos constitucionais de reunião e de livre expressão do pensamento garantem a realização dessas marchas".

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