Saiu no NP

Cachorrinho disputado vai parar na cadeia em São Paulo

Em 14 de janeiro de 1982, quem passou pelo 9º Distrito Policial (Carandiru) foi surpreendido por ganidos e uivos saindo de uma das celas. O responsável não era um detento arrependido de seus crimes, mas um pastor alemão de cerca de quatro meses acorrentado pelo delegado depois de provocar polêmica na Vila Gustavo. O caso, que era para ser apenas uma briga de vizinhos, virou assunto do "Notícias Populares".

Max, o cão, era o centro de uma disputa entre o cabo da Polícia Militar Edivair, 25, e a dona de casa Iolanda, 26. O primeiro disse à polícia que o bicho fora dado a seu pai havia quatro meses e desaparecera um mês depois. No dia 14 de janeiro, Edivair viu Max no colo de Andreia, 9, filha de Iolanda, e quis arrancar o doce da criança.

Um marmanjo tentando separar uma criança de seu animal de estimação causou indignação nos moradores da rua de Iolanda, que saíram em defesa dela e o caso foi parar nas mãos do delegado José Eduardo, que resolveu encarcerar Max para acalmar os ânimos. Segundo o "NP", o caso ganhou até um boletim de ocorrência.

Iolanda contou à polícia que o cachorro fora um presente de um sargento que trabalha no canil da PM. Os militares, por sua vez, alegaram que era impossível que Max pertencesse à corporação, já que, apesar de gracioso, não tinha pedigree. Enquanto isso, o bicho sofria no isolamento de uma cela fria e mal iluminada, e dava tanta pena que foi devolvido aos cuidados de Iolanda e da filha até que a investigação fosse concluída.

No dia 17 de janeiro ocorreu uma reunião entre as partes litigantes na delegacia do Carandiru. Cada qual levou sua turma de vizinhos para testemunhar a favor de Edivair ou Iolanda, e esta inclusive arranjou estagiários e advogados do Departamento Jurídico do Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), para ajudar na sua defesa. O cão Max também teve sua presença solicitada.


De acordo com a reportagem de 18 de janeiro, a menina Andreia não largou o cão nem por um segundo durante o encontro. Ela contou ao "NP" que tinha um gato, o Chiquinho, mas que ele havia morrido e a mãe dera Max de presente a ela, em agosto do ano anterior. A defesa de Iolanda alegava na delegacia que a data em que Andreia recebera o presente era anterior àquela determinada por Edivair para o sumiço do bicho.

Mas Elias, pai de Edivair, garantiu que o cachorro quis correr para perto de seu filho quando o viu em 14 de janeiro, dia da confusão que resultou na prisão de Max. O repórter do "NP", no entanto, verificou que o animal fazia isso com todo mundo, inclusive com ele próprio.

Inabalável, Edivair levou à reunião na delegacia uma conhecida sua, Ana Maria, que se apresentou como a doadora de Max a Elias. Ela disse à polícia "ter certeza absoluta de que este é o mesmo cão, em razão de ter sua orelha direita caída por causa de um ferimento recebido quando ainda era filhote".

O delegado José Eduardo se viu acuado: os argumentos de ambos os lados eram ao mesmo tempo apaixonados e plausíveis.

A falta de provas inviabilizava que o impasse fosse solucionado. A decisão coube à compaixão do delegado, que preferiu deixar com Andreia a guarda do adorado Max, pelo menos até que Edivair provasse que era realmente o dono - ou até que ele também mostrasse um pouco de humanidade e se desse por vencido em favor da amizade de uma menina e seu cão.

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