Saiu no NP

'Morto' reaparece no dia da missa de 7º dia

Em agosto de 1987, no Sítio Pinheirinho, no Parque São Lucas (zona leste de São Paulo), a chegada inesperada de uma ambulância em uma casa do bairro, culminou em pânico e correria entre a vizinhança.

O veículo transportava para casa um paciente que acabara de ter alta do Hospital Pompeia (zona oeste de São Paulo), onde estivera internado por cerca de 15 dias, depois de sofrer um atropelamento em São Caetano do Sul, no Grande ABC paulista.

Ainda debilitado, o paciente fora entregue no número 208 da rua Luís Gastão, endereço que ele mesmo havia informado ao hospital como sendo o de sua morada. Era, enfim, a sua volta para casa depois de duas semanas de molho no hospital.

No entanto, a proprietária da residência, dona Lídia Cores da Silva, uma viúva de 76 anos que sete dias antes sepultara um de seus filhos - também vitimado em um atropelamento - não aguardava visita naquele dia, muito menos vinda de um hospital, uma vez que nenhum dos moradores da casa estivera internado naquele intervalo de tempo.

Crédito: Folhapress
Em 31 de agosto de 1987, o "Notícias Populares" publicou o caso de Valter Custódio da Silva

A chegada do "misterioso paciente" causou tumulto e corre-corre no bairro. Depois de ser deixado pela ambulância em frente à casa de dona Lídia, onde não havia qualquer pessoa do lado de fora para recepcioná-lo, o homem abriu o portão e entrou calmamente no quintal da residência, evidenciando total familiaridade com o lugar. Já a reação de dona Lídia e sua família ao ver o "novo hóspede ", foi de muita gritaria e desmaios.

O caso envolvendo dona Lídia e o "inesperado paciente" foi o principal destaque do "Notícias Populares" em 31 de agosto daquele ano.
Conforme o jornal relatou na época, tudo começara no final de julho, com o desaparecimento de Valter Custódio da Silva, de 42 anos, filho de Lídia Cores da Silva. Custódio vivia de pequenos serviços, e era muito conhecido na região onde morava com a mãe e os irmãos.

Em desespero, os familiares percorreram diversos hospitais, prontos-socorros e delegacias atrás de ao menos um indício que os levassem ao paradeiro de Valter. Os vizinhos também ajudaram na procura, mas todo o esforço foi em vão.

Foram dias de extrema ansiedade e angústia, principalmente para dona Lídia, que já não suportava tamanho sofrimento com o repentino desaparecimento do filho.

Duas semanas após o sumiço, um dos familiares recebera um telefonema dando conta de que um homem com as mesmas características de Valter morrera atropelado em Santo André (no Grande ABC paulista) e que por essa razão seria melhor que todos fossem até o hospital daquele município para fazer o reconhecimento do corpo.

Seguindo a recomendação, alguns membros da família rumaram para o local, e chegando lá constataram: era mesmo Valter. "Dona Lídia não teve dúvidas: aquela sarda no rosto, que o filho tinha desde criança... era ele mesmo", relatou ao "NP".

A notícia correu rápido pelo Sítio Pinheirinho, e mais uma vez os vizinhos se mobilizaram em apoio aos familiares, desta vez na arrecadação de fundos para o funeral do colega. Alguns comerciantes circularam listas para o rateio. Todo o dinheiro foi entregue à família do "morto".

O velório foi realizado na própria casa de dona Lídia, que em certo momento da cerimônia, tremendo dos pés à cabeça, pedira auxílio para ir até o caixão do filho. Ao vê-lo trajando o melhor paletó que tinha, não aguentou, a emoção venceu e ela desmaiou. Socorrida pelos amigos, conseguiu voltar a si, mas chorara abundantemente a morte do filho, que horas depois fora sepultado no cemitério de Vila Alpina (zona leste de São Paulo).

No fim do enterro, familiares e amigos saíram inconsoláveis do cemitério. "Os olhos de dona Lídia mais pareciam duas fontes de lágrimas", informou o "NP" naquele dia. Mas uma drástica mudança estava para acontecer na vida daquela senhora.

Na semana em que sucedeu o sepultamento de Valter, e no dia em que a família se preparava para sua missa de sétimo dia, uma assombrosa aparição tomou conta da casa de dona Lídia: era o filho Valter, "vivinho da silva", e que acabara de ser trazido por uma ambulância vinda do Hospital Pompeia.

Com dificuldades para andar, o "morto vivo" entrara calmamente no quintal da casa. Já os familiares, que correram até a porta para vê-lo, entraram em choque com a cena que vivenciaram naquele instante.

Crédito: Folhapress
O Parque São Lucas, na capital paulista, ficou intrigado com o 'morto' que apareceu no dia da missa de sétimo dia

Sem saber o que houvera na sua ausência, o "morto" continuou andando em direção à porta da casa. Logo, uma pequena multidão se formara em frente à residência, todos boquiabertos com a imprevista e assustadora aparição.

Passado o "terror", todos queriam tocá-lo para se certificarem de que não estavam em um sonho. Quando questionado sobre o que acontecera nas últimas semanas, Valter respondeu que havia sido atropelado em São Caetano do Sul e fora rapidamente transportado para o Hospital Pompeia, onde ficou internado até o dia em que a ambulância o levou para casa. O "Notícias Populares" não relatou por qual razão Valter não entrara em contato com a família durante o tempo em que esteve fora de casa.

Dispostos a esquecer o aterrorizante contratempo, os familiares não quiseram contato com jornalistas.

Mas outra pergunta não queria calar: quem era o homem que, reconhecido como filho por dona Lídia, fora enterrado com o melhor paletó de Valter?

Talvez, 27 anos depois, a família do "sósia morto" de Valter ainda esteja passando pela mesma angústia vivida por dona Lídia e sua família naquelas indesejáveis semanas de agosto de 1987.

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