Saiu no NP

'Vampiro Negro' deixa colônia japonesa em pânico

Era sempre pela manhã e às terças-feiras, em 1972, que o "Vampiro Negro" atacava mulheres, todas orientais, sugando-lhes o sangue do pescoço e as forçando aos seus atos libidinosos.

O primeiro ataque aconteceu em fevereiro de 1972 no Bosque da Saúde, na zona sul de São Paulo, quando a residência de Ayaka Sulgama, que se encontrava com os filhos, foi invadida por um negro. O vampiro a ameaçou com um revólver e a obrigou a se despir diante das crianças, para que então forçasse o ato sexual.

O segundo caso foi registrado em 14 de março do mesmo ano, quando a vítima Tizuyo Tanaka foi atacada também em sua residência no bairro de Vila Gumercindo e na presença dos filhos. Outros crimes surgiram, deixando uma marca comum: o profundo silêncio das vítimas.

Crédito: Folhapress
Retrato falado do criminoso que atacava mulheres japonesas em 1972, publicado pelo 'Notícias Populares'

Após oito meses do primeiro ataque, o "Notícias Populares" destacou em 31 de outubro de 1972 a manchete "Vampiro atacou 40 japonesas". A reportagem mostrou as dificuldades enfrentadas pelos policiais devido à cultura das mulheres violentadas –elas ficam reclusas em vez de relatarem detalhes dos crimes– e à caçada particular iniciada por membros da colônia japonesa de São Paulo, que juraram linchar e matar o "monstro".

O detalhe que chamou a atenção dos investigadores foi o dia preferido para os ataques sexuais, sempre pelas manhãs de terças-feiras. As vítimas, que eram sempre mulheres de feirantes, encontravam-se sozinhas ou com os filhos nas residências.

O tarado sexual atacava sempre munido com um revólver e uma faca de 30 centímetros. Com esta última, produzia um ferimento no pescoço das vítimas e sugava-lhes o sangue. O local dos diversos ataques limitava-se até então aos bairros da zona sul de São Paulo.

Como a série de crimes estava alarmando a população de São Paulo e, em especial, a colônia japonesa, no dia 1º de novembro o "NP" destacou "Psiquiatra analisa o 'Vampiro Negro'". O doutor Carlos Klebger Canona, especialista em tratamentos para neuróticos e psicóticos, analisou o comportamento estranho do criminoso, tomando como base dados dos investigadores e depoimento das vítimas.

Em entrevista exclusiva ao "Notícias Populares", o psiquiatra declarou tratar-se de um maníaco. Segundo ele, o fato de os 40 atentados sexuais terem sido contra mulheres japonesas, o criminoso encontra nesse tipo de mulher a excitação sexual que normalmente lhe falta em outras. Assim, as orientais seriam uma figura afrodisíaca, que restaurava a excitação e os apetites sexuais do vampiro.


"Sua atitude agressiva, ferindo essas mulheres com uma faca e obrigando seus filhos a presenciar o ato sexual, demonstra uma deslocação sexual antiga, originada num núcleo de problemas adquiridos na infância. O fato de atacá-las, não chegando a matá-las, juntamente com o de obrigar as crianças a verem suas mães estupradas, revela uma forma de revolta dirigida à sua própria mãe", afirmou Canona.

Enquanto eram feitos a análise e o perfil do criminoso, os policiais receberam uma boa notícia. "Identificado o vampiro que atacava só japonesas" foi destaque do "NP" do dia 4 de novembro, referindo-se a Jairo Orlando de Mello, 23, solteiro, que abandonou sua casa no bairro de Vila Simões, após ter atacado também uma de suas vizinhas.

Durante as investigações, os policiais descobriram o nome da amante de Jairo, Lourdes, a qual teria escondido o "Vampiro Negro" na casa de suas amigas e que estava foragida após publicações no jornal sobre os atentados.

Com o desaparecimento de Lourdes, natural de Poços de Caldas (MG), os investigadores supunham que ela deveria ter levado Jairo para a cidade mineira. Pessoas da região, então, identificaram o suspeito com a mulher em um bar. Isso inibiu ataques na cidade, porque a polícia estava de olho.

No dia 6 de novembro, em "Vampiro Negro ameaça japonesas de Suzano e Mogi", o "Notícias Populares" mostrou outras colônias japonesas que poderiam ser alvos de ataques do criminoso.

Crédito: 4.nov.1972/Folhapress
Lourdes, a amante do 'Vampiro Negro'

Crédito: 4.nov.1972/Folhapress
Jairo Orlando de Mello, o 'Vampiro Negro'

A CAPTURA
Na caçada ao indivíduo, o jornal destacou em 7 de novembro ("Policiais com nova pista cercam o 'vampiro negro'") informações do último emprego de Jairo na Vila Gumercindo, do qual ele havia sido despedido uma semana antes do primeiro de crime.

E foi graças a um retrato falado publicado no "Notícias Populares" que o motorista Elvécio Faria reconheceu Jairo após ele esquecer um documento no interior do caminhão da empresa onde trabalhava.

"Corvão Preso" foi a chamada de 21 de novembro do jornal que trouxe a prisão do "Vampiro Negro" em Poços de Caldas (MG). Em poucos minutos, a polícia cercou a empresa de transportes, e, sem esboçar reação, Jairo foi levado para a delegacia local sob forte escolta.

Com sua prisão, feirantes exaltados, faixas-pretas e mestres em caratê compareceram ao distrito policial para ver de perto o criminoso responsável por dezenas de atentados sexuais a mulheres japonesas.

Em 22 de novembro, o "Notícias Populares" encerrou mais uma história estranha que chamou a atenção da população e dos seus leitores com a manchete "Colônia japonesa cerca delegacia para linchar Corvão, o 'Vampiro Negro'".

Diante da aglomeração, a polícia até reforçou a escolta para impedir uma possível agressão. Por fim, dez das vítimas identificaram e afirmaram que Jairo Orlando de Mello era mesmo o "Vampiro Negro".

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