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'Vampiro Negro' deixa colônia japonesa em pânico

27/08/2014 - 06h00

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ALEXANDRE POLLARA
DO BANCO DE DADOS FOLHA

Era sempre pela manhã e às terças-feiras, em 1972, que o "Vampiro Negro" atacava mulheres, todas orientais, sugando-lhes o sangue do pescoço e as forçando aos seus atos libidinosos.

O primeiro ataque aconteceu em fevereiro de 1972 no Bosque da Saúde, na zona sul de São Paulo, quando a residência de Ayaka Sulgama, que se encontrava com os filhos, foi invadida por um negro. O vampiro a ameaçou com um revólver e a obrigou a se despir diante das crianças, para que então forçasse o ato sexual.

O segundo caso foi registrado em 14 de março do mesmo ano, quando a vítima Tizuyo Tanaka foi atacada também em sua residência no bairro de Vila Gumercindo e na presença dos filhos. Outros crimes surgiram, deixando uma marca comum: o profundo silêncio das vítimas.

Folhapress
Retrato falado do criminoso que atacava mulheres japonesas em 1972
Retrato falado do criminoso que atacava mulheres japonesas em 1972, publicado pelo 'Notícias Populares'

Após oito meses do primeiro ataque, o "Notícias Populares" destacou em 31 de outubro de 1972 a manchete "Vampiro atacou 40 japonesas". A reportagem mostrou as dificuldades enfrentadas pelos policiais devido à cultura das mulheres violentadas –elas ficam reclusas em vez de relatarem detalhes dos crimes– e à caçada particular iniciada por membros da colônia japonesa de São Paulo, que juraram linchar e matar o "monstro".

O detalhe que chamou a atenção dos investigadores foi o dia preferido para os ataques sexuais, sempre pelas manhãs de terças-feiras. As vítimas, que eram sempre mulheres de feirantes, encontravam-se sozinhas ou com os filhos nas residências.

O tarado sexual atacava sempre munido com um revólver e uma faca de 30 centímetros. Com esta última, produzia um ferimento no pescoço das vítimas e sugava-lhes o sangue. O local dos diversos ataques limitava-se até então aos bairros da zona sul de São Paulo.

Como a série de crimes estava alarmando a população de São Paulo e, em especial, a colônia japonesa, no dia 1º de novembro o "NP" destacou "Psiquiatra analisa o 'Vampiro Negro'". O doutor Carlos Klebger Canona, especialista em tratamentos para neuróticos e psicóticos, analisou o comportamento estranho do criminoso, tomando como base dados dos investigadores e depoimento das vítimas.

Em entrevista exclusiva ao "Notícias Populares", o psiquiatra declarou tratar-se de um maníaco. Segundo ele, o fato de os 40 atentados sexuais terem sido contra mulheres japonesas, o criminoso encontra nesse tipo de mulher a excitação sexual que normalmente lhe falta em outras. Assim, as orientais seriam uma figura afrodisíaca, que restaurava a excitação e os apetites sexuais do vampiro.

"Sua atitude agressiva, ferindo essas mulheres com uma faca e obrigando seus filhos a presenciar o ato sexual, demonstra uma deslocação sexual antiga, originada num núcleo de problemas adquiridos na infância. O fato de atacá-las, não chegando a matá-las, juntamente com o de obrigar as crianças a verem suas mães estupradas, revela uma forma de revolta dirigida à sua própria mãe", afirmou Canona.

Enquanto eram feitos a análise e o perfil do criminoso, os policiais receberam uma boa notícia. "Identificado o vampiro que atacava só japonesas" foi destaque do "NP" do dia 4 de novembro, referindo-se a Jairo Orlando de Mello, 23, solteiro, que abandonou sua casa no bairro de Vila Simões, após ter atacado também uma de suas vizinhas.

Durante as investigações, os policiais descobriram o nome da amante de Jairo, Lourdes, a qual teria escondido o "Vampiro Negro" na casa de suas amigas e que estava foragida após publicações no jornal sobre os atentados.

Com o desaparecimento de Lourdes, natural de Poços de Caldas (MG), os investigadores supunham que ela deveria ter levado Jairo para a cidade mineira. Pessoas da região, então, identificaram o suspeito com a mulher em um bar. Isso inibiu ataques na cidade, porque a polícia estava de olho.

No dia 6 de novembro, em "Vampiro Negro ameaça japonesas de Suzano e Mogi", o "Notícias Populares" mostrou outras colônias japonesas que poderiam ser alvos de ataques do criminoso.

4.nov.1972/Folhapress
Lourdes, a amante do 'Vampiro Negro
Lourdes, a amante do 'Vampiro Negro'
4.nov.1972/Folhapress
Jairo Orlando de Mello, o 'Vampiro Negro
Jairo Orlando de Mello, o 'Vampiro Negro'

A CAPTURA
Na caçada ao indivíduo, o jornal destacou em 7 de novembro ("Policiais com nova pista cercam o 'vampiro negro'") informações do último emprego de Jairo na Vila Gumercindo, do qual ele havia sido despedido uma semana antes do primeiro de crime.

E foi graças a um retrato falado publicado no "Notícias Populares" que o motorista Elvécio Faria reconheceu Jairo após ele esquecer um documento no interior do caminhão da empresa onde trabalhava.

"Corvão Preso" foi a chamada de 21 de novembro do jornal que trouxe a prisão do "Vampiro Negro" em Poços de Caldas (MG). Em poucos minutos, a polícia cercou a empresa de transportes, e, sem esboçar reação, Jairo foi levado para a delegacia local sob forte escolta.

Com sua prisão, feirantes exaltados, faixas-pretas e mestres em caratê compareceram ao distrito policial para ver de perto o criminoso responsável por dezenas de atentados sexuais a mulheres japonesas.

Em 22 de novembro, o "Notícias Populares" encerrou mais uma história estranha que chamou a atenção da população e dos seus leitores com a manchete "Colônia japonesa cerca delegacia para linchar Corvão, o 'Vampiro Negro'".

Diante da aglomeração, a polícia até reforçou a escolta para impedir uma possível agressão. Por fim, dez das vítimas identificaram e afirmaram que Jairo Orlando de Mello era mesmo o "Vampiro Negro".

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