Saiu no NP

Plano para mudar o trânsito de SP mata do coração

Mudar o trânsito de São Paulo em 58 dias e acabar com os congestionamentos.

Esse foi o plano encampado no final da década de 60, quando a capital paulista abrigava aproximadamente 350.000 veículos, pelo coronel-aviador Francisco Américo Fontenelle, em operação com ampla cobertura do "Notícias Populares".

Às 14h30 do dia 18 de fevereiro de 1967, de camisa listrada, em plena Praça das Bandeiras, o coronel Fontenelle, seguido por auxiliares e jornalistas, ordenou aos inspetores da Guarda Civil: "Vamos começar a mexida".

Crédito: Sidney Corallo /3.abr.1967/Acervo UH/Folhapress
Vista do congestionamento na avenida Tiradentes, na região central da cidade de São Paulo, em abril de 1967

Naquele momento, depois de divulgar mapas e instruções sobre novas mãos de tráfego em São Paulo, o coronel Fontenelle, nomeado pelo governador Roberto Abreu Sodré como diretor do Departamento Estadual de Trânsito (DET), dava início à primeira intervenção da chamada
Operação Bandeirantes, a maior alteração no trânsito da cidade ao longo de sua história.

Na zona central da cidade, as mudanças foram executadas através de uma "rótula" principal –anel viário em torno do centro paulista– e em sentido único, contrário ao dos ponteiros do relógio, com proibição de curvas à esquerda fora dos cruzamentos com as vias preferenciais. Já a "rótula" secundária, ao redor da principal, determinava tráfego no sentido dos ponteiros do relógio e a proibição de curvas à direita fora dos cruzamentos com as vias preferenciais.

O resultado foi "Cidade virou um inferno!", destaque no "Notícias Populares" de 21 de fevereiro de 1967, que apresentou em cinco páginas os sintomas de um trânsito pior e do sofrimento do povo em 24 horas de terror.

Crédito: Folhapress
Ilustração de Francisco Américo Fontenelle por Otavio

A população já sofria com uma mudança que o coronel havia feito em 11 de fevereiro do mesmo ano, quando determinou a transferência das linhas de ônibus para pontos mais próximos das rodovias e a desativação da Rodoviária Júlio Prestes. Agora, assustados com o trânsito, usuários de coletivos começaram a andar a pé, e muitos passaram a chegar com atraso ao trabalho.

As avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia foram transformadas em mão única, o que afetou diretamente o comércio da região e deixou os proprietários preocupados com repentino esvaziamento. Nas portas das escolas, as inspetoras de alunos cumpriam a função dos guardas de trânsito, que foram deslocados para o centro da cidade. Com o percurso menor dos coletivos e a queda do movimento, 430 empregados de empresas de ônibus acabaram dispensados.

Mesmo assim, o coronel Fon-Fon, como era chamado, estava otimista em descongestionar o trânsito de São Paulo de qualquer maneira. Por isso, ele não ficava nem em seu gabinete, mas, sim, na rua controlando todos os detalhes.

Apesar de tentar estruturar o sistema viário de uma forma lógica, a inimizade da população aumentava, ainda mais quando o coronel, seu filho de 13 anos e seus agentes começaram a esvaziar pneus dos motoristas que paravam em lugares proibidos.

As críticas vinham de todos os lados em cima do diretor do DET. "Deputados voltam a criticar o novo trânsito paulistano" publicado no "NP" de 22 de fevereiro destacou a crítica da deputada Conceição da Costa Neves sobre as mudanças do trânsito e sua avaliação sobre o coronel: "Ele não está em pleno gozo de suas faculdades mentais."

Mas por que o então governador Abreu Sodré chamou Américo Fontenelle?


Porque o coronel já tinha obtido o êxito na solução do trânsito da Guanabara, na gestão de Carlos Lacerda, além de ter sido o responsável por planos de trânsito e transporte para Belém e São Luís.

Fontenelle tinha intuição técnica, mas talvez seus projetos nunca pudessem ter sido implantados em um prazo tão curto como em São Paulo.

Dessa forma, as informações sobre o trânsito passaram a ter destaque diário no "Notícias Populares". Em 24 de fevereiro, sob o título "Comércio do Tatuapé fechou protestando contra o trânsito", o jornal relatou as manifestações dos comerciantes da rua Antônio de Barros, na zona leste da cidade, sobre o fechamento da passagem de nível da Estrada de Ferro do Brasil.

A insatisfação movimentou os políticos. No dia 27 de fevereiro, em "Deputados querem balanço dos prejuízos causados a SP: trânsito", o "NP" trouxe a proposta de instaurar uma comissão de inquérito, feita pela deputada Conceição da Costa Neves, para examinar o problema e sugerir providências.

No dia seguinte, em três páginas, os títulos publicados pelo "Notícias Populares" eram bons termômetros de como se encontra a situação na cidade: "Trânsito maluco obriga outra mulher a dar à luz na rótula", "Novo trânsito provoca onda de crimes: bairros despoliciados" e "Trânsito virou caos no nono dia da operação".

Crédito: 11.jan.1967/Acervo UH/Folhapress
Fontenelle é recebido na redação do "Notícias Populares" por Jean Mellé, Nicolau Chauí e Álvaro Luís Assumpção

Em meio a tudo isso, o coronel Fontenelle mantinha o combate contra os estacionamentos irregulares e não perdoava quem parava em fila dupla. "Sei esvaziar pneus e sou violento", costumava dizer a quem o contestasse.

Mas, no dia 6 de março de 1967, após tantas pressões, o governador Abreu Sodré disse que tinha o direito de intervir no trabalho do coronel Fontenelle. "Ele estava certo nas linhas mestras de seu plano, mas errou em vários pontos ao aplicá-lo", afirmou o governador.

No dia seguinte, o "Notícias Populares" estampou: "Trânsito de SP tem novo diretor: Eduardo Fares Borges". O engenheiro Borges, o novo diretor do DET, determinou mudanças no trânsito para corrigir erros visíveis, mas ao longo do tempo elas foram se mostrando infrutíferas.

Em nova reviravolta, após deputados voltarem a criticar o trânsito e a Operação Bandeirante, no dia 17 de março, Borges foi dispensado, e o coronel Fontenelle reassumiu a direção do DET.

Mas, novamente, ele não permaneceu muito no cargo, pois continuavam intensas as pressões populares e dos deputados da Assembleia Legislativa, que afirmavam que o trânsito se tornara um condenável jogo de prestígio em campanha política.

Retrato da "fritura" sofrida pelo coronel ficou evidente em 5 de abril de 1967, destacado pelo "Notícias Populares" em "Trânsito: deputados exigem demissão do diretor do DET" e "Empresários já pediram queda de Fontenelle".

Nas primeiras horas do dia 6 de abril o coronel Francisco Américo Fontenelle foi exonerado da direção do DET, por decreto do governador Abreu Sodré, enquanto o delegado de polícia Tito Maeda acabou nomeado para assumir o Departamento.

"Novo Diretor do DET diz que trânsito será modificado" foi publicado no "NP" de 7 de abril com as novas propostas e a sua posse foi chamada de "posse de esperança".

A ânsia por um trânsito melhor permanece até os dias atuais, além da estrutura básica criada pelo coronel Fontenelle como espinha dorsal do sistema viário da cidade.

Crédito: Bosco/20.fev1967/Acervo UH/Folhapress
Vista da rua Xavier de Toledo, na região central de São Paulo, onde as pessoas andam a pé devido ao trânsito

No dia 9 de julho de 1967, Fontenelle, reformado da Aeronáutica, teve a oportunidade de dar sua versão sobre a Operação Bandeirantes no programa "Roleta Russa", da TV Paulista.

Ele andava de um lado para o outro e falava com firmeza e seriedade de sempre ao se explicar, ao defender suas ideias e a sua honestidade na direção do DET, mas em determinado momento, levou a mão esquerda à testa e deu dois passos para a esquerda. As câmeras do canal 5 acompanharam o seu movimento. De repente, fez-se um silêncio absoluto, o coronel dobrou as pernas e seu corpo foi ao chão. A câmera tremeu, e a transmissão foi interrompida.

"Fontenelle morre na TV em SP" foi a manchete do "Notícias Populares" de 10 de julho de 1967. Vítima de infarto fulminante aos 46 anos, Fontenelle, que nascera em 2 de fevereiro de 1921, deixou a mulher, Miriam Fontenelle, e cinco filhos.

Foi o desfecho do coronel que deu o passo mais importante do trânsito paulistano, cuja história continua até hoje.

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