Saiu no NP

Cônsul japonês é sequestrado em São Paulo

A população brasileira viveu quase 21 anos sob o rígido governo militar, que, em 1º de abril de 1964, depôs o presidente João Goulart e instalou um regime ditatorial no país. Durante esse período, a censura e a tortura foram instrumentos dos militares para calar os oposicionistas e se perpetuarem no poder.

Em 4 setembro de 1969, militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional) e do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), dois expoentes grupos que pregavam a luta armada contra o regime militar, sequestraram o embaixador americano Charles Burke Elbrick, no bairro de Botafogo, no Rio, e exigiram a libertação de 15 presos políticos, entre os quais estava o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu.

Crédito: 17.mar.1970/Folhapress
O cônsul do Japão, Nobuo Okuchi, durante coletiva de imprensa após ser libertado do sequestro pelo grupo de guerrilha urbana Vanguarda Popular Revolucionária

A estratégia foi tão bem-sucedida que desencadeou outras três ações parecidas, realizadas em 1970. O "Saiu no NP" desta semana destaca a cobertura feita pelo jornal "Notícias Populares" no caso do sequestro do cônsul japonês Nobuo Okuchi, na época com 52 anos, raptado em SP.

Em sua edição de 12 de março de 1970, o "NP" trouxe uma chamada sobre o acontecimento em sua capa: "Sequestrado em SP o cônsul do Japão". Em suas páginas internas, o periódico relatou que a ação dos sequestradores ocorreu por volta das 18h do dia 11, na rua Piauí, na região da Consolação, quando integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) armados com metralhadoras desceram de três carros e cercaram o automóvel do japonês, de acordo com o motorista Hideaki Doi.

No dia seguinte, o jornal publicou uma nota oficial do governo do então presidente Emílio Garrastazu Médici, que explicava as exigências dos sequestradores: a libertação de cinco presos políticos e o embarque dos mesmos para o México ou outro país, com a finalidade de assegurar suas vidas. Em um dos parágrafos do texto, assinado pelos ministros da Justiça, Alfredo Buzaid, e das Relações Exteriores, Mário Gibson Barbosa, o regime militar aceitava as condições impostas, "desde que provem que o cônsul está vivo e gozando saúde".


Após um dia sem maiores novidades, exceto pelo fato de o México ter concordado em receber os asilados, em 15 de março, o "Notícias Populares" estampou a seguinte manchete: "Embarcam os cinco presos para o México - Agora só falta libertar o cônsul".

A publicação informou os nomes dos cinco libertados e todo o desenrolar da operação que envolveu mais de 100 oficiais e transportou os indivíduos do aeroporto de Congonhas até o México. Eram eles: Shizuo Ozawa (integrante do Partido Comunista do Brasil), Otávio Angelo (da ALN), Diógenes (acusado de participação em atentados), madre Maurina (acusada de ajudar integrantes da ALN) e Adamaris Lucena (esposa do militante Antônio Raimundo de Lucena, que havia sido morto durante outra ação).

Em 16 de março de 1970, em letras garrafais, o "NP" destacou em sua 1ª página: "Cônsul do Japão foi libertado". O jornal trazia o êxito dos sequestradores, que conseguiram libertar os presos políticos e exilá-los em segurança, no México. Após a confirmação da chegada dos indivíduos, inclusive de três filhos de Adamaris Lucena, Nobuo Okuchi foi libertado e deixado na rua Arujá, no bairro do Paraíso, onde pegou um táxi e foi para sua casa.

Crédito: 13.mar.1970/Folhapress
Embarque de presos políticos no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em troca da libertação do cônsul japonês, Nobuo Okuchi, que foi sequestrado em 11 de março de 1970

No dia seguinte, em entrevista coletiva, Okuchi disse que foi bem tratado pelos sequestradores, que lhe forneciam várias refeições diárias, inclusive feijoada em uma das oportunidades.

O japonês também reconheceu três dos meliantes, mas suas identidades foram mantidas em sigilo, na época, para não atrapalhar as investigações. De um total de 15 militantes que participaram da ação, oito foram presos e cinco morreram em combate com as forças de segurança do governo.

No mesmo ano, nos meses de junho e dezembro, foram sequestrados, respectivamente, os embaixadores Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben (Alemanha) e Giovanni Enrico Bucher (Suíça), este último marcado por uma longa negociação, terminada em 13 de janeiro de 1971, que libertou 70 presos políticos, exilados no Chile. No total, os quatro sequestros garantiram a liberdade de 115 pessoas.

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