Saiu no NP

PC Farias é morto com tiro no peito

Em 2016, o Brasil vai relembrar os 20 anos do crime que abalou Brasília na metade da década de 1990, o misterioso assassinato de Paulo César Farias, conhecido simplesmente por PC Farias. Nas palavras do jornal "Notícias Populares", o acontecimento selou de vez "a maldição que se abateu sobre o bando que ferrou o país". De acordo com o periódico, o "bando" era formado pelo ex-presidente da República Fernando Collor, pela ministra Zélia Cardoso de Mello (Fazenda) e pelo próprio falecido.

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Em 24 de junho de 1996, o jornal noticia o assassinato de PC Farias

Em 23 de junho de 1996, o empresário Paulo César Siqueira Cavalcante Farias foi encontrado morto ao lado de sua namorada, Suzana Marcolino, na praia de Guaxuma, no litoral do Estado de Alagoas. Seu cadáver foi visto com um tiro no peito vindo de um revólver calibre 38.

PC foi tesoureiro da campanha eleitoral que elegeu o ex-presidente Fernando Collor de Mello em 1989. Collor venceu a disputa após enfrentar o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, quando obteve 35 milhões de votos contra 31 milhões de seu adversário.

Delatado por Pedro Collor de Mello, irmão do ex-presidente, o alagoano seria o pivô do primeiro impeachment da história do Brasil, em 1992.

À imprensa o empresário Pedro Collor declarou que PC Farias participava de um esquema de corrupção e tráfico de influência durante a campanha eleitoral. Na época, PC teve que responder a uma série processos. Após ser condenado pelo STF em 1994 por sonegação fiscal e falsidade ideológica, o tesoureiro deixou a prisão e passou a cumprir a pena em regime aberto no ano seguinte. Alvejado e com o corpo estendido na cama, sua liberdade chegou ao fim numa misteriosa noite de junho de 1996.

Apesar das primeiras investigações terem apontado para crime passional de Suzana Marcolino - seguido de seu suposto suicídio -, as autoridades também não descartaram a hipótese de queima de arquivo.

A polêmica foi acompanhada de perto pelo "Notícias Populares". Durante toda a cobertura, o jornal não hesitou em usar gráficos, resumos e cronologias para explicar o intrincado caso que envolvia um dos principais protagonistas da recente história política brasileira do momento. Com a imprensa em alerta, o acontecimento PC ganhou a capa do "NP" em 24 de julho de 1996. Em destaque, a inscrição: "Namorada fuzila PC Farias na cama".


"O empresário Paulo César Farias, 49 anos, o PC, está morto. Ele foi assassinado com um tiro no coração pela namorada, Suzana Marcolino, 28 anos, que se suicidou. Eles estavam juntos há um ano e quatro meses", noticiou o diário.

A reportagem, que também se baseara nas informações da polícia de Alagoas, foi sustentada pela declaração do secretário de Justiça do Estado, Rubens Quintella, que admitiu que havia fortes indícios de crime passional. A hipótese também foi compartilhada por um dos advogados de PC, Nabor Bulhões, para quem a possibilidade de queima de arquivo era um "delírio".

Ainda sem muita ênfase, a teoria de queima de arquivo acabou tendo pouco espaço durante as suspeitas iniciais. Porém o "NP" lembrou já no primeiro dia de cobertura que Nelson Jobim, na época ministro da Justiça, determinou a intervenção da Polícia Federal nas investigações. A ordem teria vindo devido ao grande número de processos e inquéritos que PC respondia na época. Como ressaltou o "NP", "Paulo César Farias era considerado um verdadeiro arquivo vivo".

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Em 24 de junho de 1996, o "Notícias Populares" informa que a Polícia Federal iria investigar a morte de PC Farias

Iniciou-se a partir daí uma verdadeira guerra de versões. De um lado, a polícia alagoana defendia a tese de crime passional, de outro, especialistas e autoridades federais tinham motivos de sobra para sustentar a ideia de queima de arquivo.

No dia 25 de junho, o "NP" sublinhou as afirmações de Cícero Torres, delegado que presidia o inquérito policial sobre a morte ocorrida dois dias antes. Para ele, as marcas de pólvora encontrada na mão direita de Suzana e a briga que o casal tivera na noite do crime apontavam para dolo passional. Conforme a polícia, PC Farias teria sido morto à queima-roupa por Susana, que, após ter matado o namorado, suicidou-se com um tiro no peito. O texto mereceu uma página no jornal, cuja reportagem foi publicada com o título "Polícia confirma que morte de PC foi crime passional".

No dia 26 de junho, porém, o "NP" publica uma verdadeira reviravolta do caso. A hipótese de queima de arquivo ganhou corpo após divulgação do assassinato pela imprensa e do acesso de médicos-legistas aos laudos técnicos. "A namorada do PC não se matou", decretava a capa do dia. A primeira página veio recheada com a revelação da voz daquele que o "Notícias Populares" caracterizou como "um dos maiores especialistas do assunto".

"Os laudos feitos até agora não batem com a tese da polícia de que a namorada de PC se matou", disse o professor de Medicina Legal da Universidade Federal de Alagoas, George Sanguinetti. Rebatendo a opinião da polícia local, o especialista afirmava que o tiro que matou Suzana veio de cima para baixo. Em caso de suicídio, ela tinha que estar ajoelhada no chão ou ter utilizado as duas mãos para efetuar o disparo em si mesma, o que não foi o caso. O médico também contestou a ideia de que PC teria sido alvejado à queima-roupa. A ausência de pólvora na roupa e a pele de PC Farias indicaria que ele fora um alvo a pelo menos 1,20 m de distância, e não de perto, como sustentava a polícia. A falta de vestígios de pólvora nas vestimentas de Suzana também seria indicativo de que não teria se matado. As proposições de Sanguinetti acabaram por colocar ainda mais polêmica no caso.

A versão do legista também ecoou pela voz do procurador-geral da República da época, Geraldo Brindeiro. Para ele, a conclusão da polícia de Alagoas era prematura por ter sido divulgada antes mesmo da abertura do inquérito, escreveu o "NP".

Enquanto isso, no terceiro dia de cobertura, o "Notícias Populares" publicou uma reportagem cujo tema daria o rumo das investigações. Com o texto "Arma usada no crime é da PM", a equipe de jornalismo do periódico anunciou que o revólver usado no crime poderia ter vindo dos seguranças particulares de PC Farias. Os 14 seguranças do tesoureiro eram da Polícia Militar.

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Em 26 de junho de 1996, reportagem do "Notícias Populares" informa que a arma usada no crime havia sido vendida pela Polícia Militar de Alagoas em março de 1995

Em 1999, após a Justiça não reconhecer os laudos que apontavam para crime passional, a polícia indiciou o deputado Augusto Farias (PPB-AL), irmão de PC, e mais oito funcionários do tesoureiro, entre seguranças e empregados da casa. Todos foram acusados de duplo homicídio e formação de quadrilha.

Augusto Farias não foi pronunciado pelo Ministério Público. No mesmo ano, quatro empregados da casa de praia teriam seus indiciamentos arquivados. Em janeiro de 2000, o Ministério Público acusou apenas quatro ex-seguranças por coautoria e duplo homicídio qualificado. Dois anos depois, todos recorrem ao Supremo Tribunal Federal, que em novembro decidiu arquivar o inquérito por falta de provas.

O destino do dinheiro desviado por Paulo César Farias, tal como sua morte, ainda permanece um mistério.

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