Saiu no NP

Exu provoca mortes e compra briga com a imprensa

Em 29 de agosto de 1971, um programa transmitido pelas redes Globo e Tupi causou polêmica ao mostrar uma sessão de umbanda com a mãe de santo Dona Cacilda de Assis, que trouxe aos estúdios o espírito de Seu Sete da Lira, um exu. Enquanto os céticos reclamavam da má qualidade da TV brasileira, o "Notícias Populares" preferiu investigar o fenômeno.

Dizia-se que os poderes de Seu Sete alcançavam até aqueles que não estivessem presentes na roda de Dona Cacilda, que reunia seus umbandistas no Rio. É o caso de um babalaô de São Gonçalo que, segundo reportagem de 1º de setembro, estava em sua casa "mas concentrou-se para dar força ao Exu" com o auxílio de filhos de santo. Um deles, porém, abandonou a sala e logo depois ouviu-se um tiro. O rapaz, que parecia em transe, tinha se suicidado.

De acordo com o jornal, na mesma hora em que o suicídio ocorria, em outra parte do Rio dois vizinhos iniciavam uma violenta briga depois de debaterem se Seu Sete da Lira era um exu masculino ou feminino. Um deles entrou em casa, voltou armado e disparou várias vezes contra o outro, que foi internado em estado grave.

Crédito: Folhapress
Após aparecer na TV encarnado em Cacilda de Assis, Seu Sete da Lira motivou reportagem do "Notícias Populares"

Eventos como estes chamaram a atenção da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A respeito do programa de televisão, a entidade se manifestou aconselhando cautela aos católicos e negando os poderes de Seu Sete. O cardeal Eugênio Sales alertou, em pronunciamento no rádio, para a voracidade dos brasileiros por todo tipo de religiosidade e, "com essa fome de Deus, surge um grave problema: a escolha do alimento".

A Receita Federal também entrou em alerta, e, em 5 de setembro, o "NP" anunciou que o fisco faria uma visita aos domínios de Seu Sete.

Verificou-se que Dona Cacilda sonegava alguns impostos e deixara de declarar rendimentos nos últimos anos. No terreiro, vendiam-se pulseiras, colares, bebidas e charutos e prestavam-se serviços de aconselhamento e cura, tudo sem licença alguma.

A imprensa também passou a ameaçar o terreiro com suas investigações, o que levou os frequentadores a montarem guarda na entrada para barrar repórteres. No dia 8 de setembro, o "Notícias Populares" noticiou que Seu Sete da Lira, incorporado em Dona Cacilda, declarara guerra à imprensa e mandara um recado aos jornalistas: "Fiquem na de vocês que eu fico na minha".

A polêmica com a imprensa aumentou quando Manoel Queiroga, presidente da União Brasileira de Estudos e Preservação dos Cultos Africanos, disse no programa de Sílvio Santos que os cultos "estão sendo conspirados por mistificadores que sempre encontram na fé e na desgraça dos outros uma forma de enriquecer rapidamente". Seguidores de Seu Sete viram aí uma indireta e passaram a atacar o especialista em suas sessões.

Se, por um lado, não afastou os umbandistas do terreiro, por outro, a campanha contra Dona Cacilda e seu exu provocou alterações na televisão brasileira. Em pleno regime militar, o governo passou a acompanhar mais de perto os programas de auditório, exigindo que alguns fossem gravados e submetidos a uma vistoria antes de serem exibidos. Controle de qualidade ou censura, eis uma resposta que os orixás guardaram consigo.


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