Saiu no NP

Inimigo das saias, maníaco do ácido apavora mulheres na zona leste

Shorts, minissaias e vestidinhos: o aparato das mulheres brasileiras para enfrentar o verão volta e meia gera controvérsia, e, no início dos anos 1990, uma onda de ataques contra pernas à mostra virou caso de polícia. Mulheres da zona leste de São Paulo, sobretudo em São Miguel Paulista, passaram a sair de calça no calor por medo do maníaco do ácido.

Em janeiro de 1990, o "Notícias Populares" soube dos ataques e começou a investigar. E.F.B., uma moça de 24 anos, relatou ao jornal que, numa noite de dezembro do ano anterior, enquanto caminhava em uma avenida movimentada da zona leste, um homem se aproximou e, sem dizer nada, sacou uma garrafinha de spray e borrifou um líquido gelado nas pernas dela.

Crédito: Folhapress
Em 16 de fevereiro de 1990, reportagem do "Notícias Populares" releva que, com medo de se tornarem a próxima vítima do maníaco do ácido, mulheres na zona leste de São Paulo optam por calças na hora de sair às ruas

"De início, só senti aquela coisa fria escorrendo nas minhas pernas. Depois, começou a queimar", disse a moça, que mostrou para a reportagem as manchas em suas canelas. No hospital a que foi levada, os médicos constataram que o líquido era ácido sulfúrico. No Distrito Policial de São Miguel Paulista, casos semelhantes se acumulavam desde setembro de 1988, quando aparecera a primeira vítima.

O delegado contou ao "NP" que, na época, acreditava que o culpado fosse funcionário de uma indústria química, alguém que tivesse fácil acesso ao ácido. Mas, pelas descrições díspares das vítimas que continuavam a aparecer, a polícia concluiu que não se tratava de um, mas de vários maníacos do ácido. "Acontece que a notícia se espalha. Um louco lê e sai fazendo a mesma coisa", afirmou.

Em 9 de fevereiro, o jornal anunciava a captura de um dos suspeitos, A.L.P., 31, que foi reconhecido por uma das mulheres atacadas. De tipo físico comum, desempregado e pai de três filhos, ele chegou ao DP de São Miguel alegando inocência. No entanto, quando repórteres pediram sua opinião a respeito de saias e afins, foi logo respondendo que achava que as mulheres tinham perdido o respeito e que não deviam se pintar, cortar o cabelo ou exibir o corpo "para os olhos dos homens pecadores". Disse que preferia vê-las "à moda antiga".

O acusado jurou ser pacato e seguidor de uma igreja pentecostal. A mulher que o reconheceu disse que, na ocasião do ataque, o homem saiu correndo e se escondeu num centro evangélico. Apesar dos indícios, nenhuma outra vítima reconheceu A.L.P. como o agressor, e o retrato falado de outro suspeito, que já ficara temporariamente preso em 1988 pela mesma acusação, foi desenterrado dos arquivos da polícia.

Alguns dias depois, em 15 de fevereiro, os policiais surgiram na delegacia com um rapaz que confessou ter aceito 200 cruzados novos de outro homem para jogar ácido na ex-namorada dele, de 17 anos, moradora de Guaianases. O rejeitado queria se vingar da moça e entregou o tubo de ácido para o rapaz, que atirou o líquido nela atingindo rosto e braços. O mandante ainda estava sendo procurado pela polícia.


No dia seguinte, reportagem do "NP" relatava que as mulheres em São Miguel Paulista haviam desistido de sair às ruas com outra coisa que não calças. Pairava a incerteza sobre a quantidade de maníacos do ácido que ainda estavam à solta e, para colocar lenha na fogueira, no dia 19 foi preso mais um suspeito.

Dessa vez tratava-se de um motorista de ônibus que foi reconhecido por sua vítima enquanto trabalhava. Já preso, alegou ser inocente e "um pacato crente da igreja metodista", mas foi reconhecido por outra mulher na delegacia.

Enquanto as investigações continuavam, o Carnaval foi chegando e tomando as manchetes do "Notícias Populares". Apesar do medo, muitas moças se recusaram a ir de calça para a folia no calor de fevereiro e decidiram enfrentar o(s) maníaco(s) do ácido nas passarelas. Vestiram a cautela e contaram com o apoio de todos que achavam que elas tinham o direito de usar o que bem entendessem.

Para as vítimas, o jeito era retomar a vida e pressionar por justiça. Uma delas, a costureira M.R.C., de 20 anos, agradecia o apoio que recebeu dos médicos, amigos e familiares, mas confessou ter uma ideia fixa: "Eu queria fazer uma operação plástica para tirar essa coisa da minha perna. Por isso, sonho em ganhar na Loto."

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